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viernes, 22 de marzo de 2013

Rafael Bordalo Pinheiro


Como adoro todo o universo bordaliano, não poderia deixar de registar que o Google celebrou, ontem, a data de nascimento desse génio português, com um doodle do Zé Povinho, que infelizmente não perde actualidade.

A propósito, publico aqui um artigo que escrevi há alguns anos para a revista Actualidade - Economia Ibérica:

Bordalo intemporal
Caricatura, cerâmica e decoração de interiores ao serviço da crítica bem humorada e da beleza. Rafael Bordalo Pinheiro responde por tudo isso. No museu que o homenageia em Lisboa vai perceber que as obras deste artista poderiam muito bem reportar-se aos dias de hoje, apesar de ele já ter morrido há mais de um século…

Um ramo de bacalhaus presos pelo rabo enfeitam uma mísula. Mesmo ao lado, um móvel semelhante exibe uma cabeça de perú. São ambas peças de cerâmica aplicadas em madeira e ambas atestam a criatividade e o talento de Rafael Bordalo Pinheiro. Substantivos recorrentes para qualificar o mestre depois de visitar o Museu Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa.
Por aqui é possível conhecer uma parte significativa das obras de cerâmica de Bordalo, fruto do seu interesse pela indústria do sector, das Caldas da Rainha, como recorda Pedro Bebiano Braga, o novo comissário científico e responsável pelo museu: “Em 1884 Bordalo funda a Sociedade Fabril das Caldas da Rainha. Bordalo pega na tradição e eleva-a, inova, actualizando vários moldes da cerâmica caldense. Além da louça que se vende um pouco por todo o mundo, criou várias peças únicas, de uma estética moderníssima.” Bordalo era dado aos revivalismos históricos e como tal homenageou através da cerâmica vários estilos: o mourisco, bastante presente em alguns dos seus azulejos, os anjinhos do barroco, as cordas e outros motivos que evocam o manuelino e a época de glória dos portugueses, a arte nova, as cópias da natureza representada através de reptéis, marisco,musgos, frutos, etc. Não é difícil surprendermo-nos com a riqueza dos detalhes como quando descobrimos que o que parece ser um cesto de verga é uma peça toda em cerâmica. “Bordalo deu-se ao trabalho de entrelaçar tiras de cerâmica para dar o efeito da cestaria”, garante Pedro Bebiano Braga.
Além da cerâmica, outra das facetas conhecidas e reconhecidas de Bordalo é a de caricaturista. Fundou vários jornais, onde publicava os seus desenhos. Ao jeito para desenhar aliava o poder de observação e sentido de humor, tornando-os instrumentos ao serviço da crítica política e social corrosiva e também do elogio, já que “Bordalo tinha um sentido ético notável”, comenta Pedro Bebiano Braga. “É um homem muito atento ao seu tempo e isso é quase diariamente plasmado nos seus desenhos e nas suas peças”, observa, acrescentando que “a partir dos anos 70 Bordalo entra em cena e vai dando notícia das transformações de Lisboa”, tornando impossível estudar o século XIX e início do século XX sem passar por este artista. As histórias das suas caricaturas aludem “à pequena anedota da Baixa, às grandes negociatas políticas”, dão-nos conta dos quiosques que se instalam na cidade, do banco novo da rua. E são histórias de Portugal e do mundo, frisa o historiador: “Bordalo era conhecido também fora de Portugal, já que às suas caricaturas respondiam outros caricaturistas europeus. Trocava farpas a nível internacional, numa altura em que comunicar à distância não era fácil. Chegou a ter caricaturas nas tabernas alemãs. Não se limitava a abordar a sociaedade portuguesa. Caricaturou Bismark, por exemplo.”
A dimensão internacional de Bordalo prende-se também com o facto de ter viajado bastante e ter trabalhado em Espanha, em França e no Brasil. Em Portugal era muito bem relacionado e o seu trabalho tinha tal impacto que muitas pessoas chegaram a pedir-lhe para ser caricaturado.
Bordalo não poupava políticos como o chefe do governo António Maria Fontes Pereira de Melo, através da personagem António Maria, mas o seu “boneco mais popular é o Zé Povinho. Criado a 12 de Junho de 1875, ainda hoje é evocado. Trata-se de “uma personagem ícone, que traduz o que é ser português”, explica Pedro Bebiano Braga. Na altura “iletrado, vítima, o Zé Povinho é muitas vezes representado como burro de carga do poder que o carrega”, recorda o historiador, ressalvando que “este povo resignado e adepto do deixa andar, porque sabe que as negociatas acabam por ser desmascaradas e que as coisas vão mudar, está muitas vezes a fazer o maguito, que é a sua forma de reagir”. À semelhança com os dias de hoje, na altura os tempos também eram de crise, pelo que este Zé Povinho tem algo de intemporal, ainda que já não seja iletrado. Aliás, a iliteracia permite perceber o sucesso das caricaturas: “As pessoas entendiam melhor a mensagem desenhada, já que havia muito analfabetismo. A imagem de um Zé Povinho a dar pontapés a um político, obrigando-o a sair da margem da página e a continuar a sair nas restantes páginas cria uma novela com o leitor. Apesar da mensagem ser facilmente perceptível, as caricaturas estão chegias de detalhes, que é preciso decifrar. Temos que estar atentos ao que desenham as sombras, por exemplo.”
Bordalo caricaturista e ceramista são as duas faces mais conhecidas do artista e preenchem a exposição permanente do museu. Pedro Bebiano Braga, em funções no museu desde Fevereiro quis mostrar uma nova dimensão de Bordalo, a de decorador de interiores, a descobrir na exposição temporária que o museu abriga até o dia 15 de Agosto: “Bordalo foi sempre recordado como exímio caricaturista, bem como pelas suas criações de cerâmica, mas as suas peças de mobiliário e o seu talento para a decoração estavam ainda por destacar. Trata-se de uma abordagem inédita.”
Nesta mostra temporária recorda-se que foi Bordalo que dirigiu a representação portuguesa na grande exposição universal de Paris de 1989. Podemos apreciar os cachos de uva de cerâmica que usou para decorar o espaço, onde havia um bar de provas de vinho português, conservas, artesanato… Pedro Bebiano Bordalo considera que “Bordalo teve a mestria de perceber que por cá havia valor e interessou-se pela cerâmica”, e lembra que “o nacionalismo estava em voga na altura”.
Bordalo teve também intervenções decorativas em espaços lisboetas como a famosa sala de jantar do Beau Séjour, actual gabinete de estudos olissiponenses, a Panificação Lisbonense, a tabacaria Mónaco, bem como um painel de azulejos que representa o ambiente tertuliano da cervejaria Leão de Ouro. Tudo isto é focado na exposição, onde estão várias peças de mobiliário, com aplicações de cerâmica, bem como peças de luminárias (candeiros e castiçais), molduras, caixas para relógios, cestos, etc.
Nascido numa família de artistas – o irmão Columbano era pintor, a irmã era bordadeira, fazia vitrais e empenhou-se no renascimento das rendas em Portugal - muitas vezes Bordalo trabalhava em equipa com os irmãos, cada um na sua arte.
Pedro Bebiano Braga está consciente de que sobre Bordalo ainda há muito o que explorar e pretende não só mostrar novas facetas do artista, como atraiar novos públicos: “As crianças e os séniores são os que mais visitam o museu. Temos oficinas para crianças, onde se trabalha cerâmica inspirada em Bordalo, muito frequentadas e com um enorme sucesso. A faixa etária entre os 17 e os 35 é a mais difícil de atrair, mas quando descobrem a obra de Bordalo ficam fascinados e divertem-se imenso. Também é importante dar a conhecer a dimensão internacional do trabalho de Bordalo, para atrair estrangeiros para o museu.”

Museu Bordalo Pinheiro
Campo Grande, 382 -1700-097 Lisboa
www.museubordalopinheiro.pt


martes, 11 de septiembre de 2012

A linha que os separa...

Por vezes parece que quase todos os pensamentos concorrem para o mesmo raciocínio. Os meus sondam as causas, os acasos que fazem de alguém o melhor ou dos melhores. Há muito de sorte? Sim. Mas concluo (o óbvio, ou talvez não) que há muito mais de mérito, de trabalho, de força, de talento...
Pensava nisto quando via a cerimónia de encerramento dos Jogos Paraolímpicos, penso nisto tantas vezes com Ronaldo, Mourinho, Joana Vasconcelos, com o senhor que teimava em fazer cestos para acolher as cerejas do Fundão, com tanta gente que considero especial na sua teimosia em fazer melhor, o melhor...
Já entrevistei algumas pessoas alegadamente e comprovadamente acima da média naquilo que fazem e o que as une é a racionalidade com que descrevem a sua fórmula simples: trabalho de qualidade + trabalho de qualidade.

A propósito disto e de querer uma espécie de porfolio de artigos que gostei especialmente de escrever, (re) publico mais um, decorrente de um encontro com Marc Meneau (3 estrelas Michelin).

“O paladar educa-se”*


Para Marc Meneau, o luxo reside na arte de comer com qualidade. Democratizar esse luxo passa mais pela educação do que pelo bolso, defende o chefe francês, reconhecido com três estrelas no guia Michelin...

A corte de Maria Antonieta, revisitada por Sofia Coppola, saboreia o talento de Marc Meneau. O chef francês foi responsável pelas iguarias que vemos desfilar no filme que retrata a vida de uma das figuras mais emblemáticas da História de França. A passagem pelo universo da sétima arte inspirou a Meneau a criação do morango Marie-Antoinette e Sofia Coppola. Sobremesa que chegou ao Hotel Lapa Palace, numa semana em que Marc Meneau foi o mestre de culinária de serviço. A convite do hotel lisboeta, o chef serviu as suas criações e deu uma aula de culinária a profissionais da restauração. Aliás, conversar com Marc Meneau é irresistivelmente aprender sobre gastronomia. Começa por desmitificar o significado de luxo e a sua falsa inacessibilidade: “O luxo é comprar menos pelo mesmo preço que se compraria mais, mas produtos de menor qualidade. Não é preciso ser rico para aceder à qualidade. Só é preciso fazer a escolha certa. Se compramos uns sapatos de má qualidade, mas baratos, eles vão durar menos e teremos que comprar outros. Se compramos uns bons sapatos, eles custam mais, mas duram mais. Quando temos o paladar saciado, o cérebro fica nutrido de prazer e não temos necessidade de comer muito. Comemos duas vezes menos. A saciedade depende do gosto e não do volume.”
A noção de economia foi sempre uma nota dominante na gastronomia de qualidade. A cozinha regional decorre dessa preocupação com a economia, recorda Meneau: “Cozinhava-se de forma a aproveitar os produtos da região. A cozinha sempre teve uma preocupação económica muito grande. Constatamos isso ao ler os clássicos. A cozinha dos reis era muito bem gerida.”
Marc Meneau aprendeu com os clássicos, não fez qualquer curso de cozinha oficial. Foram os livros de cozinheiros como Antonin Carême que lhe ensinaram a transformar a cozinha na sua arte. Platão também integrou a lista de professores: “Platão escreveu sobre o posicionamento do homem relativamente à cozinha. Um posicionamento simultaneamente sensual e intelectual.”
Hoje é Marc Meneau quem dá aulas, sempre que fala dos seus pratos. Isso mesmo constatará quem visitar l'Espérance, em Vézelay, na Borgonha. O hotel e restaurante de Meneau é simultaneamente o refúgio e montra maior do trabalho do chef francês, distinguido no guia Michelin com a classificação máxima, três estrelas.
Em Vézelay, tal como em Portugal, a máxima de Meneau será sempre saciar o gosto ou paladar. Mas afinal o que é o gosto? “O gosto é antes de mais uma emoção e, por isso, algo subjectivo”, diz, acrescentando que o gosto deve ser educado. Quanto mais cedo, melhor, advoga o chef: “A gastronomia deveria ser integrada nos programas escolares. Há muito que o defendo, mas não o consegui fazer ainda em França porque aos políticos não lhes interessa investir no paladar. As crianças comecem cedo a seleccionar o que gostam e o que não gostam. Gostam cada vez mais de açúcar e de fritos e cada vez menos de legumes, de ervas e de condimentos porque lhes falta uma educação do paladar. É preciso ter a inteligência de saber integrar novos paladares na alimentação. As cantinas escolares deveriam ser sensibilizadas nesse sentido. Os cozinheiros dos refeitórios das escolas deveriam estar abertos à mudança e receber formação. Na escola e em casa devemos aprender a reconhecer o que tem qualidade.”
Fã de bacalhau seco, “o caviar dos portugueses”, Meneau também tentou introduzi-lo no gosto dos seus clientes. Tentativa que não correu muito bem. “Perderam-se, não reconheceram aquele sabor e acabei por retirar o prato da ementa”, conta.
Na cozinha portuguesa, confessa que também não resiste aos pastéis de nata, às sardinhas e às cavalas. “Portugal tem uma costa marítima extensa e pouco poluída, onde se encontra peixes selvagens e de óptima qualidade”, assinala. Característica que aproxima mais a comida portuguesa da linha nórdica, do que da mediterrânica, observa: “Não penso que Portugal possua uma cozinha genuinamente mediterrânica. Não foi esse o caminho seguido. Portugal segue mais a linha nórdica, muito influenciada pelo mar. Não se usam muito as curgetes, nem as beringelas, muito características em França e em Espanha. Não tratámos da mesma maneira os alimentos.”
A unir as cozinhas do sul da Europa está o uso dos alimentos naturais em abundância. Marc Meneau acredita que a tendência é valorizar mais esse uso. “A sociedade deverá evoluir no sentido de respeitar a qualidade dos alimentos, de pagar o preço desse investimento”, diz, sublinhando que a qualidade tende a generalizar-se. Da mesma forma, a nutrição segue dois caminhos distintos: “Há que distinguir duas tendências da nutrição, a nutrição do trabalho e a do lazer. Os espaços onde se poderá comer no intervalo dos períodos de trabalho vão distinguir-se dos mais vocacionados para a procura do prazer e da singularidade. Esses exigem um tempo de fruição mais alargado. Acredito que esse é o caminho da qualidade.”
Perseguir essa qualidade implica abraçar determinados desafios, como o de explorar melhor as potencialidades dos legumes, sugere Meneau: “Os legumes vão ter mais peso no futuro porque a carne e o peixe escasseiam e a vida obriga a necessidades nutricionais diferentes. Por isso mudou a roda dos alimentos. O espaço da carne e do peixe é menor. Ainda não exploramos muito bem os legumes na gastronomia.”
A cozinha de Marc Meneau reflecte essa preocupação, assimilando influências de todo o mundo. “Invento entre sete a nove pratos novos por ano”, revela o chef, ressalvando quer “desses, um costuma ser excepcional!” Com a mesma sinceridade, assume que “a cozinha pode ter defeitos e deve ser imperfeita”. Ainda assim, a francesa é a mais perfeita, considera, silenciando aqueles que vêem na cozinha espanhola e em nomes como Ferrán Adrià, a nova bússola orientadora da gastronomia: “A cozinha francesa nunca foi tão boa e vai continuar a ser a melhor do mundo porque é muito intelectual. É praticada como arte. Ser cozinheiro em França é nobre, não é apenas mais um trabalho.” E conclui como uma pergunta: “Somos felizes com a cozinha de Adrià?”


*Artigo publicado no jornal OJE, em 2007.

miércoles, 12 de enero de 2011

"Assim cuidado faz-se o sonho e fermentado" *

* Verso de Carlos Paião, incluído na provavelmente melhor letra que já concorreu por Portugal à Eurovisão: "Vinho do Porto"

Isto de eu gostar de vinho e do mundo do vinho foi coisa que foi educada.
E poderia ter dado para o torto: é que o primeiro vinho que provavelmente bebi era temperado pelo tristemente célebre Rio Leça. Fazia-o o meu avô a partir das uvas que cresciam nas margens do Leça e das melhorzinhas, que amadureciam no quintal, um quilómetro acima.
Era consensualmente considerado mauzito!
A coisa ameaçava piorar com o carrascão das tascas da Covilhã, mas eis que surge "Fora d'Horas" (aquele bar, o BAR, a minha morada noctívaga na Covilhã)! Comecei a casar vinho com conversa, conversa da boa, com gente com quem apetece conversar, e mais uns petiscos à mistura!
Mais indirectamente, fui gravando como o meu pai orgulhosamente montava a "adega", com mais um exemplar daqueles que era para beber "em momentos especiais", com a certeza de que aconteciam mesmo, porque as garrafas vão-se bebendo mesmo! No topo a Colares de 1974, em minha homenagem! Nem sequer é a mais cara, não será a melhor da colecção, mas é a mais especial para nós os dois!

O vinho continua a ser cúmplice de horas bem passadas à mesa, ou ao balcão, testemunha de muito paleio e tornou-se também tema de trabalho, mensalmente: um mundo que descubro com acrescentado prazer. Um mundo que já mexia há mais de seis mil anos: foram descobertos na Arménia vestígios de uma adega que o prova!

A propósito de educação no que toca a vinho, republico um artigo que escrevi para a revista Actualidade há perto de um ano. E se puderem, comprem o livro do professor Hipólito Pires!

Beba vinho, pela sua saúde

O conselho é de C. Hipólito-Reis, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Argumentos? Sabe-se que o vinho ajuda a retardar a aterosclerose e o envelhecimento, actua na prevenção da doença de Alzheimer e do cancro, entre outros benefícios. O autor do livro “Vinho, Gastronomia e Saúde” contraria cientificamente mitos falsos construídos pela falta de informação e defende uma educação mais rigorosa no que concerne ao consumo do vinho

“Na região onde nasci, as ramadas bordejavam os campos de milho. O pão e o vinho sempre se acompanharam bem.” Com esta imagem, C. Hipólito-Reis ilustra o que aprendeu empiricamente e depois confirmou nos estudos bibliográficos e de laboratório. No de Bioquímica, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde trabalha, nos de outros investigadores e através das comunicações que leu à medida que se foi interessando pelo papel do vinho na alimentação e, consequentemente, na saúde. Foi deste seu interesse que já nasceu o livro “Vinho, Gastronomia e Saúde”, publicado em 2008. Uma obra que pretende desmitificar várias afirmações erradas sobre o consumo de vinho, explicando quais os seus benefícios para a saúde.
Antes de mais, C. Hipólito-Reis ressalva que “as possibilidades dos benefícios das bebidas alcoólicas, no seu bom aproveitamento, correm em paralelo com as dos malefícios do seu mau uso”. À semelhança de outros alimentos, como os açucarados ou os gordos, o vinho e outras bebidas alcoólicas devem ser consumidos segundo normas que estão bem estabelecidas, e sempre com moderação. “O problema que se coloca é, neste aspecto, como em todos os outros do comportamento humano, o da necessidade da educação”, advoga o investigador: “O consumo de vinho tem uma repercussão imensa na economia da saúde e da alimentação em geral. Estamos a educar mal as pessoas, quando tentamos afastá-las do uso do vinho. Ao apresentarmos as bebidas alcoólicas como tabu, desafia-se o ser humano, particularmente os jovens, para a sua descoberta. O álcool transforma-se no “fruto proibido”, o que desperta o desejo que induz um consumo desequilibrado.” Por outro lado, “devido às campanhas contra o vinho (nem sempre contra as outras bebidas alcoólicas), o seu consumo tem diminuído, mas o uso de drogas tem aumentado, pelo que não se podem ler os resultados dessas campanhas como sendo globalmente positivos”.
Se o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é nocivo, também não é aconselhável a sua total ausência na alimentação. C. Hipólito-Reis frisa que “muitas vezes o higienismo excessivo gera pessoas mais compulsivas” e recorda que o vinho e outras bebidas alcoólicas integram há séculos a dieta humana. Estrabão, o famoso geógrafo e filósofo grego, falava já do consumo de cerveja e de vinho por parte dos lusitanos, sendo este, mais difícil de obter, particularmente utilizado nas festas.
Ao longo do tempo foi-se estruturando o conhecimento empírico de que o vinho é positivo para a saúde, comenta o professor: “Antigamente as viagens marítimas entre os continentes eram muito difíceis e nelas morriam muitas pessoas. A certa altura, concluiu-se que havia menos mortes nos barcos onde se consumia vinho. Isto deve-se às propriedades anti-sépticas e terapêuticas do vinho. Quando a Inglaterra quis colonizar a Austrália, no início do século XIX, para lá enviou ex-reclusos e médicos (reclusos), que levaram vinho a bordo. A primeira expedição, já preparada em todos os outros aspectos, teve mesmo que esperar por este abastecimento. Esses médicos, chegados à Austrália, trataram de plantar videiras. Algumas das adegas estão ainda hoje na mão dos seus descendentes.”
Nos EUA, também nos fins do século XVIII / princípios do século XIX, terá sido Thomas Jefferson, o terceiro presidente do país, o responsável pelo fomento da vinicultura, conta: “para produzir vinho, pelas suas reais qualidades e numa tentativa de reduzir o consumo de rum e de whisky e assim controlar o uso de bebidas perigosas. Hoje, a Austrália e Califórnia são das regiões tecnologicamente mais avançadas do mundo no que diz respeito à enologia.”
Já no século XX, depois da segunda guerra mundial, a Grécia pediu a investigadores norte-americanos que estudassem os hábitos alimentares do seu povo para melhorar a saúde. Paradoxalmente, em 1952, Ancel e Margaret Key concluíram ser excelente a dieta mediterrânica, de que o vinho faz parte. Em 1974, Klatsky e colaboradores referiram, com surpresa geral, na prestigiada revista médica Annals of Internal Medicine que o consumo das bebidas alcoólicas previne o enfarte do miocárdio. Da mesma forma, em 1991, no programa da CBS “60 minutes”, falou-se do paradoxo francês, detectado por Serge Renault, assinala C. Hipólito-Reis: “Os franceses consumiam muitas gorduras ditas saturadas, de origem animal, e apresentavam uma baixa percentagem de aterosclerose, sendo o efeito atribuído à bebida regular de vinho.”
O professor explica que “o uso do vinho gera um efeito positivo, na medida em que retarda a aterosclerose, ou seja, a formação de ateromas, que decorrem nas paredes arteriais pela acumulação de colesterol e de outras substâncias, e acontecem como um despertar inflamatório que mobiliza os mecanismos imunológicos”. Sabe-se que “as populações que consomem vinho têm uma maior longevidade e uma menor ocorrência de aterosclerose”. Isso “acontece com as bebidas alcoólicas em geral, mas sobretudo com o vinho”, acrescenta.
O professor destaca ainda que “em 1979, se lia na reputada revista de medicina Lancet que as bebidas alcoólicas, em geral, apresentavam benefícios para a saúde”.
Todos estes casos que ao longo do tempo mereceram um olhar mais atento por parte de médicos e de investigadores estão tratados no livro de C. Hipólito-Reis, na medida em que “abriram várias possibilidades de investigação, contrariando uma ciência puritana que a partir do sueco Magnus Huss, no início do século XIX não só negava qualquer benefício ao álcool, mas considerava-o mesmo como o culpado de muitos males da civilização”. O autor, licenciado em Medicina e Cirurgia, é professor de Bioquímica jubilado, da Faculdade de Medicina do Porto, e reconhece que durante muito tempo se fecharam os olhos às mudanças sociológicas que acompanharam o consumo das bebidas alcoólicas, o que tem permitido a construção de muitas falsas teorias que sobre elas fazem cair um ónus indevido.
O professor continua a estudar as inter-relações do vinho, da gastronomia e da saúde, e esclarece que o vinho é um produto muito complexo: “Estão encontradas centenas de substâncias que o compõem. Além do etanol (álcool), possui uma grande quantidade de polifenóis, designadamente de flavonóides e taninos, bem como de ácidos orgânicos.” As propriedades antisépticas de algumas destas substâncias são particularmente conhecidas. Estas e outras substâncias intervêm na prevenção e cura de vários processos patológicos (ver caixa). Entre os problemas em análise está o do cancro da mama. “Sabe-se que há flavonóides que ajudam a equilibrar a formação das hormonas implicadas no crescimento dos tumores”, exemplifica o professor, precisando que os flavonóides são polifenóis (fenol é um derivado hidroxilado do benzeno) e como tal têm propriedades antioxidantes, permitindo retardar o envelhecimento. Da mesma forma, os polifenóis são usados na prevenção e no tratamento de cancro e de múltiplas outras patologias, designadamente vasculares e prostáticas.
Por sua vez, os ácidos orgânicos intervêm no início da digestão, permitindo manter o pH do estômago favorecedor da actividade das enzimas digestivas.

Branco ou tinto?
A presença maior ou menor das diferentes substâncias do vinho ajuda a eleger o mais adequado a cada prato. O que nos remete para outro falso mito relativo ao vinho, segundo o qual o tinto faz bem e o branco faz mal. Certo é que a utilização de um ou de outro está já protocolada nos textos hipocráticos escritos a partir do século IV antes da nossa era… C. Hipólito-Reis clarifica que ambos geram benefícios: “Os corantes do vinho tinto são polifenóis, com maior influência, por exemplo, no combate à aterosclerose. Já os brancos são mais diuréticos, podendo ter um efeito positivo ao nível renal. Os rosados são excelentes vinhos de merenda ou aperitivos. Os verdes possuem uma maior acidez, o que os torna benéficos na digestão de alguns pratos, nomeadamente os minhotos. A inglesa Joanna Simon soube dizer que em Portugal não há problemas com a escolha do vinho: - para comida local, vinho local. O vinho deve equilibrar a refeição, e, em Portugal, cada região gastronómica têm o seu vinho, que empiricamente realiza o equilíbrio desejado.”

viernes, 23 de abril de 2010

De Fado!




Há pessoas gigantes que nos fazem corar de vergonha... Aqui há uns tempos entrevistei um catalão que ama o Fado, que o entende e que faz mais pela sua divulgação e genuinidade que o nosso Ministério da Cultura. Tem um blogue (o defado) em catalão onde escreve sobre fado e fadistas, onde transcreve os poemas e coloca os links para escutar os fados...
Também por lá está a entrevista que lhe fiz...

martes, 5 de mayo de 2009

Camilo e Siza

Camilo Castelo Branco e Siza Vieira elegeram o mesmo cenário, o Porto. A convite da revista brasileira Viagem e Turismo (Editora Abril) tentei percorrer as pisadas ou o espírito da época de ambos...

Esta é a versão pré-adaptação ao português do Brasil...

O Porto de Camilo Castelo Branco

A cidade que inspirou o nome a Portugal tem séculos de argumentos para merecer uma visita. Vamos deter-nos no XIX e seguir o rasto do romancista e jornalista Camilo Castelo Branco. O Porto, que também emprestou o nome ao vinho, era por esta altura uma cidade mercantil, industrial, cosmopolita, revolucionária e romântica. O autor de “Amor de Perdição” e de “A Queda de um Anjo” alugou-a e contracenou com ela.

Da janela do quarto, Camilo Castelo Branco poderia, se quisesse, contar quantos barcos rabelos atracavam por dia no cais da Ribeira. Até serem substituídas pelo comboio, estas embarcações, que hoje encantam os turistas, desciam o Rio Douro carregadas de pipas de Vinho do Porto para armazenar nas caves de Vila Nova de Gaia (actualmente visitáveis). O vinho adoçava a boca aos ingleses e impelia a cidade a fazer justiça ao seu nome, sendo porto de chegada para as pipas provenientes do Alto Douro e de partida para as garrafas de Porto a exportar para Inglaterra. Tudo isto poderia Camilo confirmar porque estava preso na Cadeia da Relação numa cela voltada para o rio. Estávamos em 1860 e o escritor cumpria pena por adultério, no edifício em que pelo mesmo crime se encontrava também encarcerada a sua amada, Ana Plácido.
O bulício do Douro, que desagua no Porto, não seria distracção suficiente para o escritor, que encontrou no papel e no tinteiro melhor companhia. Hoje é possível conhecer esse espaço reduzido onde Camilo escreveu um dos seus mais afamados romances, “Amor de Perdição”, a história trágica de Simão e Teresa, inspirada no amor reprovado do escritor por Ana Plácido. A antiga cela de Camilo está aberta ao público bem como outras salas da Cadeia da Relação, transformada em Centro Português de Fotografia (cpf.pt, Campo Mártires da Pátria, entrada livre). Aí podemos espreitar por lentes arcaicas que congelaram momentos desde os primórdios da fotografia, admirar o espólio de um pioneiro fotógrafo e cineasta português, Aurélio da Paz dos Reis, e outras mostras que o centro vai rodando.
Recuar às primeiras experiências fotográficas, é viajar pelo século XIX, pelo romantismo artístico, político e filosófico em que encaixa a obra e a vida de Camilo. O escritor nasceu em Lisboa, em 1825, mas morou quase toda a sua vida no Norte de Portugal. O Porto foi palco de anos rebeldes: Camilo dividia-se entre inflamadas paixões e a boémia dos cafés e salões burgueses, onde era popular pelos seus escritos jornalísticos.
Descobrimos esse Porto burguês e romântico na encosta que se estende da Boavista ao rio. Descendo uma das suas estreitas ruas alcança-se o Museu Romântico (Rua de Entrequintas, 220, € 2 de terça a sexta, entrada livre aos sábados e domingos), alojado na Quinta da Macieirinha, reduto de férias da família Pinto Bastos, fundadora da conceituada fábrica de porcelanas Vista Alegre.
A casa envolta por jardins, denuncia quão forte era a presença britânica no Porto no século XIX, um pouco à boleia do comércio do vinho. O museu reconstitui a vivência da época, com móveis de diferentes estilos, que desvendam o eclectismo dos românticos. Testemunha-se igualmente a sua paixão pelo coleccionismo num quarto que exibe várias colecções. A ampla sala de baile deixa-nos imaginar saiotes a rodopiar em serões festivos e faustosos, ao som de Chopin ou Beethoven, autores certamente tocados nos dois pianos fortes Collard que permanecem no museu. Em algumas dessas festas participou o rei italiano Carlos Alberto de Piemonte e Sardenha, que esteve nesta casa exilado e nela faleceu em 1849.
Em frente à Quinta da Macieirinha fica a Quinta Tait (Rua de Entrequintas, 219), que abrigou várias famílias inglesas, como a do abastado negociante de Vinho do Porto William Tait. Mais tarde adquirida pela prefeitura, a casa mantém o traço romântico e acolhe exposições temporárias, merecendo uma visita também pelos seus perfumados jardins.
Colado à Quinta da Macieirinha fica outro legado do romântico, o Palácio de Cristal (Rua D. Manuel II), ou o que resta dele, já que o edifício, erguido em 1865, foi demolido em 1951, dando lugar ao pavilhão desportivo Rosa Mota. Camilo contestou a construção desse palácio que considerava o símbolo do Porto burguês e materialista. O imóvel original, assinado pelo inglês Thomas Dillen Jones, foi tal como o Palácio de Cristal de Petrópolis inspirado no Crystal Palace londrino. Actualmente o espaço atrai sobretudo pelos jardins românticos projectados pelo paisagista alemão Emílio David e pela moderna Biblioteca Almeida Garrett (outro escritor do romântico português).
O ponto final neste roteiro pelo Porto do século XIX pode ser temperado por um cálice da bebida que na época fermentou a cidade comercialmente, projectando-a no resto do mundo. Pode brindar à História e a Camilo, por exemplo, na Quinta da Macieirinha, onde também mora o Solar do Vinho do Porto. Das janelas deste bar/loja de vinho pode igualmente ver os rabelos a partir e a chegar. Em vez de vinho transportam agora turistas desejosos de o experimentar…

O Porto de Siza Vieira

O vencedor do Pritzker em 1992 conhece uma cidade empenhada em acordar depois da ditadura. O Porto de hoje tem o dedo de Álvaro Siza Vieira. A cidade onde o arquitecto trabalha preserva as heranças do passado, mas quer deixar marcas para o futuro. O projecto Porto Capital Europeia da Cultura 2001 agitou a cidade. O efeito continua contagiando vários sectores da vida da segunda maior urbe de Portugal.

Se a viagem pelo Porto de Camilo Castelo Branco pode terminar com um cálice do vinho licoroso que foi buscar o nome à cidade, é justo iniciar um percurso inspirado em Álvaro Siza Vieira com o mesmo copo na mão. O arquitecto português, é conhecido pelas formas que vai acrescentando ao espaço urbano, mas poucos sabem que é também o autor do copo oficial da bebida mais famosa de Portugal (à venda no Solar do Vinho do Porto). Assim é desde 2001, por encomenda do Instituto do Vinho do Porto. A peça de cristal Tritan mede 16,7 cm e é mais alta do que os até então copos usados para beber Vinho do Porto. No pé, o copo possui uma ligeira concavidade para indicar onde deve assentar o polegar, de modo a melhor movimentar e observar a bebida antes de lhe sentir o aroma e de a provar.
A experiência fica mais saborosa se a escassos metros de si estiver o mar, apenas filtrado por uma parede de vidro. Isto é possível na Casa de Chá da Boa Nova (Lugar da Boa Nova, Matosinhos), projectada por Siza Viera e concluída em 1963. O espaço parece ter sido cavado nos rochedos da Praia de Leça da Palmeira, uma das primeiras que encontra depois do Douro se render ao Atlântico. Quem visita o Porto dificilmente resiste a um desvio à cidade vizinha de Matosinhos para conhecer esta carismática obra de Siza. Aqui pode beber um Porto, um chá (a outra bebida, que os portugueses ensinaram os ingleses a gostar, através de Catarina de Bragança, esposa do rei Carlos II de Inglaterra) ou mesmo fazer uma refeição.
Ainda na praia de Leça da Palmeira, a convidá-lo para um mergulho, estão as Piscinas das Marés (Avenida da Liberdade, Matosinhos) também da autoria de Siza. A construção surge tal como a Casa de Chá camuflada entre os rochedos, como se não quisesse perturbar a Natureza. Antes tira partido dela, já que é da água salgada do Atlântico que se alimentam as piscinas.
Seguindo pela costa atlântica que nos leva até à Foz do Douro, já no Porto, faça escala no Parque da Cidade (Avenida da Boavista), uma conquista recente para a qualidade de vida dos portuenses. Idealizado pelo arquitecto paisagista Sidónio Pardal, o maior parque urbano do país é generoso em espaços verdes e lagos, sendo ideal para jogging, passear de bicicleta, ou simplesmente relaxar.
O recinto faz fronteira com a Boavista, zona de luxuosas vivendas que se estica até à Foz do Douro. Entre ambos está a Avenida da Boavista. Recomenda-se uma paragem a meio, não por se tratar da mais longa artéria da cidade, mas porque é imperioso visitar a Quinta de Serralves, onde está o Museu de Arte Contemporânea (serralves.pt, Rua D. João de Castro, 210), outra obra com o carimbo de Siza. O edifício branco, de linhas rectas e surpreendentes jogos de luz, concluído em 1999, alberga uma colecção permanente, que conta a evolução da arte desde a década de 60, e recebe mostras temporárias de arte contemporânea. O espaço é determinante no diálogo com outras instituições culturais, na projecção internacional da cidade, bem como na educação para a arte e na sedução de novos públicos.
O mesmo caminho parece trilhar a Casa da Música (casadamusica.com, Avenida da Boavista, 604-610), projectada por outro colosso da arquitectura actual, o holandês Rem Koolhaas. Este novo espaço, incontornável na programação musical da cidade, ficou pronto em 2005 e é já um ícone arquitectónico do Porto, justificando a visita guiada (€ 3).
A Casa da Música é um legado do Porto Capital Europeia da Cultura 2001, projecto que catalisou a revitalização de muitos espaços culturais e melhorias urbanísticas em zonas como a Praça Carlos Alberto ou o quarteirão do Jardim da Cordoaria. Os arranjos sublinharam a imponência da Igreja e Torre dos Clérigos (Rua dos Clérigos), projectadas pelo italiano Nicolau Nasoni. Concluída em 1763, a torre é o símbolo do Porto e permite aos que se atrevem a escalar os seus 225 degraus uma vista de 360 graus sobre o centro histórico da cidade, que vale a classificação de Património Mundial da UNESCO.
Desse ponto observa-se a remodelada Avenida dos Aliados, um trabalho de Siza em parceria com o também reputado arquitecto português Eduardo Souto Moura. Os Aliados foram reestruturados de modo a acumularem a função de praça, para maior usufruto das pessoas. O granito é o material de eleição, em homenagem ao maciço rochoso em que assenta a cidade e que agradou a vários estilos arquitectónicos: Sé (românico), Igreja de São Francisco (gótico), Igreja da Misericórdia (renascentista), Clérigos (barroco), Palácio da Bolsa, Câmara Municipal e Hospital de Santo António (neoclássico), entre outros…
Não se despeça da cidade de Camilo e de Siza sem antes a ver do lado de fora. Desça os Aliados até à Estação de Comboios de São Bento (obrigatório cruzar a porta de entrada e babar com os 20 mil azulejos de Jorge Colaço), embrenhe-se no Porto mais medieval até ao rio, atravesse pela Ponte D. Luís (projectada pela equipa de Gustav Eiffel no século XIX) para a Ribeira de Gaia. Eleja uma das esplanadas das caves de Vinho do Porto. À sua frente, em cascata, o Porto espelha-se no Douro. O cinzento granítico mistura-se com tons ocres. De cortar a respiração!

viernes, 23 de enero de 2009

O tabuleiro do monopólio já não é o mesmo!

A propósito da Rua da Flores e de urbanismo, aproveito para "reabilitar" um texto que escrevi no ano passado sobre reabilitação urbana. Foi publicado na revista Actualidad€

A oportunidade da reabilitação

O investimento médio europeu em reabilitação representa cerca de 36% do total do valor do mercado de construção. Em Portugal, a fatia é de 7,4%. Basta passear pelos centros urbanos de Lisboa e do Porto para perceber que há um potencial por explorar. Em jogo está a sustentabilidade das cidades e o travão da crise no sector de construção…

O protagonismo da Rua Augusta justificava um dos preços mais elevados na versão portuguesa do popular jogo de simulação de investimento imobiliário Monopólio. Com a entrada em circulação do euro foi feita uma nova versão, mas a moeda de transacção não foi a única alteração que sofreu o tabuleiro português do Monopólio. A Rua Augusta, que depois do Rossio era a zona mais valorizada, foi eliminada do jogo. O mesmo aconteceu com a também lisboeta Avenida Almirante Reis. O Monopólio é apenas um jogo, mas reflecte a realidade, que também tratou de desvalorizar zonas outrora nobres da cidade de Lisboa. A pedonal Rua Augusta chegou a ser uma das ruas mais caras e cobiçadas da capital. Hoje já não é assim e na rua convivem lojas antigas de prestígio, marcas internacionais de pronto-a-vestir, mas também espaços comerciais que descuidam o serviço e o produto, contribuindo para a desvalorização da zona. Por cima das lojas o cenário piora, com casas degradadas, ocupadas por escritórios, ou a funcionar como armazéns. Os moradores são raros na Rua Augusta, bem como nas restantes ruas da baixa lisboeta. Mesmo no Rossio contam-se pelos dedos os habitantes. Na Avenida Almirante Reis ainda vivem muitas pessoas, mas o estado de degradação de uma boa parte dos edifícios desencoraja potenciais novos moradores.
Se viajarmos até ao centro da cidade do Porto, o panorama é semelhante. Em ambos os casos estamos a falar de prédios muito antigos e degradados (grande parte deles devolutos), de escasso estacionamento, de dificuldades de mobilidade e de debilidade do tecido económico e social local. Perante esta conjuntura, percebe-se que falar de reabilitação urbana não é falar de reabilitação de edifícios, mas de quarteirões inteiros, atendendo a todos estes problemas.
O fenómeno do empobrecimento do tecido urbano central e a migração da população para a periferia das grandes cidades não é novo. A factura a pagar é a desvalorização do património arquitectónico e histórico, a deterioração do edificado, a insegurança e a proliferação de actividades marginais e precárias. Cidades como Londres, Madrid ou Barcelona já passaram pelo mesmo, mas conseguiram dar a volta por cima. Portugal só agora está a meter mãos à obra.
António Manzoni, director do departamento de economia da Associação Nacional de Empreiteiros e Obras Públicas (ANEOP) chama a atenção para as diferentes conjunturas: “A evolução da economia portuguesa nos últimos seis anos foi completamente diferente da espanhola. A actividade do sector de construção sofreu uma quebra recorde de 25%, numa altura em que se registou uma fase de expansão em Espanha, alicerçada na valorização dos preços.”

114 mil casas muito degradadas
A julgar pelo Censos de 2001, existem em Portugal 1,13 milhões de fogos a precisar de pequenas reparações, 470 mil a precisar de reparações médias, 211 mil de grandes reparações e 114 mil muito degradados. “Ao ritmo a que estamos a reabilitar, seriam necessários 28 anos para responder às necessidades”, conclui António Mazoni. O economista recorda que “o mercado da construção deverá movimentar 4,7 mil milhões de euros, sendo 936 milhões de euros oriundos da reabilitação”.
De acordo com Reis Campos, presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), “a realidade retratada no Censos possivelmente agravou-se, porque o ritmo de reabilitação urbana tem sido baixo e o processo de degradação mantém-se com o decurso do tempo”. Para Reis Campos a situação crítica em que se encontram os centros urbanos justificaria elevar a reabilitação “ao estatuto de prioridade nacional e municipal”. O presidente da AICCOPN argumenta que “tem faltado uma verdadeira política de reabilitação urbana e respectiva dotação orçamental, para tornar os centros das cidades mais habitáveis”. Também “têm faltado planos de investimento por parte das autarquias, representando a reabilitação apenas 7,4% do mercado da construção”. Abaixo dos nossos vizinhos espanhóis que acordaram mais cedo para o problema: “Espanha tem seguido ambiciosos planos de investimento a nível nacional, regional e local, o que contribuiu para que a reabilitação e manutenção represente já cerca de 24% do mercado e se aproxime gradualmente da média europeia, que é de 36%.” Para engordar os números da reabilitação, o mote tem que vir do Governo, defende: “Quem conhece o estado de degradação do património edificado sabe que só com incentivos fortes que reforcem a atractividade deste mercado e medidas de desburocratização que garantam a célere aprovação dos projectos se produzirão os efeitos desejados. É fundamental promover incentivos mais eficazes e rever o Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU) já que a revisão da Lei das Rendas foi um fracasso e revelou-se incapaz de cumprir os seus grandes objectivos: dinamizar a reabilitação urbana e fomentar a criação de um mercado de arrendamento.”
Jorge Guibarra, responsável pelo departamento de Promoção e Reabilitação Urbana da consultora Cushman & Wakefield, concorda: “A Lei das Rendas foi uma oportunidade perdida no entender de muitos promotore. Na realidade foram poucos os casos em que as rendas foram actualizadas e poucos os proprietários que avançaram com obras de reabilitação à custa da lei. Seria aconselhável juntar à mesma mesa todos os intervenientes neste processo e acordar a melhor forma de solucionar o problema do arrendamento.”
O presidente da AICCOPN também considera “essencial rever o NRAU de modo a permitir resolver o problema da actualização da renda dos 390 mil contratos antigos, a criação de tribunais especializados para a rápida resolução de conflitos, a atribuição de subsídio social aos arrendatários com baixos recursos, que só agora são anunciados e a efectiva liberalização o mercado de arrendamento”. Por outro lado, acrescenta, “é necessário repensar a tributação deste tipo de rendimentos, porque a aplicação do Imposto sobre os Rendimentos das Pessoas Singulares (IRS) poderá atingir os 42%, o que é excessivamente penalizante”.
João Andrade, consultor da Aguirre Newman, realça ainda que “apesar de muitos prédios estarem necessitados de obras, são poucos os que estão à venda para que os promotores possam colocar mãos à obra”. Isto porque “por vezes estão parcialmente ocupados por inquilinos que pagam rendas muito baixas e que se recusam a sair”. Outro entrave à dinamização da reabilitação urbana é a morosidade do licenciamento, aponta. “Os fundos de reabilitação urbana obrigam a que obra se concretize num determinado período e os atrasos no licenciamento impedem por vezes que se cumpra esse requisito”, observa o consultor.
Esta burocracia pode afastar investidores, alerta Jorge Guibarra: “Alguns promotores espanhóis queixam-se da burocratização do processo de licenciamento de obras de reabilitação em Portugal.” O consultor da Cushman conta que muitos proprietários gostariam de reabilitar os seus prédios, mas esperam anos pelo licenciamento. O arrastamento dos processos faz com que se torne mais atractivo construir de novo, diz: “Enquanto houver terrenos para nova construção nas cidades, os promotores vão optar por essa via. Se passar a haver menos licenças para nova construção, talvez a reabilitação acelere.”
Casos há em que os proprietários se recusam a reabilitar e nessa altura, cabe à câmara e às Sociedades de Reabilitação Urbana (SRU) intervir. Joaquim Branco, presidente da SRU Porto Vivo (ver caixa), avança que desde 2004, altura em que entraram em acção, “já foram gastos cerca de 10 milhões de euros em expropriações, mas sempre com parceiros privados a aderir aos projectos e a cobrir esses custos”. A estratégia da Porto Vivo passa por reabilitar quarteirões, pelo que os proprietários de prédios degradados são obrigados a reabilitar, explica Joaquim Branco: “Quando os proprietários não avançam para a reabilitação, expropriamos e as obras avançam independentemente da decisão sobre o valor a pagar ao proprietário pelo imóvel. Decisão que muitas vezes só é alcançada em tribunal.” O administrador da Porto Vivo reconhece que “a intervenção em centros históricos é difícil porque mexe com património histórico, classificado”. Se “na Baixa do Porto, a maioria dos proprietários são institucionais”, o que facilita o processo, “na zona histórica há muitos particulares, com muitos herdeiros que não se entendem”.
Por outro lado há factores que podem contribuir para dinamizar a reabilitação urbana, como a lei da Eficiência Energética do Edifícios. Para a Porto Vivo, “a eficiência energética é uma prioridade”, frisa Joaquim Branco, adiantando que enquanto membros fundadores da Agência de Energia do Porto “estão a estudar com a Universidade do Porto que tipo de materiais podem ser aplicados no centro histórico de modo a cumprir os requisitos de eficiência energética, sem descaracterizar a construção”. António Manzoni assinala ainda que o CO2 também pode acelerar a reabilitação, já que “cerca de 40% das emissões de CO2 europeias derivam do parque habitacional, o que faz dos edifícios um forte poluidor”.
O director do departamento de economia da ANEOP defende que “acontecimentos como os Jogos Olímpicos (veja-se o caso de Barcelona), o Porto 2001, ou a Expo 2008 funcionam como alavancas para a valorização das cidades e o mesmo acontece com equipamentos como o Museu Guggenheim, em Bilbau, ou a Casa da Música, no Porto”.
António Manzoni considera que “as cidades têm que ser qualificadas para convencer os promotores a investir na reabilitação e os habitantes a regressar aos centros das cidades”. O economista nota que “Londres soube bem responder à necessidade de dinamizar o centro da cidade e Barcelona também fez isso muito bem”. Se “no Chiado ou na Lapa reabilitar pode ser lucrativo, porque são zonas valorizadas e os preços dos imóveis reabilitados cobrem os custos”, o mesmo não acontece com outras zonas. “O problema da reabilitação consiste em saber como intervir em zonas onde o mercado não funciona e isso é muito difícil de fazer em alturas de crise porque implica a valorização da área através de infra-estruturas e equipamentos”, diz.
Todos concordam que a reabilitação é uma questão complexa para a qual não basta canalizar dinheiro. Daí que as SRU criadas pelas autarquias possam ter um papel determinante na promoção deste mercado. João Andrade, da Aguirre Newman, considera que “as SRU são tentativas honestas de dinamizar o mercado de reabilitação, pelo menos ao nível conceptual”, mas “em termos práticos, no caso de Lisboa, o seu trabalho é pouco visível”. Já “a SRU do Porto parece ser mais dinâmica”. Jorge Guibarra, da Cushman, corrobora: “Em Lisboa não se sente qualquer resultado do trabalho das SRU. A Porto Vivo parece-me ser um organismo mais activo. As pessoas com quem falo estão satisfeitas.”
O presidente da ACCOPN advoga que “as SRU podem ser importantes instrumentos com vista à criação de uma nova dinâmica de investimento nos centros urbanos”. Porém, “ainda faltam planos de acção e de investimento por parte das autarquias, que se articulem com os investimentos a cargo do poder central”. De destacar “a construção do Metro do Porto e a expansão do de Lisboa que criaram valor nos centros históricos, porque facilitaram a mobilidade e a acessibilidade”.
Quanto à capacidade empresarial para responder aos desafios da reabilitação, Reis Campos não tem dúvidas: “As empresas portuguesas já realizaram obras de reabilitação e manutenção em vários tipos de edifícios, património histórico e cultural, e possuem capital de conhecimento e competência para aproveitar as oportunidades. Há empresas habilitadas e especializadas na execução de obras de reabilitação urbana em todo o país. O problema é que o mercado de reabilitação urbana tem estado quase estagnado, pelo que é necessário um ambicioso programa de reabilitação do património habitacional e histórico, para impulsionar o sector da construção e recuperar algumas das zonas mais nobres das nossas urbes.”
A reabilitação pode também catalizar a inovação, na medida em que exige diferentes materiais, salienta: “As intervenções sobre o património edificado são muito específicas e complexas. Os materiais e tecnologias têm acompanhado a evolução do mercado de reabilitação com soluções adequadas em termos de durabilidade e qualidade. Existe o desafio de continuar a qualificar e a formar mão-de-obra especializada para responder às necessidades.” O presidente da associação que representa as indústrias da construção remata: “Trata-se de um mercado com um grande potencial para o sector em Portugal. É um mercado que, sem contar com as intervenções nas zonas envolventes e em infra-estruturas, estimamos num montante superior a 28 mil milhões de euros.”

CAIXAS:

“O Porto será completamente diferente dentro de 10 anos”, garante administrador da Porto Vivo
O quarteirão das Cardosas, localizado mesmo no coração da cidade do Porto “não terá mais do que 10 habitantes”, observa Joaquim Branco, presidente da Comissão Executiva da Sociedade de Reabilitação Urbana Porto Vivo. Este quarteirão espelha a desertificação gradual do centro do Porto. O quarteirão das Cardosas será alvo de obras de requalificação no âmbito do programa iniciado pela Porto Vivo em 2004. O organismo identificou uma zona de intervenção prioritária, onde existem cerca de 18 mil edifícios. Desses, 30% foram construídos antes de 1919, outros 30% antes de 1945. A progressiva degradação destes prédios aliada às dificuldades de mobilidade e de estacionamento no centro da cidade, bem como à escassez de infra-estruturas sociais afugentou os habitantes. Em 40 anos o Porto ficou com metade da população. Só nos últimos 20 a cidade perdeu 50 mil habitantes.
Este cenário obriga a mais do que reabilitar edifícios, salienta Joaquim Branco: “O Porto teve um declínio grande e concluiu-se que era preciso mudar de modelo. Reabilitação urbana não é restaurar edifícios. Isso não basta. O importante é atrair a população e fixá-la. Tem que haver uma componente sistémica e um processo de credibilização junto do proprietário e do investidor. Temos que convencê-los de que vale a pena investir no centro do Porto. Logo há que criar condições de mobilidade e de estacionamento, reabilitar o comércio e os equipamentos sociais.”
As pessoas que ainda moram no centro são as mais velhas e com baixo poder de compra. A Porto Vivo quer reverter esta situação: “Temos 60 mil estudantes universitários no Porto e vamos criar oportunidades de emprego para os fixar e colocar a render os seus conhecimentos.” O isco reside em instalar residências universitárias na zona histórica e indústrias criativas, através da criação de ateliers para jovens, em parceria com Serralves e com a Casa da Música. Trata-se de aproveitar uma tendência que já se verifica junto ao Mercado Ferreira Borges, onde se alojaram várias lojas de comércio alternativo. A Porto Vivo quer também elevar o poder de compra dos habitantes do centro da cidade para a revitalizar economia local. Joaquim Branco assinala que “o turismo está a crescer imenso, graças às companhias aéreas low-cost que voam em grande número para o Porto”. Daí que seja necessário dinamizar o centro. “Quando começámos era difícil convencer alguém a instalar um hotel na Baixa”, recorda. Agora chovem propostas e já estão previstos hotéis de charme, de luxo e low-cost. “Todos a instalar em edifícios reabilitados”, garante Joaquim Campos.
A Porto Vivo vai candidatar-se a apoios do QREN para habitação social, realojando assim em melhores condições os que já vivem na zona a reabilitar. No que toca ao financiamento, a SRU dispõe ainda de um crédito de 140 milhões de euros do Banco Europeu de Investimento. Joaquim Branco diz que não deverá ser necessário usá-lo, já que estão “a trabalhar para o prejuízo zero”. A reabilitação está a ser feita em parceria com privados, através de concurso, e a adesão tem sido enorme: “Tem havido muito interesse por parte das empresas portuguesas e estrangeiras, nomeadamente imobiliárias da Galiza e de Madrid”.
A queda da nova construção tende a equilibrar-se através da reabilitação. Joaquim Branco recorda que o ritmo de nova construção no Porto rondava, no ano 2000, os 200 mil metros quadrados. Com o abrandamento do sector, a nova construção caiu para metade. Os níveis de reabilitação em 2000 eram baixos, mas o plano da SRU promete alterar o quadro: “Traçámos um plano a seis anos, o que se traduz num milhão de metros quadrados de obras de reabilitação a lançar. Vamos conseguir. Queremos reabilitar cerca de 100 mil metros quadrados por ano, o que atira a reabilitação para uma média muito superior à europeia.”
O primeiro quarteirão a sofrer intervenção foi o do Auditório Carlos Alberto, cujas obras deverão estar prontas até ao fim do ano”, assegura Joaquim Branco. A zona da Praça de Lisboa, que prevê sete mil metros quadrados de área comercial, entra em obras ainda este ano. O mercado do Bolhão aguarda parecer do IPPAR para iniciar a requalificação. “Estão em curso obras em cerca de 100 mil metros quadrados”, informa, acrescentando que “já há habitantes garantidos para as casas restauradas”. Joaquim Branco sublinha que “a procura é enorme” e que “o problema é a falta de oferta”. O presidente executivo da SRU não tem dúvidas de que “o Porto será completamente diferente dentro de 10 anos” porque “ao reabilitar áreas inteiras, fica assegurado que quem vai viver no centro terá condições”.
A Porto Vivo quer desmistificar a ideia de que reabilitar é mais caro do que construir de raiz, informa Joaquim Branco: “Não há como reabilitar sem captar a confiança dos investidores e dos proprietários por isso estamos a dar condições vantajosas para promover a reabilitação. O IVA é de 5% na Baixa do Porto. A taxa de licenciamento é reduzida. A aprovação do projecto é mais simples e as construtoras que investirem em reabilitação ganham créditos para efectuar nova construção. Os fundos de reabilitação urbana não pagam IRC, logo os lucros não são taxados. Quem adquirir casa na zona histórica do Porto não paga EMI nem IMT porque os edifícios são classificados.” O administrador deixa claro que ”o objectivo não é substituir o mercado, mas regulá-lo e deixá-lo funcionar”. Quanto ao sucesso da estratégia, está optimista: “A qualidade de vida no centro do Porto será muito superior. Trata-se de viver em edifícios diferenciados, com um potencial de valorização enorme.”


Barcelona: nova Cuitat Vella
No final da década de 80, Barcelona acordava para o problema: era preciso restaurar a Cuitat Vella, o famoso centro histórico. Estabeleceu-se em 1987 o Plano de Reabilitação Integral que envolvia intervenções ao nível do urbanismo, da habitação, da segurança, do bem-estar social, da mobilidade, da acessibilidade, dos equipamentos e infraestruturas e da revitalização económica.
A Ciutat Vella foi durante séculos o centro político, industrial, comercial e financeiro de Barcelona. A zona central da capital da Catalunha foi perdendo protagonismo, degradando-se progressivamente. A população envelheceu e diminuiu. Na teia urbanística da zona, de origem medieval, 70% das casas foram construídas antes de 1900. Para intervir neste cenário é criada em 1987 uma sociedade anónima municipal, com o objectivo de promover e requalificar a Ciutat Vella, a Procivesa. O organismo tratou de compatibilizar as zonas residenciais com o comércio, a hotelaria, o turismo, os serviços e as actividades de ócio e cultura e assim travar a fuga da população e atrair novos habitantes. Só entre 1987 e 1994 foram gastos 516 milhões de euros. A fatia correspondente à habitação foi de 97 milhões de euros. Investiram-se 76 milhões de euros em infraestructuras, 21 milhões em estacionamento, 108 milhões em espaços públicos, 95 milhões em equipamentos para a cidade, 58 milhões na universidade e 59 milhões em equipamentos de bairro. A reabilitação foi feita de modo a realojar em melhores condições as famílias que viviam na zona e a criar espaço para nova habitação de iniciativa privada ou pública. Houve igualmente a preocupação de requalificar a zona marítima, privilegiando a componente pedonal, e de desenvolver parques e zonas verdes, tendo sido plantadas mais de 4000 árvores. Foram criados centros cívicos, lares de idosos e novos complexos desportivos. A actividade económica do núcleo histórico da cidade, alicerçada no turismo, foi revitalizada. A rede de transportes públicos foi reforçada e viabilizaram-se os corredores para bicicleta. Por outro lado regulamentou-se o acesso condicionado de veículos a determinadas zonas da cidade.

Madrid reabilita, em média, sete mil casas por ano
Na capital de Espanha vivem cerca de três milhões de pessoas, número que se tem mantido estável nos últimos anos, muito graças aos esforços de reabilitação urbana. “Acreditamos que a reabilitação está a ajudar a trazer para a cidade habitantes mais jovens”, nota Juan José de la Gracia, coordenador do departamento de habitação do Ayuntamiento (câmara) de Madrid. O restauro do edificado na zona central da cidade começou a notar-se a partir de 1993 e tem vindo a crescer. De acordo com Jose de la Gracia, “a média de casas reabilitadas por ano é de sete mil”.
O centro da cidade está praticamente todo reabilitado, mas o processo segue em bairros ainda degradados como o de Lavapiés, muito habitado por imigrantes. “A ideia é integrá-los e melhorar as suas condições de habitabilidade”, assinala José de la Gracia. Subsiste igualmente a preocupação em elevar a qualidade de vida na zona mais central da capital, sublinha: “No centro há poço espaço e estamos a tentar torná-lo mais livre, criando mais espaços verdes e praças. Condições indispensáveis para os jovens que se fixarem no centro e assim se divertirem com os seus filhos.”
José de la Gracia indica que para o período de 2007 até 2011 foi estipulado um orçamento é de 1796 milhões de euros a investir em reabilitação. Em 2007 foram gastos 420 milhões de euros e em 2008 deverão chegar aos 440 milhões de euros.
Uma vez reabilitados os edifícios, cabe à autarquia a gestão imobiliária, explica José de la Gracia: “Temos um registo com as pessoas que precisam de casa e sorteámos as que são para alugar. Quanto às que são para vender, fazemos uma selecção dos compradores em função de vários itens. O mais pontuado tem direito de preferência.”
Em Madrid, o preço do metro quadrado restaurado é igual ao do novo, variando apenas em função da zona, diz José de la Gracia, adiantando que “actualmente ronda os 2400 euros por metro quadrado”, já que “sofreu um grande aumento, depois de quatro anos nos 1850 euros”.
O responsável municipal pela habitação informa que a reabilitação é fortemente subsidiada em Espanha, quer pela administração central, quer pelas autonomias, quer pela autarquia. No caso de Madrid, os subsídios por casa podem chegar aos 21 mil euros. “Os incentivos são dados aos proprietários e em breve poderão também ser dados apoios às construtoras e imobiliárias, uma vez que o governo está a preparar o enquadramento legal para que tal possa acontecer”, diz José de la Gracia, acrescentando que “a reabilitação começa a ser um mercado forte para as construtoras”. A partir de uma certa idade os edifícios em Espanha sofrem uma inspecção obrigatória, pelo que há pressão para que a reabilitação aconteça.


Reabilitação tarda em descolar em Lisboa
Praça da Figueira e Rossio são duas das mais emblemáticas praças lisboetas, rodeadas por prédios pombalinos (construídos depois do terramoto que destruiu o centro da cidade de Lisboa em 1755). Hoje são edifícios degradados e quase desabitadoss. Apenas no rés-do-chão permanecem como inquilinos lojas de comércio tradicional, na maioria dos casos, vendendo produtos com pouco valor acrescentado.
Há cinco anos a sociedade hoteleira Seoane & Vidal adquiriu o quarteirão que separa as duas praças com o objectivo de requalificar os edifícios e aí alojar um hotel de cinco estrelas, mantendo todas as características históricas da construção, uma vez que são prédios classificados. O projecto está parado à espera do licenciamento camarário, explica José Luís Seoane, administrador da empresa: “Adquirimos o quarteirão e submetemos logo o projecto à apreciação da câmara. Andámos há cinco anos em reuniões para tentar obter o licenciamento. Cai a câmara, muda a SRU e nada porque a câmara de Lisboa não funciona.” O empresário conclui que as dificuldades de licenciamento desencorajam os promotores: “O que está a acontecer com o nosso projecto, acontece com outros. Desta forma não me espanta que a câmara consiga correr com os empresários da cidade”.
À burocracia inerente ao processo de licenciamento acrescem as dificuldades de negociação com os inquilinos, nomeadamente as lojas, habituadas a rendas muito baixas. José Luís Seoane argumenta que a sua empresa poderia fazer mais pela requalificação em Portugal, se os processos fossem mais céleres.
O pelouro do urbanismo da Câmara de Lisboa diz estar empenhado em dinamizar o processo. O arquitecto Jorge Catarino, do gabinete autárquico de urbanismo, conta que entre as áreas prioritárias de intervenção estão as zonas históricas, com destaque para a Baixa-Chiado, a zona ribeirinha, o Eixo Central (Av. da Liberdade, Fontes Pereira de Melo, República e Campo Grande) e o eixo da Av. Almirante Reis. A câmara contabiliza 3740 fogos particulares devolutos e candidatos a devolutos e 320 edifícios municipais a necessitar de intervenção.
A ideia é coordenar várias vertentes carenciadas, salienta Jorge Catarino: “A reabilitação tem de ser integrada abrangendo quer a intervenção em edifícios e espaço público, quer a intervenção social, para evitar guetos ou usos exclusivos.” A habitação social também não será descurada: “Em muitos casos podem equiparar-se as intervenções municipais nos bairros históricos a projectos de habitação de cariz social, atendendo às áreas em causa e à população alojada.”
A câmara criou três SRU: a Ocidental, a Oriental e a Baixa Pombalina. “A procura de um relacionamento e licenciamento de proximidade ajuda a que as diferentes Unidades de Projecto tenham um conhecimento muito correcto da realidade física e social das suas áreas de intervenção”, justifica o arquitecto.
O financiamento será em muitos casos a fundo perdido pela Autarquia e pelo Estado, através de diversos programas comparticipados (RECRIA, etc). A câmara deseja igualmente despertar o interesse dos privados, assinala Jorge Catarino: “A prioridade de intervir nos edifícios municipais e espaços públicos, nas áreas históricas, cria sinergias e condições de mais valias urbanas que estimulam a intervenção particular e a procura de espaços de habitação ou terciário.” O arquitecto acrescenta que está a ser estudado um empréstimo bancário com o IHRU/BEI, cujo montante a somar à capacidade financeira da câmara ditará as metas de reabilitação para 2010. A câmara quer “a curto/médio prazo concluir todas as obras de reabilitação (coercivas ou não) que a Câmara já iniciou e que, por razões diversas, estão praticamente todas paradas”. Espera-se que com o arranque das obras e com o novo licenciamento “a intervenção na reabilitação por parte dos privados seja uma prioridade real”, sendo “já visível esse interesse, nomeadamente na área da Baixa onde o número de pedidos de licenciamento é bastante elevado”.

martes, 13 de enero de 2009

Na agenda delas...

No jornalismo não costumam ser os acontecimentos do dia-a-dia, os que são apenas notícia por um dia, que mais me atraem. Interessam-me sobretudo as historinhas, os detalhes, o que vale uma conversa ou um olhar mais demorado... Interessa-me ir à procura em vez de ficar refém da "agenda"...
A agenda delas liberta essa "agenda" diária, inspira-se nela, mas propõe outros ângulos e muitas vezes ousa incluir na agenda o que dificilmente nela caberia, nos moldes mais tradicionais. É uma alternativa poética que eu gosto de espreitar...
Desta vez a Mab e a )Meg abriram-me a porta e convidaram-me a entrar... É a minha estreia nas foto reportagens (leia-se tentativa de,): impressões da minha passagem por Angola em Outubro de 2006. Estive em Luanda e no Mussulo uma semana... Pouco, muito pouco...
As fotografias foram captadas no Mussulo... Sobre ele escrevi também um artigo que foi publicado no OJE e que recupero aqui.

Luanda espreguiça-se no Mussulo

A longa língua de areia dourada que rasga o mar a sul de Luanda serve de retiro aos luandenses e anuncia-se como um dos lugares de culto do mapa turístico angolano.

Respira-se mais devagar assim que embarcamos no cais de Luanda. A mobilidade caótica da capital angolana, cede lugar aos coqueiros que desvendamos ao longe, a acenar-nos do Mussulo. A viagem de barco para a península que abraça Luanda não dura mais do que um quarto de hora. O suficiente para relaxar com a cumplicidade dos raios de sol, quase todo o dia perpendiculares em Angola.
São cada vez mais os que não resistem a uns dias de ócio no Mussulo. Crescem os complexos turísticos para responder ao assédio de quem procura a península para intervalar os negócios em Luanda, ou mesmo dos turistas seduzidos pelo generoso areal que borda o arvoredo aparentemente selvagem do Mussulo. O mesmo areal que amanhece forrado de milhares de corpos adormecidos, em rendição, no primeiro dia de cada ano. “Ocupado” é carimbo garantido em todos os bangalôs e quartos do Mussulo nas festas de Natal e de fim-de-ano. São picos de afluência num Verão, que em Angola, se confunde com as restantes estações do ano.
O clima é apenas um dos argumentos que convidam a uma visita ao Mussulo. As águas calmas que banham a parte norte da península, onde se encontram os complexos turísticos são cenário de eleição para vários desportos náuticos. Para os menos dinâmicos, a alternativa pode ser saborear um gin tónico (receita inimiga do paludismo) enquanto preguiça languidamente numa das camas de madeira espalhadas pelo areal.
Manter a mesma passividade revela-se tarefa difícil à medida que a kizomba dita o ritmo dos restaurantes ao ar livre, assim que a noite chega. Na maioria das vezes a música é tocada ao vivo por bandas angolanas, que transformam o recinto numa pista de dança.
Tudo isto se passa na costa Norte da península, a que observa Luanda. Na costa Sul, voltada para o Atlântico, as praias permanecem virgens e deverão assim continuar, já que está proibida a construção pelo governo angolano. Também por isso é obrigatório um passeio por este lado mais selvagem da península. Recomenda-se um final de tarde. Dada a proximidade com o Equador, podemos ver o pôr-do-Sol como se estivesse em movimento acelerado. É um instante. Um instante inesquecível.

Caixas:

Entre o Mussulo e a cozinha da Selecção de Angola

Um dos chefes de cerimónia que encontramos no Mussulo é o responsável pelas ementas da Selecção angolana de futebol. Manuel Fernando Peixoto, um português que desembarcou em Angola aos 11 anos, não só responde pela dieta dos Palancas Negras como também pela dos clientes do complexo turístico Sonho Dourado, que explora há cerca de um ano.
Foi em Angola que pôs pela primeira vez a mão na massa, que é como quem diz, foi onde se estreou como cozinheiro. Chegou a trabalhar no Clube Naval, uma das casas mais conceituadas em Luanda, no início da década de 70. Não escapou à retirada portuguesa e aproveitou o regresso às origens para aperfeiçoar o engenho num curso na Escola de Turismo do Estoril. “O que sei devo a professores como o mestre Silva e Maria de Lurdes Modesto”, sublinha Manuel Peixoto.
“O bichinho angolano” obrigou-o a voltar a Angola, de onde não tem vontade de sair. Trabalhou na Angotel (antiga empresa estatal que geria os hotéis) e um dia chegou à cozinha da Selecção de Angola, por acaso: “Fui como adepto da Selecção à Guiné Conacri, há 15 anos, ver um jogo de qualificação para a Taça Africana das Nações. Deram-nos comida estragada. Prontifiquei-me a cozinhar durante os três dias da estadia. A partir daí não quiseram outra coisa.” Assegura que a experiência tem sido muito gratificante. O ponto alto foi a surpreendente presença de Angola no último Mundial. O cozinheiro recorda o ambiente de camaradagem que se vive entre as diferentes equipas, destacando o convívio com a Selecção portuguesa.
Quando não está ao serviço da Selecção, Manuel Peixoto está ao leme do Sonho Dourado e do Arco Irís, o restaurante que detém na zona do embarcadouro, local onde se apanha o barco para o Mussulo. Na cozinha de Manuel Peixoto os pratos tradicionais angolanos, como a muamba, o kalulu e a quisaka rivalizam com o popular Bife à Pantera Negra, apadrinhado por Eusébio, lendário jogador da Selecção portuguesa de futebol da década de 60. “Trata-se de um bife regado com um molho especial”, limita-se a descrever o mestre Peixoto, escusando-se a desvendar o que torna “especial”. Menos discreto fica quando revela o seu calcanhar de Aquiles: “Nunca fui grande especialista a bater o funge (uma espécie de puré de farinha de milho que acompanha a moamba)”. Mais tarde descobrimos porquê? Ângelo, um dos cozinheiros do Sonho Dourado garante que “é preciso ser mesmo angolano para fazer bem o funge”. A cozinha do Sonho Dourado é exposta aos olhos dos clientes, pelo que não é difícil confirmar a sentença de Ângelo. A velocidade e intuição que a farinha exige, de modo a misturar-se correctamente com a água quente, não é desafio para qualquer um.
Entre as iguarias angolanas, Manuel Peixoto frisa a qualidade dos pratos de peixe, que tiram partido da fertilidade do mar de Angola: “O marisco é óptimo, o cherne, a garoupa, o pungo (corvina preta) e, de uma forma geral, todos os peixes grandes são excelentes no mar angolano. Quanto mais fresco melhor, por isso tenho pescadores que trabalham para mim. O peixe e marisco são conservados vivos em viveiros no mar.” O resultado transforma um simples camarão cozido num petisco divino. A provar e comprovar...

Soba, o senhor do Mussulo

Manuel Domingos não conheceu em 70 anos outra morada que não o Mussulo. Foi eleito Soba pelos habitantes da península, respeitando a tradição ancestral de atribuir o cargo de governante da ilha ao supostamente mais sábio e sensato dos seus habitantes. Sobrinho do anterior Soba, Manuel Domingos foi empossado em 2004. O actual Soba explica que o cargo deve ser exercido “por uma pessoa de idade avançada, conhecedor da história do Mussulo e capaz de passar a palavra às gerações mais jovens”. História que tem que focar a economia da península: “O Mussulo sempre foi uma terra de pescadores, de pesca artesanal com redes e linhas. Isto no tempo quente, porque no tempo frio pesca-se ao anzol na praia, já que o mar fica muito bravo.” Manuel Domingos, que sempre foi pescador, franze a testa enquanto nos diz que teme que esta pesca artesanal desapareça e com ela, a quantidade de peixe, incapaz de saciar uma procura mais industrial.
O cargo de Soba não é político. Cumpre uma tradição, mas nem por isso se circunscreve a um desempenho meramente folclórico. Manuel Domingos especifica que no Mussulo há umas 200 casas e cerca de três mil habitantes, de quem se sente porta-voz. Com orgulho, o Soba conta que das suas funções faz parte a de moderador de conflitos: “Quando há problemas familiares ou entre vizinhos não faz falta chamar a polícia. Quem resolve é o Soba. Todos respeitam o Soba e o que ele diz é lei.” Com um sorriso malicioso, ressalva que “os casos amorosos são os mais complicados de resolver”. Adivinha-se que o sentido de humor é um dos seus argumentos. Só se esquece dele quando fala, preocupado, da poluição que começa a ameaçar as cores do Mussulo. “A beleza natural é o ponto forte do Mussulo, mas é preciso que os turistas que o visitam saibam respeitar a Natureza”, avisa.

miércoles, 10 de diciembre de 2008

Quando uma chinesa te oferece um pente...

Quatro degraus acima do meu, nas escadas rolantes do Metro das Olaias, seguia uma chinesa de cabelo muito escuro e escorrido como quase todas as chinesas. Penteava-se com um pente cor de rosa, aparentemente de plástico.
Olha para trás, sorri-me e com um gesto pergunta-me se quero usar o pente dela?
Também lhe agradeci com um sorriso e acenei que não era preciso.
Mais do que ser surreal alguém me oferecer um pente no Metro, é estranho ter sido uma chinesa.

Conheço pouquíssimo dos chineses. Não tentei conhecê-los melhor, nem eles a mim. Sempre me pareceram propositadamente distantes. Só me relacionei com chineses comercialmente, nas lojas dos chineses e nos restaurantes chineses.
A excepção aconteceu há quase um ano quando descobri no Saldanha uma lojinha de chineses diferente. Chama-se Janela de Pequim. Dela trouxe um bocadinho da China para a minha sala, onde está uma chinesa a tocar flauta. A figura desenha-se recortada em papel de arroz preto por alguém que faz jus à expressão "paciência chinesa" e também ao baixo custo da mão-de-obra na China. A acreditar (e eu acredito) que aquela obra foi recortada manualmente, o preço que paguei, 20 euros, foi baixo...
Na Janela de Pequim há pedacinhos da China como o que pendurei na parede da minha sala. O simpático dono, Yaoqun Zhu, quer mostrar que a China é mais do que aquilo que sabemos...

Entrevistei-o para um artigo que foi publicado no OJE:

A China em Lisboa

Pouco mais conhecemos da cultura chinesa do que o sabor do chop soi. Yaoqun Zhu está empenhado em elevar a fasquia através da loja que abriu em Lisboa. Na “Janela de Pequim” podemos usufruir de uma visita guiada pelas tradições, artesanato e história da China, aprender a desenhar e a decifrar a caligrafia chinesa e exercitar a paciência e o bom senso numa partida de “go game”, o tradicional jogo de estratégia chinês…


O estereótipo da loja chinesa não encaixa na “Janela de Pequim”. Percebemos isso logo que espreitamos o espaço que Yaoqun Zhu inaugurou no Verão passado, na zona do Saldanha, em Lisboa. Pintura à mão em tinta-da-china sobre papel de arroz, bijutaria feita em lacre vermelho, esculturas em porcelana e bronze, entre outras peças de artesanato aguçam a curiosidade de quem passa na Avenida 5 de Outubro. Mesmo sem falar bem português, Yaoqun Zhu disponibiliza-se prontamente para explicar a origem de cada uma das peças que criteriosamente seleccionou para vender na “Janela de Pequim”. O objectivo é dar a conhecer melhor a China, explica: “Penso que os ocidentais, de uma forma geral, conhecem pouco e mal a China. A ideia que se tem da China é muito redutora. Através da minha loja pretendo mostrar vários pedacinhos da China, das suas tradições e cultura”.
A “Janela de Pequim”, ou “Beijing Zhi Chuang”, é a primeira experiência comercial de Yaoqun Zhu. Nascido em Pequim, viveu e trabalhou nos EUA, no Canadá, na Austrália, na ex-URSS, para “aprender in loco como vivem os diferentes povos”. Foi professor na China e trabalhou em turismo, o que lhe permitiu conhecer muito bem as diferentes regiões chinesas e os respectivos produtos locais. Meio caminho andado para abrir uma loja que funciona como montra da cultura chinesa, conta: “Tenho muito orgulho na cultura chinesa, que remonta há cinco mil anos. Não há outra civilização que se mantenha há tanto tempo. Ainda detectamos raízes e influências do início da nossa civilização.” Yaoqun Zhu exemplifica, enquanto folheia o “I Ching”, ou livro das Mutações, uma publicação que tem um valor semelhante à Biblia para os católicos: “O I Ching tem cerca de três mil anos e continua a influenciar a vida das pessoas. Mesmo que a maior parte dos chineses não o leia, é influenciado por ele. Por exemplo, no que se refere ao equilíbrio, baseado no princípio da dualidade de Yin Yang, presente na forma como nos alimentamos ou nos vestimos.”
Além do “I Ching”, podemos encontrar na loja livros sobre gastronomia, caligrafia, bem como edições sobre os mais relevantes filósofos chineses, como Tsun Zu ou Confúcio.
Enquanto nos mostra algumas esculturas em bronze, Yaoqun Zhu vai falando da história da China: “O bronze era usado há 2200 anos para fazer armas e instrumentos úteis. Na época estava no poder a dinastia Qin, nome do imperador que mandou erguer a grande Muralha da China.” Mesmo ao lado das esculturas em bronze estão expostas peças em porcelana chinesa, representativas de “um dos períodos mais ricos da história da China, o da dinastia Tang (618-907)”.
Yaoqun Zhu prossegue a visita guiada, mostrando-nos os típicos chapéus-de-chuva chineses, com armação de bambu. Julga-se que os chineses já os usavam há 2000 anos. Na altura seriam feitos de seda, material mais tarde substituído pelo papel de óleo, derivado de uma árvore autóctone chinesa. Sabe-se também que os chapéus funcionavam como elemento social distintivo: os vermelhos e amarelos só podiam ser usados pela família real, restando ao povo usar os azuis.
Também antigo é o teatro de sombras chinesas, tido como um dos percursores do cinema. Apareceu durante a dinastia Han 206 aC - 220 dC. Na loja de Lisboa também é possível adquirir algumas destas figuras e depois experimentar articulá-las atrás de um lençol iluminado.
Outro passatempo muito popular na china é o jogo, sendo o “go game” um dos mais conhecidos. É jogado num tabuleiro, onde se movimentam pequenas peças brancas e pretas. “Trata-se de um jogo de estratégia muito bom para exercitar o raciocínio matemático, a paciência e o bom senso”, explica Yaoqun Zhu. O tradicional “go game” joga-se a dois, mas Yaoqun inventou e patenteou um jogo semelhante para quatro jogadores. “Joga-se num tabuleiro maior e é bem mais complicado”, diz, acrescentando que quem quiser iniciar-se no “go game” tradicional pode fazê-lo na “Janela de Pequim”. Yaoqun prontifica-se a ensinar as regras e assim angariar potenciais parceiros de jogo.
Além da iniciação ao “go game”, na “Janela de Pequim” também há cursos de caligrafia chinesa, outro “exercício de paciência e de concentração”, frisa Yaoqun. Aprender um pouco mais sobre a cultura chinesa é uma experiência garantida a quem visitar a “Janela de Pequim”, com a vantagem de que pode levar um pouco da China para casa, se comprar uma escultura, um painel feito de meticulosos recortes, peças em pano alusivas ao zodíaco chinês, entre outros artefactos manualmente “made in China”.


“Janela de Pequim”
Av. 5 de Outubro, nº 20, loja 6
1050 – 056 Lisboa
E-mail: janeladepequim@sapo.pt