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jueves, 13 de octubre de 2016

"Num beijo apertado de barco contra o cais"




Eu gosto de talent shows e nunca tinha dado a devida atenção às letras do Pedro Abrunhosa até assistir à interpretação que se segue e que está incluída na minha playlist no You Tube. Sublimes, os dois cantores!
(sem contar com o facto de ele parecer um retrato de Egon Schiele)






Eu não sei quem te perdeu
Pedro Abrunhosa




Quando veio, mostrou-me as mãos vazias
As mãos como os meus dias
Tão leves e banais
E pediu-me que lhe levasse o medo
Eu disse-lhe um segredo
Não partas nunca mais
E dançou
Rodou no chão molhado
Num beijo apertado
De barco contra o cais
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
Abraçou-me
Como se abraça o tempo
A vida num momento
Em gestos nunca iguais
E parou
Cantou contra o meu peito
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais
E partiu
Sem me dizer o nome
Levando-me o perfume
De tantas noites mais
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
E eu não sei quem te perdeu












miércoles, 1 de abril de 2015

O trompete

Gostei deles desde a primeira vez que os ouvi, na Radar. Os Beirut, dos EUA, agarraram-me pelo trompete do Zach Condon, que também toca cavaquinho e fala português.
E agora dou-me conta que os meus ouvidos transmitem ao cérebro coisas boas, sempre que descubro o som do trompete numa música...

martes, 23 de septiembre de 2014

Vj on the blog!

Quando: não se tem quase nada para dizer/ não se tem tempo/deixamos a preguiça ganhar, transformamo-nos em VJ!
E cantar isto ou qualquer coisa parecida (a conduzir, em dia de chuva e sem passageiros)!...

A letra que a Kate tenta esconder:
Out on the winding, windy moors
We'd roll and fall in green
You had a temper, like my jealousy
Too hot, too greedy
How could you leave me?
When I needed to possess you?
I hated you, I loved you too

Bad dreams in the night
They told me I was going to lose the fight
Leave behind my wuthering, wuthering
Wuthering Heights

(Chorus x2) Heathcliff, it's me, Cathy, I've come home
I'm so cold, let me in-a-your window

Ooh it gets dark, it gets lonely
On the other side from you
I pine a lot, I find the lot
 

jueves, 28 de noviembre de 2013

A minha constelação

A TSF juntou-as esta semana! Eu achei bem e junto-as também, assim, na forma de poema dos inspirados Jorge Palma e Fernando Tordo! A segunda até é repetente por aqui. Apetites!

Estrela do Mar
Jorge Palma
Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
E em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia sozinho ao relento
E ali longe do tempo acabei por dormir

Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar

Sou a estrela do mar
Só ele obedeço, só ele me conhece
Só ele sabe quem sou no principio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim

Não se era maior o desejo ou o espanto
Mas sei que por instantes deixei de pensar
Uma chama invisível incendiou-me o peito
Qualquer coisa impossível fez-me acreditar

Em silêncio trocámos segredos e abraços
Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
Mas mil anos são poucos ou nada para a estrela do mar

Estrela da Tarde
Carlos do Carmo
Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia. (Refrão)
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

(Refrão)

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!

jueves, 31 de enero de 2013

A suspirar por Paris e pelo Hemingway de Corey Stoll

"Meia-noite em Paris", do Woody Allen.
Vi-o no passado fim-de-semana e encantei-me! Surprendentemente, porque embirro com o Owen Wilson (actor principal).
No entanto, adorei a mistura da viagem às duas épocas em que Paris foi a cidade mais criativa do mundo com as anotações sobre o dilema de quem sente que nasceu tarde demais.
Sentimento de identificação - inevitável.

"Let's do it, let's fall in love"

E agora ando a consumir Cole Porter em doses jeitosas!

martes, 2 de octubre de 2012

Pedro Barroso, "na rua livre de um palco, entre canções"

"... seremos quase mil cantando pela Liberdade, em nome da memória e do futuro", promete Pedro Barroso na sua página no Facebook
Uns dias antes garantia: "Dia 2 quero fazer do palco uma pátria diferente. Que pelo mundo do sonho se distinga voe e saiba diferir do cinzento dos dias tristes. Quero q comigo sejam conjurados de um outro sentir, outro saber; o sitio onde o Douro encontra o Tejo e juntos arrasam todos os medíocres q nos controlam o prazer e a alegria.
Como detesto esta gente pintada de séria e corrupta até à raiz dos cabelos. Como me bast...ei de misérias impostas e roubos declarados.
Estarei como um povo inteiro, na rua; só q isso será na rua livre de um palco, entre canções. Mas o meu discurso embora poético, apela a tudo o que de positivo é possivel fazer e rejeita a submissão dos dias ao jugo germânico da esmola como moeda de exigência.
Temos mil anos de historia. Que raio! Nao podemos temer o futuro. Só há que saber dizer isto bem alto, sem medo de amanhã. Porque o futuro só meterá medo precisamente se não o dissermos.
Quero que todos no fim do Concerto sintam e digam: valeu a pena
E que sintam que é possivel mudar as coisas porque viver tem de ser mais que isto q nos estão a obrigar. E a memória que vos trago traz um futuro iminente de acontecer.
Que todos saiamos do Rivoli de portas abertas e vontade expressa.
Conto convosco. É tempo de agir."

E antes ainda, comentava: "Em relação ao 2 Out no Porto, acho sinceramente q a publicidade entre amigos é a q mais desejo e a q mais resulta. Quero ter a casa cheia de amigos cumplices e solidarios, bem precisamos todos dessa alma colectiva!"

Esta noite queria estar no Rivoli com este "trovador", que tão bem escreve para cantar.

Assim:

"Excesso"

Há amores estranhos fundos sem razão


- são secretos vivem na cumplicidade

indizíveis nas palavras que aqui vão

são impróprios de viver em liberdade

levaram a ternura ao exagero

e a um excesso saboroso a nossa pele

só compreende quem sente o latejar

bem mais dentro que os olhos do olhar,

há amores que não posso aqui explicar

pois quer queiram quer não inda vivemos

na pré-História de um Futuro de cem mil anos

nas grutas de um sentir que não sabemos



há uma palavra escandalosa e proibida

quando se fecha a porta e começa a fantasia

e me sento no sofá e desligo-me da vida

e fico Senhor completo do teu corpo

e o código começou e tu me ofereces

o máximo que alguém nos pode dar

e a guerra não tem hoje nem tabus

são duas vontades grandes que ali estão

e mais que as mãos e a boca e o Futuro

e o vício de dois corpos seminus

amarro em ti a vida que me escapa

e acordas-me explicando o mundo todo

e cedo a esta raiva que me mata



e sinto em ti Mulher, Mulher de mais

e houvesse aqui, agora, já, um altar

e eu casava-me contigo poro a poro,

casava-me contigo em todos os rituais

se é que não estou exactamente assim casando

o ontem com o presente e o infinito

e a cada jogo beijo salto ou grito

pressinto o chão fugir e o mundo longe

e há um abuso consentido que não peço

e tu olhas-me plácida e tremente raiva e calma

e a tormenta desabrocha e sai de nós

pela porta escancarada do excesso    

"Viriato"

Trago comigo uma guitarra para a viagem

na minha voz esta canção antiga

tenho nos olhos mais do que a paisagem

a memória e o sal da gente amiga

não feneceu ainda em mim o velho sonho

trago na ideia uma razão e um sentido

que eu tenho o mar, o fundo mar, por testemunha

e a esse mar que em mim navega tudo é devido

e há qualquer coisa em tudo isto

que eu não posso ou sei esconder

e que faz com que vos cante esta canção

é uma história um gesto antigo

que eu nem sei como dizer

Viriato tem mil anos de razão

É do verde e fresco Minho que eu vos falo

e dessa calma alentejana que nos cala

e é em casa junto ao rio Tejo que me embalo

e é em Sagres que essa história mais nos fala

lá nas Atlântidas perdidas de um sonho

ou num velho cacilheiro que nos leva

e há nas ancas das varinas no Porto, na ribeira,

todo um mundo que nos lembra e que celebra

e há qualquer coisa em tudo isto

que eu não posso ou sei esconder

e que faz com que vos cante esta canção

é uma história um gesto antigo

que eu nem sei como dizer

Viriato tem mil anos de razão

lunes, 17 de septiembre de 2012

Cohen

 "I know what you look like in the morning" é um muito prometedor primeiro verso.
(Faz de conta que eu fui ao Lux verificar se filho - Adam Cohen - de Peixe - Leonard - sabe nadar! Parece-me que sim. E parece-me também que o Cohen filho está a garantir a continuidade do emprego ao coro do pai...)

martes, 7 de agosto de 2012

As vozes e a música delas


A Márcia (a nossa Carla Bruni - sim, eu gosto da Bruni cantora - numa canção perfeita com o JP Simões, cuja música também admiro).


A Luísa Sobral (already there!).

A Ana Moura (num fado com letra bem sacada da Amélia Muge, cujo nome me faz sempre sorrir, ao recordar do cartaz que, algures nos 90’s, anunciava a digressão: Amélia Muge “Todos os dias”).

lunes, 6 de agosto de 2012

A minha outra mexicana preferida

Chega a ser desonesto para com a Chavela Vargas colocar este vídeo hoje, depois da senhora se finar, mas mais desonesto seria (para comigo) não o fazer... Raça de Voz!
... de interpretação! ... de letras! ... de cordas!
Se fosse portuguesa, seria fadista!
(Seria inevitável reparar na Chavela, mas agradeço ao Almodóvar por abreviar o inevitável.)

lunes, 2 de enero de 2012

"Com você sou fã da vida"

Há mil assuntos (meia dúzia, vá) sobre os quais me lembro de escrever, porém falha-me o gravador de pensamentos e na altura em que me disponho a abrir a "nova mensagem" fico sem assunto...

Vai daí, rsta-me informar que sou cada vez mais fã das musiquinhas brasucas, assim " meio caipira", de rima caseirinha:




E o talento que esta gente tem para escolher nomes artísticos! :)

lunes, 15 de agosto de 2011

Coisas só aparentemente simples




Companheiro - Maria Eugênia
Vai amigo
Não há perigo que hoje possa assustar
Não se iluda
Que nada muda se você não mudar

Ponha alguma coisa na sacola
Não esqueça a viola
Mas esqueça o que puder
E cante que é bom viver..

Rasgue as coisas velhas da lembrança
Seja um pouco de criança
Faça tudo o que quiser
E cante que é bom viver...

lunes, 21 de febrero de 2011

Geração "à espera do comboio na paragem do autocarro" *

Eu comecei por não achar piada aos Deolinda, até que me gravaram o primeiro CD do grupo e mudei de ideias: letras bem humoradas, que induzem, que sugerem, que criticam e música agradável q.b..

Não vejo razão para endeusar nem para crucificar a banda, à pala do tema "Que parva que eu sou", que quanto a mim critica tanto a passividade dos jovens como o sistema que os adormeceu, pelo que para usarem a música como hino queixa, estes jovens têm que enfiar a carapuça primeiro...

Seja como for, dá-lhes jeito (aos Deolinda) toda esta histeria...

* verso de Sérgio Godinho, numa música, cujo nome não me lembro agora e estou com preguiça de googlar... Mas também poderia ser outro verso do Godinho: geração "descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo"...

Adenda: A música chama-se "Lá em baixo" e merece citação completa, porque quem de nós nunca "andou desencontrado como à espera do comboio na paragem do autocarro"?

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente

E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão tarde
há quem cresça no escuro
e do dia se resguarde
há quem corra sem ter braços
para os braços que os aceitam
e seus braços juntos crescem
e entrelaçados se deitam
e a manhã traz outros braços
também juntos de outra forma
de quem luta e ao lutar
a si mesmo se transforma


E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta

vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado
vale bem quem ele sonha
lá em baixo, até já disse
que é que tem a ver comigo
e no entanto sobressalto
se me batem ao postigo
E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda anda gente
e uma cara desconhecida
vai abrindo no escuro
uma luz como uma ferida
como a luz que corre atrás
da corrida de um cometa
e vejo vales e valados
no sopé duma valeta
lá em baixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai ateando noite fora
um incêndio na avenida
És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

miércoles, 12 de enero de 2011

"Assim cuidado faz-se o sonho e fermentado" *

* Verso de Carlos Paião, incluído na provavelmente melhor letra que já concorreu por Portugal à Eurovisão: "Vinho do Porto"

Isto de eu gostar de vinho e do mundo do vinho foi coisa que foi educada.
E poderia ter dado para o torto: é que o primeiro vinho que provavelmente bebi era temperado pelo tristemente célebre Rio Leça. Fazia-o o meu avô a partir das uvas que cresciam nas margens do Leça e das melhorzinhas, que amadureciam no quintal, um quilómetro acima.
Era consensualmente considerado mauzito!
A coisa ameaçava piorar com o carrascão das tascas da Covilhã, mas eis que surge "Fora d'Horas" (aquele bar, o BAR, a minha morada noctívaga na Covilhã)! Comecei a casar vinho com conversa, conversa da boa, com gente com quem apetece conversar, e mais uns petiscos à mistura!
Mais indirectamente, fui gravando como o meu pai orgulhosamente montava a "adega", com mais um exemplar daqueles que era para beber "em momentos especiais", com a certeza de que aconteciam mesmo, porque as garrafas vão-se bebendo mesmo! No topo a Colares de 1974, em minha homenagem! Nem sequer é a mais cara, não será a melhor da colecção, mas é a mais especial para nós os dois!

O vinho continua a ser cúmplice de horas bem passadas à mesa, ou ao balcão, testemunha de muito paleio e tornou-se também tema de trabalho, mensalmente: um mundo que descubro com acrescentado prazer. Um mundo que já mexia há mais de seis mil anos: foram descobertos na Arménia vestígios de uma adega que o prova!

A propósito de educação no que toca a vinho, republico um artigo que escrevi para a revista Actualidade há perto de um ano. E se puderem, comprem o livro do professor Hipólito Pires!

Beba vinho, pela sua saúde

O conselho é de C. Hipólito-Reis, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Argumentos? Sabe-se que o vinho ajuda a retardar a aterosclerose e o envelhecimento, actua na prevenção da doença de Alzheimer e do cancro, entre outros benefícios. O autor do livro “Vinho, Gastronomia e Saúde” contraria cientificamente mitos falsos construídos pela falta de informação e defende uma educação mais rigorosa no que concerne ao consumo do vinho

“Na região onde nasci, as ramadas bordejavam os campos de milho. O pão e o vinho sempre se acompanharam bem.” Com esta imagem, C. Hipólito-Reis ilustra o que aprendeu empiricamente e depois confirmou nos estudos bibliográficos e de laboratório. No de Bioquímica, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde trabalha, nos de outros investigadores e através das comunicações que leu à medida que se foi interessando pelo papel do vinho na alimentação e, consequentemente, na saúde. Foi deste seu interesse que já nasceu o livro “Vinho, Gastronomia e Saúde”, publicado em 2008. Uma obra que pretende desmitificar várias afirmações erradas sobre o consumo de vinho, explicando quais os seus benefícios para a saúde.
Antes de mais, C. Hipólito-Reis ressalva que “as possibilidades dos benefícios das bebidas alcoólicas, no seu bom aproveitamento, correm em paralelo com as dos malefícios do seu mau uso”. À semelhança de outros alimentos, como os açucarados ou os gordos, o vinho e outras bebidas alcoólicas devem ser consumidos segundo normas que estão bem estabelecidas, e sempre com moderação. “O problema que se coloca é, neste aspecto, como em todos os outros do comportamento humano, o da necessidade da educação”, advoga o investigador: “O consumo de vinho tem uma repercussão imensa na economia da saúde e da alimentação em geral. Estamos a educar mal as pessoas, quando tentamos afastá-las do uso do vinho. Ao apresentarmos as bebidas alcoólicas como tabu, desafia-se o ser humano, particularmente os jovens, para a sua descoberta. O álcool transforma-se no “fruto proibido”, o que desperta o desejo que induz um consumo desequilibrado.” Por outro lado, “devido às campanhas contra o vinho (nem sempre contra as outras bebidas alcoólicas), o seu consumo tem diminuído, mas o uso de drogas tem aumentado, pelo que não se podem ler os resultados dessas campanhas como sendo globalmente positivos”.
Se o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é nocivo, também não é aconselhável a sua total ausência na alimentação. C. Hipólito-Reis frisa que “muitas vezes o higienismo excessivo gera pessoas mais compulsivas” e recorda que o vinho e outras bebidas alcoólicas integram há séculos a dieta humana. Estrabão, o famoso geógrafo e filósofo grego, falava já do consumo de cerveja e de vinho por parte dos lusitanos, sendo este, mais difícil de obter, particularmente utilizado nas festas.
Ao longo do tempo foi-se estruturando o conhecimento empírico de que o vinho é positivo para a saúde, comenta o professor: “Antigamente as viagens marítimas entre os continentes eram muito difíceis e nelas morriam muitas pessoas. A certa altura, concluiu-se que havia menos mortes nos barcos onde se consumia vinho. Isto deve-se às propriedades anti-sépticas e terapêuticas do vinho. Quando a Inglaterra quis colonizar a Austrália, no início do século XIX, para lá enviou ex-reclusos e médicos (reclusos), que levaram vinho a bordo. A primeira expedição, já preparada em todos os outros aspectos, teve mesmo que esperar por este abastecimento. Esses médicos, chegados à Austrália, trataram de plantar videiras. Algumas das adegas estão ainda hoje na mão dos seus descendentes.”
Nos EUA, também nos fins do século XVIII / princípios do século XIX, terá sido Thomas Jefferson, o terceiro presidente do país, o responsável pelo fomento da vinicultura, conta: “para produzir vinho, pelas suas reais qualidades e numa tentativa de reduzir o consumo de rum e de whisky e assim controlar o uso de bebidas perigosas. Hoje, a Austrália e Califórnia são das regiões tecnologicamente mais avançadas do mundo no que diz respeito à enologia.”
Já no século XX, depois da segunda guerra mundial, a Grécia pediu a investigadores norte-americanos que estudassem os hábitos alimentares do seu povo para melhorar a saúde. Paradoxalmente, em 1952, Ancel e Margaret Key concluíram ser excelente a dieta mediterrânica, de que o vinho faz parte. Em 1974, Klatsky e colaboradores referiram, com surpresa geral, na prestigiada revista médica Annals of Internal Medicine que o consumo das bebidas alcoólicas previne o enfarte do miocárdio. Da mesma forma, em 1991, no programa da CBS “60 minutes”, falou-se do paradoxo francês, detectado por Serge Renault, assinala C. Hipólito-Reis: “Os franceses consumiam muitas gorduras ditas saturadas, de origem animal, e apresentavam uma baixa percentagem de aterosclerose, sendo o efeito atribuído à bebida regular de vinho.”
O professor explica que “o uso do vinho gera um efeito positivo, na medida em que retarda a aterosclerose, ou seja, a formação de ateromas, que decorrem nas paredes arteriais pela acumulação de colesterol e de outras substâncias, e acontecem como um despertar inflamatório que mobiliza os mecanismos imunológicos”. Sabe-se que “as populações que consomem vinho têm uma maior longevidade e uma menor ocorrência de aterosclerose”. Isso “acontece com as bebidas alcoólicas em geral, mas sobretudo com o vinho”, acrescenta.
O professor destaca ainda que “em 1979, se lia na reputada revista de medicina Lancet que as bebidas alcoólicas, em geral, apresentavam benefícios para a saúde”.
Todos estes casos que ao longo do tempo mereceram um olhar mais atento por parte de médicos e de investigadores estão tratados no livro de C. Hipólito-Reis, na medida em que “abriram várias possibilidades de investigação, contrariando uma ciência puritana que a partir do sueco Magnus Huss, no início do século XIX não só negava qualquer benefício ao álcool, mas considerava-o mesmo como o culpado de muitos males da civilização”. O autor, licenciado em Medicina e Cirurgia, é professor de Bioquímica jubilado, da Faculdade de Medicina do Porto, e reconhece que durante muito tempo se fecharam os olhos às mudanças sociológicas que acompanharam o consumo das bebidas alcoólicas, o que tem permitido a construção de muitas falsas teorias que sobre elas fazem cair um ónus indevido.
O professor continua a estudar as inter-relações do vinho, da gastronomia e da saúde, e esclarece que o vinho é um produto muito complexo: “Estão encontradas centenas de substâncias que o compõem. Além do etanol (álcool), possui uma grande quantidade de polifenóis, designadamente de flavonóides e taninos, bem como de ácidos orgânicos.” As propriedades antisépticas de algumas destas substâncias são particularmente conhecidas. Estas e outras substâncias intervêm na prevenção e cura de vários processos patológicos (ver caixa). Entre os problemas em análise está o do cancro da mama. “Sabe-se que há flavonóides que ajudam a equilibrar a formação das hormonas implicadas no crescimento dos tumores”, exemplifica o professor, precisando que os flavonóides são polifenóis (fenol é um derivado hidroxilado do benzeno) e como tal têm propriedades antioxidantes, permitindo retardar o envelhecimento. Da mesma forma, os polifenóis são usados na prevenção e no tratamento de cancro e de múltiplas outras patologias, designadamente vasculares e prostáticas.
Por sua vez, os ácidos orgânicos intervêm no início da digestão, permitindo manter o pH do estômago favorecedor da actividade das enzimas digestivas.

Branco ou tinto?
A presença maior ou menor das diferentes substâncias do vinho ajuda a eleger o mais adequado a cada prato. O que nos remete para outro falso mito relativo ao vinho, segundo o qual o tinto faz bem e o branco faz mal. Certo é que a utilização de um ou de outro está já protocolada nos textos hipocráticos escritos a partir do século IV antes da nossa era… C. Hipólito-Reis clarifica que ambos geram benefícios: “Os corantes do vinho tinto são polifenóis, com maior influência, por exemplo, no combate à aterosclerose. Já os brancos são mais diuréticos, podendo ter um efeito positivo ao nível renal. Os rosados são excelentes vinhos de merenda ou aperitivos. Os verdes possuem uma maior acidez, o que os torna benéficos na digestão de alguns pratos, nomeadamente os minhotos. A inglesa Joanna Simon soube dizer que em Portugal não há problemas com a escolha do vinho: - para comida local, vinho local. O vinho deve equilibrar a refeição, e, em Portugal, cada região gastronómica têm o seu vinho, que empiricamente realiza o equilíbrio desejado.”

viernes, 19 de noviembre de 2010

Caricias que parecen mariposas...

Faz tudo bem!
Elogia-lhe a pele sedosa, enquanto a percorres com os dedos
Não negligencies o olhar, pousa-o demoradamente no dela, sem falar
Sente-lhe o perfume e a textura do cabelo
Beija-lhe a nuca nua num sussurro
Ela obedece-te a partir daí, fingindo que nem desconfia que tudo nela é uma ordem

jueves, 14 de octubre de 2010

"E tu bem sabes como o tempo foge"

Viajar tem pouco que ver com carimbos no passaporte e muito mais com experiências, no Intendente, ou em qualquer outra morada.
E há um "bilhete de viagem" que entalei na prateleira durante dois anos. Chama-se "África Acima" e foi escrito pelo Gonçalo Cadilhe, que viajou de facto por ela acima. Resgatei-o na segunda-feira, para "dar um tempo" a outro livro que não me anda a entusiasmar... Durante dois inícios de noite andei por África. E sei que os meus dois últimos anos teriam sido diferentes se tivesse dado "uso ao bilhete" mal o comprei. E já o sabia quando o comprei.

Uma das partes do livro, que só por si justifica a viagem:

"O Lubango diz-nos respeito, e ainda vamos a tempo de o preservar para a memória futura de Portugal. Lubango devia candidatar-se a Património Mundial da Unesco e Portugal devia tomar como missão, como desígnio nacional, esta candidatura. Portugal devia oferecer-se a Angola para fazer desta cidade um monumento único no género no mundo: recuperando-a, investindo nela, ajudando-a a reencontrar um sentido, uma razão de ser... Um patético "arranha-céus" está a ser projectado no centro... Se for para a frente, a integridade do Lubango será estilhaçada e a cidade nunca será património da Unesco... Hoje em dia não existe nada mais progressista do que a preservação das próprias raízes."
(Isto a propósito de uma cidade que congelou na arquitectura do Estado Novo - que eu classifico de equilibrada -, coisa que não aconteceu em mais nenhuma cidade made in ou made by Portugal)

Vou roubar ao Gonçalo (o "meu") uma foto do Lubango :)
Quando voltar a Angola (que vou voltar) irei verificar se o tal arranha-céus está lá para impugnar a sugestão do Gonçalo (o Cadilhe). E fotografo eu o Lubango. Prometido.

martes, 10 de agosto de 2010

Mesmo sem coreto...

Não me certifiquei, mas os ponteiros do relógio da recentemente restaurada Torre, que nos abre a porta para a folia nocturna das noites de Verão na Rua Direita, deveriam andar perto das 4 horas... e também não me certifiquei, mas qualquer termómetro que por ali andasse deveria marcar um valor não muito longe dos 40 graus, mesmo à sombra de todos os guarda-sóis de serviço na praça de Caminha. Estavam quase todas as mesas ocupadas, o que é frequente nas tardes soalheiras. Menos normal era que todas as cadeiras se voltassem para o mesmo lado, o do palco onde tocava a Sociedade Musical Banda Lanhelense.
E que bem nos soube escutar o que se esperava de uma banda quando chegámos... Desse repertório, mais convencional, já não tivemos tempo de ouvir muito... Logo fizeram um pequeno intervalo para trocar a folha de pauta, descolar a camisa das costas e sossegar a garganta, que a sede só poderia ser muita... E começa um novo bloco: um medley de Xutos e Pontapés que põe muitos a bater o pezinho e outros, mais aventureiros, a tentar cantarolar os temas. Terminou da melhor maneira, com a minha preferida dos Xutos: Contentores...
Reportório inteligente para seduzir novos fãs e provavelmente novos músicos, como que a dizer que as bandas já não são o que eram porque "o passado foi lá trás"!

PS: O concerto integra a programação das Festas de Caminha! Mais uma bela ideia esta de pôr a banda a tocar, assim, ao ar livre, na praça, como se lá houvesse um coreto...

martes, 18 de mayo de 2010

But Curtis lost control

O trânsito é lento em Lisboa e o meu egoísmo agradece! Numa fila, um carro esteve parado e perto de mim o suficiente para me deixar ouvir um bocadinho da minha música preferida dos Joy Division... Neste teledisco fantástico está inteirinha :)

martes, 13 de abril de 2010

esquecer-me de mim

Ver o estado físico dos arrumadores de carros foi a mais eficaz campanha de sensibilização contra o consumo de heroína.
Foi mais ou menos isso que disse a Lena D'Água numa entrevista ao Carlos Vaz Marques, na TSF...

Uma entrevista que acabou assim:

miércoles, 31 de marzo de 2010

Viver é mais que preciso

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Fernando Pessoa

e ainda outro poema...