jueves, 13 de octubre de 2016

Be mine, Valentino!



Valentino seria a marca de alta costura onde eu torraria os meus milhões. As últimas coleções são obras de arte: o Nobel do bom gosto!



A Miss Moss traduz isso muito bem nestes casamentos do mestre Pierpaolo Piccioli com os renascentistas, sobretudo, mas também com outros pintores



"Num beijo apertado de barco contra o cais"




Eu gosto de talent shows e nunca tinha dado a devida atenção às letras do Pedro Abrunhosa até assistir à interpretação que se segue e que está incluída na minha playlist no You Tube. Sublimes, os dois cantores!
(sem contar com o facto de ele parecer um retrato de Egon Schiele)






Eu não sei quem te perdeu
Pedro Abrunhosa




Quando veio, mostrou-me as mãos vazias
As mãos como os meus dias
Tão leves e banais
E pediu-me que lhe levasse o medo
Eu disse-lhe um segredo
Não partas nunca mais
E dançou
Rodou no chão molhado
Num beijo apertado
De barco contra o cais
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
Abraçou-me
Como se abraça o tempo
A vida num momento
Em gestos nunca iguais
E parou
Cantou contra o meu peito
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais
E partiu
Sem me dizer o nome
Levando-me o perfume
De tantas noites mais
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
E eu não sei quem te perdeu












miércoles, 13 de julio de 2016

PORTUGAL

Há três imagens que se irão fossilizar no coração de quem por Portugal viveu a final do Europeu de Futebol de 2016: a dor de Ronaldo, sentado, indiferente à traça que lhe pousava no rosto, por lhe terem roubado a oportunidade de continuar a lutar; o consolo inesperado do pequeno adepto de Portugal ao choroso adepto rival e o camião a transbordar de timorenses e de bandeiras portuguesas, em festejos nas ruas de Dili.

lunes, 29 de febrero de 2016

À sombra do "Spotlight"

Tendo em conta que o único filme nomeado para melhor filme nos Óscares 2016 que eu vi foi o "Spotlight", pouco posso dizer da justiça ou injustiça da escolha da Academia.

O que eu posso dizer é que o filme tem um elevado poder de moralização (a Academia não resiste a colar-se a esse poder): não estou a referir-me ao crime que a igreja católica cometeu ao autorizar a impunidade e a persistência da prática de crimes sexuais (a esse respeito, o filme limita-se ao que já se sabia), mas sim ao mérito da investigação no jornalismo. Essa é a tecla em que vale a pena insistir.


Eu gostava de saber quantos editores, chefes de redação, diretores de órgãos de informação coraram de vergonha ao verem o filme?


A denúncia óbvia do filme é menos importante do que o que ele denúncia indiretamente: a falta que fazem "Rezendes" nas redações.
 
E um filme que obriga a classe jornalística e a igreja a olhar-se ao espelho desta forma é capaz de merecer um óscar, mesmo sem ser um grande filme.


viernes, 15 de enero de 2016

Presentes do passado


A memória é truculenta: retém o que interessa e o que não interessa, mas também é capaz de deixar escapar coisas que gostaríamos de perpetuar.

Quando vejo uma exposição, assalta-me sempre alguma angústia que antecipa os detalhes que irei esquecer, contrariada. E se o filtro que baliza a memória me deixa lembrar que é sempre da esquerda que a luz espreita em todos os quadros de cenas domésticas de Vermeer que vi; do sobressalto que senti quando finalmente se agigantou o “David” do Miguel Ângelo, depois de uma obediente espera; da comoção inesperada que as esculturas de Rodin me causaram (foi o último museu que visitei em Paris e é dele que melhor me lembro); da sucessão de tapetes dos corredores do Vaticano, que vi a correr (literalmente) para conseguir chegar a tempo de babar a olhar para o teto da Sistina; que a impressão maior dos impressionistas é a intranquilidade latente de tudo o que posa para o pintor… mas esse filtro também me priva do muito que queria guardar.

Socorro-me com a escrita, domadora dos caprichos da memória.

Assim, depois de visitar no MNAA a “Colección Masaveu. Grandes Mestres da Pintura Espanhola Greco, Zurbarán, Goya, Sorolla”, registo:

José de Ribera atreveu-se a olhar para a vida como ela era: pintou o “Bêbedo” quando a maioria dos seus contemporâneos retratava santos de olhar suplicante em direção ao céu.

Os olhos de Cristo parecem cortados com espadas em “Jesus é despojado das suas vestes” de El Greco.

Que o melhor do Barroco está nos desenhos irrepreensíveis dos têxteis faustosos como o que cobre “Santa Catarina” de Zurbarán.

Que o meu avô iria apreciar as cenas pastoris de Pedro de Orrente.

Já eu fiquei particularmente encantada com as velas furiosas em contracena com a luz do Levante, nas marítimas de Sorolla, e com o protagonismo da música e da dança nas telas de Romero Torres.

martes, 17 de noviembre de 2015

A propósito do mundo, em geral, ou de mim, em particular

A morte é coisa certa, como é certo que daqui a 100 anos serei incapaz de reler o que escrevi...
Se esticar o pensamento até duvido se quero escrever por mais alguma coisa que não seja um salário, porque o meu contributo para o devir convoca a nulidade, mas não quero relativizar tanto, nem pensar tanto...

Porém, contrariando toda a razão que nos devolve ao nosso "nanotamanho", debatem-se escolhas, apontam-se dedos às sensibilidades!
Como se não soubéssemos todos, mesmo os hipócritas, que todos escolhemos!
Como se não soubéssemos todos que a escolha é por definição uma exclusão!
Como se, em consciência, preferíssemos o desconsolo de nada escolher...

  

martes, 20 de octubre de 2015

Histórias aos quadradinhos - capítulo V


Se eu fosse cega e tivesse que escolher uma cor pela sonoridade seria a azul a eleita. Junta só a minha vogal e a minha consoante preferida: o u e o l.
Não devemos ignorar os argumentos da sonoridade nisto de angariar simpatias com as palavras. Não é à toa que William Hurt (a voz masculina mais sedutora de que me consigo lembrar) foi o escolhido para interpretar a personagem que conquista a cega de “Filhos de um Deus Menor” e não é à toa que alguém dos Madredeus informava há alguns anos que procuravam os sons doces e sibilantes quando escreviam as letras das músicas: os mm e os aa, exemplificavam.

Já os mestres da azulejaria portuguesa terão escolhido a cor azul para a maioria dos seus trabalhos por outras razões: o corante óxido de cobalto encontrava-se mais facilmente.

Por coincidência leio a justificação para as grossas pinceladas de azul, que ameaçam esconder Helena Almeida nas suas "pinturas habitadas" (agora expostas em Serralves e que julgo ter visto no CCB). “Uso o azul porque é uma cor espacial. Tem de ser azul (…). É mesmo o espaço, é engolir a pintura”, terá justificado Helena aos curadores da exposição de Serralves.

Espacial, acessível, de sonoridade sedutora, azul é a cor que conta, por ventura, mais histórias da arte portuguesa. A comprovar no Museu do Azulejo, em todo Portugal e em todo o mundo em que os portugueses pousaram quadradinhos.



(lamento, mas não estou a conseguir subir as fotos dos azulejos que se impunham nesta história: to be continued...)