viernes, 6 de marzo de 2009

Adelaide

Um dia perguntei-te se podia fazer-te uma entrevista sobre a tua vida. Despachaste-me com um “julgas que estou pra te aturar?!”. Tinhas sempre resposta prontinha “na ponta da língua”, mesmo quando só nos querias mandar “lamber sabão”. Não eras mulher de não dar troco: respostas às vezes lacónicas, outras amargas, outras bem-humoradas - que tu gostavas de conversas bem condimentadas e eras de raciocínio rápido.
Que interessante seria ter filmado essa entrevista para poder recordar e mostrar aos que não chegaram a tempo de conhecer esse teu lado mordaz, o teu lado sábio, o teu lado mais generoso e amigo e o outro mais sofrido, porque tiveste o teu período escuro, que muitas vezes (demasiadas) vi reviver nos teus olhos…
Eu não insisti, mas volta e meia pensava que tinha de te fazer essa entrevista e que um dia acabaria por te convencer… Afinal quantas coisas tem para contar alguém que nasceu em 1919, mesmo logo na ressaca da primeira guerra mundial, alguém que viu Salazar chegar ao poder e endoidecer, alguém que viu os soldados partir, a revolução dos cravos florir, alguém que viu as saias a subir e os decotes a descer e alguém que rezou tanto para eu nascer por achar que me ia perder mesmo antes de me conhecer…
E talvez fosse por aí que eu começasse a entrevista: afinal o que te deu avó para acreditares numa bruxa que disse que eu e a tua filha morreríamos durante o parto? Como se vive com essa angústia durante meses? Como se esconde essa angústia durante meses? Várias vezes me contaste essa história, mas sempre recordando o lado mais pitoresco de como a desgraçada da bruxa ficou com uma bela prenda em troca do serviço, felizmente defeituoso, de futurologia.
Tu também eras dada a futurologia, eras muito intuitiva, tinhas muitos “palpites” e até sabias quando o tempo ia mudar: os teus joelhos eram mais precisos do que a meteorologia.
E a tua imaginação era fértil, mesmo muito: era da tua boca e da do avô que eu ouvia as histórias de embalar… Bom, na verdade eram histórias de apaziguar, tentativa de impedir que eu e a minha prima guerreássemos por mais um centímetro de colchão antes de adormecer! E vocês não liam histórias. Nada disso! Eram inventadinhas na hora, “levantadas das unhas dos pés” como dizias…
Aliás dizias outras coisas muito engraçadas: “aqui há atrasado” quando querias falar do que já passou, “trinta por uma linha” e a melhor de todas: “levas já uma esquecida”, quando o tom era ameaçador e brincalhão…
Esse desembaraço verbal deve ter crescido nas calçadas da Ribeira de Miragaia, ou quando acompanhavas a tua mãe na venda de peixe porta-a-porta pelas casas mais abastadas do Porto, de outro Porto. Ninguém te enganava com o peixe, sabias sempre se era do dia, conseguias lê-lo nos olhos do animal. Conhecias todos os peixes pelo nome e sabias qual é que era para cozer e qual se deveria fritar e assar!
Que também eras boa cozinheira: fazias o melhor pastelão de broa e as melhores iscas do mundo, também nunca comi papas de serrabulho mais saborosas do que as tuas e poucas memórias olfactivas são tão presentes para mim como o cheiro a cominhos do teu arroz de feijão. Mas o teu ex-líbris era a “sopa de leite”, assim baptizada por ti. Encantou as sucessivas gerações de crianças que passaram pelos teus cuidados, antes e depois de percebermos que não levava leite!!! Muitas vezes era pela sopa de leite que eu começava o dia: hábito que cobiçava no avô, que gostava de a comer de pé e com garfo… Depois bebia-a, quando já só era “leite”! Continuo a gostar de comer sopa ao pequeno-almoço, embora à colher e sentadinha! E gosto de a comer fria no Verão…
E as tripas enfarinhadas quentinhas que íamos buscar à Bertinha todas as quintas-feiras de manhã… Às vezes duas vezes porque comíamos a primeira rodada antes de chegar a casa! E o segundo pequeno almoço que ias levar-me quentinho ao recreio… É certo que moravas a uns metros da escola e não percebias como eu era gozada por ser a única menina que comia pão com manteiga acabado de torrar e bebia leite com canela por uma chávena à hora do recreio! Ias tu e o Bolinhas, o único gato que foi um bocadinho meu e que me acompanhava para a escola e às vezes ia buscar-me quando saía…
Tu sempre gostaste de piqueniques ao pequeno-almoço: também o fizemos muitas vezes na Praia de Matosinhos, mesmo junto ao Paredão. Gostavas da praia muito cedo. Acho que gostavas mais do nevoeiro do que do sol… Lá íamos nós (de madrugada, achava eu) na camioneta munidos de farnel. Leia-se: garrafa térmica com cevada e leite e pãozinho fresco com manteiga. Regalávamo-nos com este manjar enrolados na toalha antes do sol chegar, mas com o mar à frente como consolo e a promessa de que passadas duas horas (na altura parecia que eram muitas mais) teríamos direito ao mergulho. E essa era a grande razão para se ir à praia (achava eu): furar as ondas e estar na água todo o tempo possível. Cada minuto a mais era arduamente negociado contigo!
Em casa, às vezes, eras companheira de brincadeiras: alinhavas connosco nas novelas! Fazias de governanta e servias a refeição onde nós achássemos que seria a sala de jantar ou o restaurante de fingir… quando estavas para aí virada porque quando não estavas mandavas-nos com o avô pastar as ovelhas… Eu gostava pouco porque tinha medo das marradas de algumas delas (nunca tive lá muito jeito para a pastorícia), mas lembro-me de aprender a desenhar no chão os números e as letras e de fazer as contas que o avô passava na terra com o cajado para nos entreter… outras vezes jogava à macaca connosco, que ele tinha genica suficiente para isso: fazia quilómetros em cima da bicicleta!
Nós também tivemos a fase das bicicletas: uma dor de cabeça para ti e muitas dores de joelhos para mim… Lá andavas tu a gritar por nós de vez em quando e a ralhares para não nos afastarmos das redondezas… Daquela vez que enfiei uma pedra pela carne do joelho dentro não sei se ficaste mais preocupada ou mais furiosa… Ainda tenho essa medalha de bom comportamento tatuada na pele.
Nos meus momentos mais ajuizados aproveitavas para me iniciar nas lides domésticas. Gostava particularmente de lavar roupa na tua pia. Aos sábados, a minha pia aumentava de tamanho: ia com a tia Alice (a minha avó dos sábados) para um grande tanque! Mexer com água e molhar-me até ao pescoço era sempre tentador… A minha mãe diz que água foi das primeiras palavras que aprendi: chamava-lhe baba quando a via a jorrar de cada vez que a minha mãe despejava a pia (numa leitura mais metafórica da coisa era quase de baba que se tratava).
Também tive a minha fase de jardineira que tu estimulavas com muito orgulho: atribuíste-me um metro quadrado de quintal e outro tanto à minha prima e ias orientando o processo. Chegámos a ter belos cactos (os que sobreviviam às regas), sardinheiras e muitas outras plantinhas que morriam de tanta remexida levarem, já que mudávamos a morada delas no mini jardim quase semanalmente!
Também deve ter sido contigo que comecei a gostar de futebol: eras muito aferroada pelo nosso FC Porto e grande admiradora do bi-bota de ouro Fernando Gomes. Já ao Pinto da Costa referias-te sempre como “trengo” ou “pantomineiro”!
Também falávamos de coisas mais sérias. Achavas que deverias fazer de mim “uma mulherzinha”. Lembro-me das conversas matinais que tínhamos quando me ias buscar a casa dos meus pais, nas semanas em que o meu pai trabalhava fora… Fazias-me “ver as coisas” fossem as coisas que fossem que me atormentassem na altura ou me fizessem atormentar os outros.
Mais tarde, tivemos conversas mais adultas. Contaste-me do teu amor destroçado de juventude e ensinaste-me que se segue sempre em frente, numa altura em que, pareces ter adivinhado, era isso que eu precisava ouvir…
Gostavas pouco de falar do teu passado, talvez porque o tinhas muito presente. Sei pouco da tua infância, que dizes ter sido feliz porque havia o que comer e o que vestir, apesar de teres perdido o teu pai cedo e teres mais cinco irmãos. Dizes que o pior veio depois e desse depois não quero eu aqui falar… Quando cheguei já tinha “passado o mau tempo” e contigo fui feliz e acho que comigo também foste…
Tenho saudades tuas e repito para mim que só podemos ter saudades de coisas boas e que, por isso, é bom ter saudades.

4 comentarios:

DdCastro dijo...

Bonito...

MaB dijo...

Devia ser mesmo uma grande mulher...a avó Adelaide!:)

beijinho enorme**

Ana paula dijo...

A minha TIA LAIDA, que mais foi uma avó (as minhas nunca estiveram muito presentes). Que saudades que eu tenho dela.

Foi a Tia Laida que me criou, que me ensinou muita coisa, eu tenho um carinho muito especial por ela, e sei que ela também gostava muito de mim.

Susana, lembras-te tantas coisas boas:
O café na praia, que bem que sabia com pão com manteiga
As iscas, que delicia.
A sopa de leite, o meu irmão fala muitas vezes.
E tantas outras que nos fazem recordar com água da boca.

Eu gostava tanto de ir para casa da Tia Laida, que me lembro de um dia a minha mãe estar em casa e eu sair da escola e por "habito" ir lanchar a casa da tia, claro que a minha mãe não achou muita piada, até porque ela sabia que eu não era de "distrações".

Foi concerteza uma grande mulher, que nos orientou muito, mas esteja onde estiver, vai continuar nos nossos corações..

Obrigada Susana por escreveres sobre a TIA.

Beijinhos de admiração

FATIMA dijo...

Melhor homenagem a tua avó (e minha tia) nao é possivel.
Eu nao consigo descrever em palavras tudo o que vivi com ela. Sim, porque foi com Ela que tambem cresci. Mas está tudo gravado na minha cabeça e coraçao.
Dizem para ai que um dia nos vamos encontrar todos....A ser verdade, fico a aguardar por essa dia, que espero ainda esteja longe, para continuar a dar-lhe os mimos que ela gostava, apesar de nao o demonstrar.