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martes, 10 de febrero de 2015

Requiem pela Parnaso

As distinções atribuídas em Lausanne a dois estudantes da Escola de Dança do Conservatório Nacional de Lisboa guiaram-me até uma informação menos feliz...
A minha escola de ballet, a Parnaso, já não existe.
Vai resistir na memória dos alunos que a frequentaram: as aulas teatralmente austeras, mas quase sempre bem humoradas do César, que de vez em quando despia a personagem, distração fatal perante uma turma de potenciais indisciplinados!
Deve ter sido nas aulas do César que vi pela primeira vez um piano a três dimensões. Era o som do piano que, por vezes, nos ditava o ritmo do "plié", do "frappé", do "battement", do "jeté", do "adagio"... Outras vezes, quando faltava o pianista, era mesmo a toque de cassete que dançavamos!
Também foi na Parnaso que tive as primeiras aulas de música, dadas por Fernando Corrêa de Oliveira, o senhor de poucas palavras, com um ar levemente sinistro, de cuja genialidade só me apercebi muito mais tarde!
Foi dele o sonho "Parnaso": a escola de música, ballet e teatro fundada em 1957. Na altura em que a frequentei, penso que já não havia teatro e a música era apenas complementar ao ballet.

lunes, 14 de noviembre de 2011

"Paris em Lisboa"

Se as estações do ano fizessem testes psicotécnicos para saber para o que têm jeito, ao Outono daria certamente “artes”… já as outras não sei e não vou agora reflectir sobre isso.
Mas agradeço ao Outono por esse talento, por tornar crepitantes todos os passeios calcetados que levam à Gulbenkian, por pintá-los com as cores, que, misturadas, se tornam nas minhas preferidas... Como pode esta Natureza morta ter tanta vida?


E serve este projecto de prólogo para introduzir o tema "A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa", a exposição que visitei na Gulbenkian... As naturezas-mortas de Cézanne, Renoir, Monet, Vieira da Silva, Amadeo de Souza Cardoso, Picasso, Braque, Dalí, Magritte, Matisse, Gaugin, … e o que mais me comove e mais me espevita: Van Gogh! Companhias raramente disponíveis a um sábado à tarde, em Lisboa. E eu tinha saudades deles, do que me fizeram sentir repetidas vezes, em Paris, em Madrid, em Barcelona, em Amsterdão, em Antuérpia, em Londres...

... Sobretudo aos franceses, invejei-os, por terem abarbatado tanto talento naquele período mágico dos “ismos”… Mas no dia em que passei pelos mesmos "ismos" na Gulbenkian, o que senti foi gratidão pelo Sr. Calouste (o outro ministério da cultura). Em primeiro lugar, porque me destruiu um preconceito: é que achava que não gostava especialmente de naturezas-mortas na pintura. Achei uma seca ter que pintar pêssegos nas aulas de pintura, mas foi da trabalheira que me deu representar a pele aveludada e de mil cores desses pêssegos que me lembrei quando os vi num dos quadros em exposição (já não me lembro de que pintor). E também quando descobri o minúsculo quadro com meia dúzia de maças, de Cézanne. O Cézanne que me deixou KO, quando o conheci melhor na exposição "De Cézanne a Picasso", no Museu d' Orsay, que reunia várias obras de pintores representados pelo visionário marchand Ambroise Vollard (alguém que gostaria de ter entrevistado para indagar sobre o seu talento maior, o de descobrir génios)...


Voltando à Gulbenkian, além de descobrir que os girassóis também posaram para Monet, de me dar conta (com a ajuda do professor Rui Mário e do Câmara Clara) que Van Gogh pode ter estado deprimido, mas é de alegria e de Vida que falam as suas pinceladas enérgicas, descobri também um pintor novo (para mim): o Juan Gris. O quadro acima foi um dos que mais gostei. Gostei do brinde, da sugestão de olhar para fora do nosso casulo, aceitar o convite do vento, sem perder de vista o cume,... um cume.

E tudo isto é desarmante, porque em vez de inspirar, a mim desencoraja: para quê pintar, se eles já atinjiram o céu? Como chegar Lá? Como chegar-lhes sequer aos calcanhares? ...porque para Lá chegar é preciso mais do que talento, tem que haver uma pulsão, uma Pulsão Maior.

martes, 21 de junio de 2011

Gosto de galos de Barcelos

... e gosto da olaria de Barcelos, em geral. E gosto dos galos com a pintura tradicional, como o que comprei na feira de Caminha no mesmo dia em que comprei mais alguns em bruto, prontinhos a decorar a gosto. Foi o que fiz, muitos meses depois de os comprar, para os transformar em presentes de Natal para pessoas especiais.

jueves, 3 de febrero de 2011

Por enquanto é sem título

António Fernandes Pereira Marques e Adelaide de Oliveira Rocha. Fixaste?
É o que de mais antigo conheço genuinamente de ti.
Criaram-me. (Gosto do duplo sentido do verbo criar!)
Um bocadinho de ti vem deles e garanto-te desde já, que te podes orgulhar da Adelaide, que vendia peixe na Ribeira com a mãe e depois criou meninos e meninas como eu, e do António, que trabalhou quase toda a vida nos STCP. Depois de se reformar, dedicou-se à pastorícia: era o Sr. António das Ovelhas, que fazia parar o trânsito com o rebanho, pelas ruas de Leça do Balio. Por consequência nós, os familiares, não tínhamos direito a nome, éramos qualquer coisa como "a neta do Sr. António das Ovelhas"!

jueves, 16 de septiembre de 2010

FADO

Na sala ainda se falava quando principiavam a sussurar a guitarra e a viola... Percebemos a ideia e passámos a sussurar também até nos calarmos de vez. Ela pega no xaile negro de franjas longas e coloca-o sobre um ombro apenas, deixando-o descair no outro até à linha da cintura. Volta-se para os seus músicos e segreda-lhes... o nome da música, julgo.

Não nos olha nunca, mas dá a volta à sala com os olhos antes de os fechar e começar a cantar, a contar-nos uma história que nos fala da saudade, da dor do desamor e da ausência...
Compreendo ao ouvi-la que é obrigatório ter sofrido por amor algum dia. É obrigatório para entender boa parte da poesia, boa parte da arte, boa parte da verdade que há quando um artista se dá.
E lembrei-me das palavras que um dia um amigo, amante de Fado, me disse: "É fadista aquele que sente o Fado e não apenas quem o canta e nem sempre quem o canta."

miércoles, 4 de agosto de 2010

Ausência

Orgulho-me de Ti quando ganhas e quando perdes.
Sobretudo quando perdes.
Sabes que é maior a vitória dos que sabem perder. E Tu sabes, porque logo Te prontificas para reiniciar a luta, ou mudar de luta. Sim. É sempre de vitória essa Tua atitude.

Tenho fingido que não me atormenta que estejas longe.
Não sei se finjo por mim, se finjo para mim,
se o faço por Ela, para Ela,
ou por Ti, para Ti.
Quando ouço o nome desse país que Te alugou,
quando leio sobre ele,
instala-se em mim um certo mal-estar,
não sei se é na barriga, se é no peito ou na garganta.
Doi-me assim a Tua ausência.
Claro que não quero falar sobre isso.
Não é do Teu feitio,
nem do meu,
o que herdei de Ti.

viernes, 11 de junio de 2010

Sôdade!

Mudámo-nos para o meu actual prédio quase na mesma altura. Além do andar que nos separa, a distância mais óbvia é a do tempo, o de vida vivida e, teoricamente, o de vida por viver.
Já há mais de um mês que não os via, nem a um, nem a outro, nem aos dois juntos, que é como os via mais vezes...
Hoje reencontrámo-nos. Depois de dobrar a curva do banco, vi-os a descer a rua, mais lentamente do que eu a subia. Devolvi-lhes o sorriso com que me descobriram... Como sempre, acrescentaram-me um diminutivo ao nome e a senhora quis dar-me um beijinho porque há muito que não nos cruzavamos...
Talvez por coincidirmos na altura em que ganhámos uma nova morada, a empatia foi imediata e nunca nos contentámos com um olá, bom dia! Esticamos sempre o paleio e hoje fiquei a saber que estiveram recentemente em Cabo Verde, de visita à neta, que "não é a jornalista, é a irmã" e que por lá era tudo "muito asseado e digno, apesar de haver ainda muita miséria". E não, "não é o caos que há-de ser Luanda!"

Depois de me despedir dos vizinhos, mantive-me por "Cabo Verde"... Fiquei a pensar que por lá está alguém que me inspira um sentimento parecido com o que provoca este casal... O JP. Não tive tempo de lhe conhecer nenhum defeito, mas tenho recordações de sobra para sentir muita "sôdade"!...
Aproveitei-me do talento dele e juntos ganhámos um concurso de dança, improvisado numa noite singular no bar da associação! O mesmo bar onde noutra noite nos mantivémos acordados (até partirmos bem cedo para uma digressão do Teatr'UBI na Galiza) graças às também improvisadas aulas de kuduro e funaná do JP!
Foi também meu cúmplice, juntamente com mais duas amigas, na tarefa de vasar todos os restos de Pedra do Urso que ainda sobravam nas mesas, no final de um jantar do curso de comunicação!
É especial este JP, o bastante para o irmos esperar ao comboio no dia em que fazia anos, com um bolo recheado de velinhas acesas, em cima de um carrinho de mão! Ia sufocando de emoção, de tão sem jeito que ficou!
Com ele aprendi a gostar de cachupa e sobretudo da festa que as reuniões de cachupa significavam! E a dizer Txuco! E que Txuco vai ser sempre = a JP!

miércoles, 26 de mayo de 2010

"Reviver o passado... na Covilhã" com "os amigos de... João"


"Um funeral à chuva" não é um filme brilhante, mas soube-me bem a sessão (a ante-estreia no São Jorge) pelo sentimento fácil de identificação. De alguma forma é um filme em que paira um bocadinho de mim e de alguns dos meus, num lugar que associo a muitas gargalhadas e a algumas dores de crescimento: a Covilhã, onde é bom voltar também desta forma.

O curso de cinema da UBI está a dar frutos: uma produtora criada na Covilhã por ex-ubianos a filmar a cidade e a ubilândia. A isso e à campanha de promoção que está a ser feita, sobretudo online, bato palmas.
Um filme para rever, talvez daqui a muitos anos...

miércoles, 13 de enero de 2010

"Sorri"

Conheci pouco mais do que o teu sorriso, que aparecia quando o solicitávamos, quando to provocávamos, mas sobretudo quando não sabias o que dizer. Não sabias muitas vezes o que nos dizer, ou não querias dizer-nos o que sabias.
O sorriso era o teu escudo muito mais do que a tua arma.
Não cheguei a saber quase nada sobre ti, nem chegarei a compreender porque partiste antes do tempo.
Esta ignorância, parcialmente voluntária, faz-me sentir incomodamente cúmplice dessa tua partida.

miércoles, 29 de abril de 2009

Em pontas

Curioso como o tempo nos faz esquecer ao ponto de já nem percebermos o que antes nos fazia sofrer.
Ainda estremeço, mas agora com um sorriso, quando ouço a Marcha Radeski de Strauss.

Durante algum tempo tive pesadelos. Mais do que uma vez sonhei com sabrinas de fitas de cetim, com saltos e piruetas... Às tantas gritava, acordava, percebia que já nada disso fazia parte de mim e duvidava se algum dia voltaria a fazer. E não sei se gritava antes ou depois de o perceber.

Só fiz ballet durante um ano e foi um capricho, ou um gosto que começou a nascer nas páginas do livro da Anita, ou numa telenovela brasileira. Não me recordo bem... Carina de Limeira Brandão chamava-se a personagem: uma bailarina que deixara de o ser porque sofrera um acidente. Mas várias vezes dançou nessa novela. E já não sei se foi a magia das pontas, se a graça do tutu, ou o porte de princesa, ou os desenhos no ar quase em câmara lenta, mas essas imagens transformaram-se em desejo.
A minha primeira professora foi a Anita: imitava-a nas cinco posições ilustradas no meu livro preferido na altura. A palhaçada deve ter sido o suficiente para convencer os meus pais a matricularem-me na Parnaso (a arte pela arte!). Procurei com os meus dedos (foi mesmo através das páginas amarelas) o local onde queria aprender a suster-me na ponta dos pés.
Durante um ano vivi esse sonho cor-de-rosa (as meias e as sabrinas) e branco (fato de ballet). E nem a voz algo militar do Professor César, nem a exigência constante de disciplina e rigor ensombravam as tardes de terça, quinta e sábado. Sentia-me na ponta dos pés, mesmo sem nunca ter chegado a fazer pontas perfeitas!
Começávamos com exercícios de aquecimento na barra. Umas 30 meninas a ensaiar movimentos de cisne. Sim, naquela altura, já todas ambicionávamos ser cisnes! O cisne do lago!
Percebi que as cinco posições básicas não eram estanques como no livro. Deslizávamos da primeira para a segunda e depois para a terceira... A Anita não conseguiu ensinar-me isso! Nem os galopes do cavalo, nem as variantes em plié, nem o "parte e pouca" (deve ser outra coisa, mas recordo-me de ouvir o César chamar-lhe assim), que se treinava individualmente, primeiro, e depois com o par...
E recordo-me do êxtase dos ensaios da coreografia da Marcha Radeski, que apresentámos depois na festa de final de ano lectivo, no Auditório Carlos Alberto. A minha primeira vez em palco! Tinha nove anos e achava que o ballet era coisa séria, coisa para continuar...
Mas não foi porque no ano seguinte entrei para a escola Preparatória e o horário já não me permitia ir às aulas na Parnaso. Ir para outra escola era andar de cavalo para burro. Ficou combinado que adiaria o sonho até que fosse possível... Adiei para sempre...
Nas fotografias dos anos que se seguiram às aulas na Parnaso, os meus pés ainda posavam em primeira posição. Lembro-me das outras também sempre que escuto a marcha Radeski de Strauss. E acho que ainda conseguiria reproduzir os primeiros passos da coreografia...

PS: Imagino 40 anos na ponta dos pés da Maximova, a antiga prima-bailarina do teatro Bolshoi que morreu ontem...

miércoles, 25 de marzo de 2009

Dias felizes

Vou escrever enquanto estou sob o efeito do Sol...
Uma das vantagens de não ter subsídio de Natal (leia-se: trabalhar a recibos verdes) é poder numa tarde soalheira como a de hoje ceder à preguiça e ir passear para a Baixa de Lisboa...
Ao contrário do Porto que é charmoso mesmo em dias de nevoeiro (fica mais medieval e misterioso...), Lisboa precisa de Sol, de luz para melhor se revelar...
Andei a vaguear pela cidade e hoje até nem reparei que a Baixa pombalina já precisava de um novo Marquês... estava quase perfeita... cheia de gente contente em várias línguas de contentamento, nas esplanadas, nas ruas, a fotografar monumentos e detalhes e sorrisos... estrangeiros a convencerem-nos de que temos tanta coisa boa e que pouco apreciamos... porque passamos tempo demais em casa, no trabalho, passamos tempo demais ao lado da vida e sem perceber que a vida nos anda a passar ao lado...
Ainda tentei recrutar outras alminhas para se juntarem a mim numa esplanada e aproveitar a cidade até ser noite... mas nem toda a gente se pode dar assim à má (boa) vida...
Apanhei o 28 e vim para casa. No eléctrico tive direito a lugar à janela, que estava toda aberta, escancarada para a vida...

PS: Paula, acho mesmo que deves imprimir e deixar cair acidentalmente o papelito! Anda por aí muuuuita gente distraída!!

viernes, 6 de marzo de 2009

Adelaide

Um dia perguntei-te se podia fazer-te uma entrevista sobre a tua vida. Despachaste-me com um “julgas que estou pra te aturar?!”. Tinhas sempre resposta prontinha “na ponta da língua”, mesmo quando só nos querias mandar “lamber sabão”. Não eras mulher de não dar troco: respostas às vezes lacónicas, outras amargas, outras bem-humoradas - que tu gostavas de conversas bem condimentadas e eras de raciocínio rápido.
Que interessante seria ter filmado essa entrevista para poder recordar e mostrar aos que não chegaram a tempo de conhecer esse teu lado mordaz, o teu lado sábio, o teu lado mais generoso e amigo e o outro mais sofrido, porque tiveste o teu período escuro, que muitas vezes (demasiadas) vi reviver nos teus olhos…
Eu não insisti, mas volta e meia pensava que tinha de te fazer essa entrevista e que um dia acabaria por te convencer… Afinal quantas coisas tem para contar alguém que nasceu em 1919, mesmo logo na ressaca da primeira guerra mundial, alguém que viu Salazar chegar ao poder e endoidecer, alguém que viu os soldados partir, a revolução dos cravos florir, alguém que viu as saias a subir e os decotes a descer e alguém que rezou tanto para eu nascer por achar que me ia perder mesmo antes de me conhecer…
E talvez fosse por aí que eu começasse a entrevista: afinal o que te deu avó para acreditares numa bruxa que disse que eu e a tua filha morreríamos durante o parto? Como se vive com essa angústia durante meses? Como se esconde essa angústia durante meses? Várias vezes me contaste essa história, mas sempre recordando o lado mais pitoresco de como a desgraçada da bruxa ficou com uma bela prenda em troca do serviço, felizmente defeituoso, de futurologia.
Tu também eras dada a futurologia, eras muito intuitiva, tinhas muitos “palpites” e até sabias quando o tempo ia mudar: os teus joelhos eram mais precisos do que a meteorologia.
E a tua imaginação era fértil, mesmo muito: era da tua boca e da do avô que eu ouvia as histórias de embalar… Bom, na verdade eram histórias de apaziguar, tentativa de impedir que eu e a minha prima guerreássemos por mais um centímetro de colchão antes de adormecer! E vocês não liam histórias. Nada disso! Eram inventadinhas na hora, “levantadas das unhas dos pés” como dizias…
Aliás dizias outras coisas muito engraçadas: “aqui há atrasado” quando querias falar do que já passou, “trinta por uma linha” e a melhor de todas: “levas já uma esquecida”, quando o tom era ameaçador e brincalhão…
Esse desembaraço verbal deve ter crescido nas calçadas da Ribeira de Miragaia, ou quando acompanhavas a tua mãe na venda de peixe porta-a-porta pelas casas mais abastadas do Porto, de outro Porto. Ninguém te enganava com o peixe, sabias sempre se era do dia, conseguias lê-lo nos olhos do animal. Conhecias todos os peixes pelo nome e sabias qual é que era para cozer e qual se deveria fritar e assar!
Que também eras boa cozinheira: fazias o melhor pastelão de broa e as melhores iscas do mundo, também nunca comi papas de serrabulho mais saborosas do que as tuas e poucas memórias olfactivas são tão presentes para mim como o cheiro a cominhos do teu arroz de feijão. Mas o teu ex-líbris era a “sopa de leite”, assim baptizada por ti. Encantou as sucessivas gerações de crianças que passaram pelos teus cuidados, antes e depois de percebermos que não levava leite!!! Muitas vezes era pela sopa de leite que eu começava o dia: hábito que cobiçava no avô, que gostava de a comer de pé e com garfo… Depois bebia-a, quando já só era “leite”! Continuo a gostar de comer sopa ao pequeno-almoço, embora à colher e sentadinha! E gosto de a comer fria no Verão…
E as tripas enfarinhadas quentinhas que íamos buscar à Bertinha todas as quintas-feiras de manhã… Às vezes duas vezes porque comíamos a primeira rodada antes de chegar a casa! E o segundo pequeno almoço que ias levar-me quentinho ao recreio… É certo que moravas a uns metros da escola e não percebias como eu era gozada por ser a única menina que comia pão com manteiga acabado de torrar e bebia leite com canela por uma chávena à hora do recreio! Ias tu e o Bolinhas, o único gato que foi um bocadinho meu e que me acompanhava para a escola e às vezes ia buscar-me quando saía…
Tu sempre gostaste de piqueniques ao pequeno-almoço: também o fizemos muitas vezes na Praia de Matosinhos, mesmo junto ao Paredão. Gostavas da praia muito cedo. Acho que gostavas mais do nevoeiro do que do sol… Lá íamos nós (de madrugada, achava eu) na camioneta munidos de farnel. Leia-se: garrafa térmica com cevada e leite e pãozinho fresco com manteiga. Regalávamo-nos com este manjar enrolados na toalha antes do sol chegar, mas com o mar à frente como consolo e a promessa de que passadas duas horas (na altura parecia que eram muitas mais) teríamos direito ao mergulho. E essa era a grande razão para se ir à praia (achava eu): furar as ondas e estar na água todo o tempo possível. Cada minuto a mais era arduamente negociado contigo!
Em casa, às vezes, eras companheira de brincadeiras: alinhavas connosco nas novelas! Fazias de governanta e servias a refeição onde nós achássemos que seria a sala de jantar ou o restaurante de fingir… quando estavas para aí virada porque quando não estavas mandavas-nos com o avô pastar as ovelhas… Eu gostava pouco porque tinha medo das marradas de algumas delas (nunca tive lá muito jeito para a pastorícia), mas lembro-me de aprender a desenhar no chão os números e as letras e de fazer as contas que o avô passava na terra com o cajado para nos entreter… outras vezes jogava à macaca connosco, que ele tinha genica suficiente para isso: fazia quilómetros em cima da bicicleta!
Nós também tivemos a fase das bicicletas: uma dor de cabeça para ti e muitas dores de joelhos para mim… Lá andavas tu a gritar por nós de vez em quando e a ralhares para não nos afastarmos das redondezas… Daquela vez que enfiei uma pedra pela carne do joelho dentro não sei se ficaste mais preocupada ou mais furiosa… Ainda tenho essa medalha de bom comportamento tatuada na pele.
Nos meus momentos mais ajuizados aproveitavas para me iniciar nas lides domésticas. Gostava particularmente de lavar roupa na tua pia. Aos sábados, a minha pia aumentava de tamanho: ia com a tia Alice (a minha avó dos sábados) para um grande tanque! Mexer com água e molhar-me até ao pescoço era sempre tentador… A minha mãe diz que água foi das primeiras palavras que aprendi: chamava-lhe baba quando a via a jorrar de cada vez que a minha mãe despejava a pia (numa leitura mais metafórica da coisa era quase de baba que se tratava).
Também tive a minha fase de jardineira que tu estimulavas com muito orgulho: atribuíste-me um metro quadrado de quintal e outro tanto à minha prima e ias orientando o processo. Chegámos a ter belos cactos (os que sobreviviam às regas), sardinheiras e muitas outras plantinhas que morriam de tanta remexida levarem, já que mudávamos a morada delas no mini jardim quase semanalmente!
Também deve ter sido contigo que comecei a gostar de futebol: eras muito aferroada pelo nosso FC Porto e grande admiradora do bi-bota de ouro Fernando Gomes. Já ao Pinto da Costa referias-te sempre como “trengo” ou “pantomineiro”!
Também falávamos de coisas mais sérias. Achavas que deverias fazer de mim “uma mulherzinha”. Lembro-me das conversas matinais que tínhamos quando me ias buscar a casa dos meus pais, nas semanas em que o meu pai trabalhava fora… Fazias-me “ver as coisas” fossem as coisas que fossem que me atormentassem na altura ou me fizessem atormentar os outros.
Mais tarde, tivemos conversas mais adultas. Contaste-me do teu amor destroçado de juventude e ensinaste-me que se segue sempre em frente, numa altura em que, pareces ter adivinhado, era isso que eu precisava ouvir…
Gostavas pouco de falar do teu passado, talvez porque o tinhas muito presente. Sei pouco da tua infância, que dizes ter sido feliz porque havia o que comer e o que vestir, apesar de teres perdido o teu pai cedo e teres mais cinco irmãos. Dizes que o pior veio depois e desse depois não quero eu aqui falar… Quando cheguei já tinha “passado o mau tempo” e contigo fui feliz e acho que comigo também foste…
Tenho saudades tuas e repito para mim que só podemos ter saudades de coisas boas e que, por isso, é bom ter saudades.