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miércoles, 7 de octubre de 2009

Conversas improváveis IV

Pensa ele:
- Não estás para ninguém? Ou é mesmo só para mim que não estás?
Foi quando que decidiste intervir dessa forma na minha vida?
Foi quando que me incapacitaste de discernir?
Foi quando que arrendaste um lugar cativo dentro de mim, mesmo antes de eu te saber alojar?
Poderias, pelo menos, ter-me deixado negociar.
Sabes que a negociar, eu vou embalando o tempo...
o meu tempo e o nosso tempo...
Queria ser Eu outra vez.
Cansa-me adormercer contigo e não te encontrar e depois acordar de novo contigo, ainda sem te encontrar...
E andas sempre por aqui, bem perto
Rodeias-me como o faria um deserto
Esticas-me o horizonte até me turvares o olhar...
Talvez seja já tarde para te dizer quase tudo.

martes, 6 de octubre de 2009

Conversas improváveis III

Diz ela: -Não posso usar a ingenuidade como alibi, porque eu percebi cedo demais que sabias ser cruel... Voluntariamente ou não. Pouco importa até se estás consciente disso. Vais coleccionando vítimas. Sabes cativá-las e mantê-las cativas e amordaçadas, incapazes de te denunciar ou de te resgatar dessa euforia que alugas para permaneceres anestesiado.
Não serás nunca capaz de lutar pelo que queres apenas porque desconheces o que é querer de verdade e tens medo, muito medo de descobrir. Não te sintas culpado, porque não é dessa forma que te curas, nem é dessa forma que alivias a dor.
Sabemos os dois que não havia, nem poderia haver margem para enganos. O equívoco é uma projecção eufemística da bondade.

jueves, 24 de septiembre de 2009

Conversas improváveis II

Pensa ela:
Estou mais madura e mais bonita...
Estamos de acordo quanto a isto, não estamos?
Então porque te esqueces continuamente de mo recordar?
... Eu alertei-te! Disse-te logo que queria ser tratada como uma princesa. E isso era para sempre, não era só até fazeres de mim a tua rainha...
De pouco me servem a coroa e as vénias mais ou menos calibradas que me fazes, animado pelo hábito.
Prefiro que me faças a corte, do que ter por garantido o trono.
Um dia destes distrais-te e ainda me dás um beijo na bochecha, ou pior, encostas-me só a tua.
Esqueces-te de que tenho boca e adormeces-lhe a vontade de encontrar a tua!
E conta que nunca te direi nada disto. Conto que o adivinhes.

martes, 22 de septiembre de 2009

Conversas improváveis I

Ele não respondeu, mas pensou. Habituara-se às palavras mudas, julgava-se capaz de comunicar dessa forma, considerava um despropósito verbalizar o que a inquestionável intuição feminina poderia decifrar. Recusava-se a baixar a fasquia.
Gostava de disciplinar as ideias, de as alinhar como quem se prepara para a barra de um tribunal. Argumentava fortemente consigo próprio, para não ousar vacilar e travar qualquer vertigem que se pusesse a caminho, a galope da vontade.

lunes, 21 de septiembre de 2009

Conversas improváveis I

Ela diz-lhe:
- Sinto-me na corda bamba e desconfio que me desiquilibro só porque sei que estou a caminhar sem rede. Sabes? Temo inflamar o atrevimento e rejeito a toda a hora a injecção de coragem com que a tua presença me ameaça. Sabes? É como se a sanidade me aleijasse as dúvidas em que me embalo.

lunes, 30 de marzo de 2009

Benfica

Verde. Verde por todo o lado.
Quase todos os verdes do mundo parecem ter marcado encontro por ali, àquela hora.
Escuta-se a água a cavar carreiros encosta abaixo e os pássaros que não identifico palrando indiferentes a mim.
Acordar assim deixa-me tonta... tanta pureza, tanta Natureza desordena-me o pensamento, como se tivesse bebido um balde de café.
Mesmo sem intenção, mesmo sem obedecer à ordem cerebral, começo a inspirar mais profundamente e dou-me conta disso e fico ainda mais tonta.
Como se perdesse o controlo... Tanta Natureza obriga-me a readaptar as minhas rotinas, mesmo as que não considero rotinas, e a questioná-las... a agir muito mais do que a pensar e eu sempre achei que preferia ao contrário, mas talvez assim seja mais libertador, mais compensador...

Fico desconfortavelmente comovida com o Benfica... persegue-me para todo o lado, pára quando paro e mira-me nos olhos, vence depressa a minha antipatia pelo nome que lhe deram, mendiga a minha companhia e agradece com um vagaroso movimento de pálpebras, se lhe afago o pêlo...
Conhecemo-nos há minutos e já somos cúmplices... Ele desconfia que não costumo estar muito à vontade com os da espécie dele, mas suspeita que eu não saberia resistir à meiguice de quem me segue sem se impor, de quem parece estar pronto a acompanhar-me só porque gosta de estar comigo...
Contaram-me a história deste Benfica: o dono, com quem dividia a casa, adoeceu de velhice e foi-se embora da aldeia. Foi para casa dos filhos em Lisboa e o Benfica não foi convidado... Ficou a guardar a casa na Malhada e vai comendo o que os poucos habitantes que como ele permanecem na aldeia lhe oferecem.
Parece triste o Benfica, ou sou eu que fico triste quando olho para ele. A Natureza já não o deixa tonto como me deixa a mim e parece importar-se pouco por estar rodeado de quase todos os verdes do mundo... Resiste numa aldeia camuflada pelo esquecimento dos que lá nasceram, dos que lá viveram e principalmente dos que, como eu, nunca a perceberam.

miércoles, 10 de diciembre de 2008

Quando uma chinesa te oferece um pente...

Quatro degraus acima do meu, nas escadas rolantes do Metro das Olaias, seguia uma chinesa de cabelo muito escuro e escorrido como quase todas as chinesas. Penteava-se com um pente cor de rosa, aparentemente de plástico.
Olha para trás, sorri-me e com um gesto pergunta-me se quero usar o pente dela?
Também lhe agradeci com um sorriso e acenei que não era preciso.
Mais do que ser surreal alguém me oferecer um pente no Metro, é estranho ter sido uma chinesa.

Conheço pouquíssimo dos chineses. Não tentei conhecê-los melhor, nem eles a mim. Sempre me pareceram propositadamente distantes. Só me relacionei com chineses comercialmente, nas lojas dos chineses e nos restaurantes chineses.
A excepção aconteceu há quase um ano quando descobri no Saldanha uma lojinha de chineses diferente. Chama-se Janela de Pequim. Dela trouxe um bocadinho da China para a minha sala, onde está uma chinesa a tocar flauta. A figura desenha-se recortada em papel de arroz preto por alguém que faz jus à expressão "paciência chinesa" e também ao baixo custo da mão-de-obra na China. A acreditar (e eu acredito) que aquela obra foi recortada manualmente, o preço que paguei, 20 euros, foi baixo...
Na Janela de Pequim há pedacinhos da China como o que pendurei na parede da minha sala. O simpático dono, Yaoqun Zhu, quer mostrar que a China é mais do que aquilo que sabemos...

Entrevistei-o para um artigo que foi publicado no OJE:

A China em Lisboa

Pouco mais conhecemos da cultura chinesa do que o sabor do chop soi. Yaoqun Zhu está empenhado em elevar a fasquia através da loja que abriu em Lisboa. Na “Janela de Pequim” podemos usufruir de uma visita guiada pelas tradições, artesanato e história da China, aprender a desenhar e a decifrar a caligrafia chinesa e exercitar a paciência e o bom senso numa partida de “go game”, o tradicional jogo de estratégia chinês…


O estereótipo da loja chinesa não encaixa na “Janela de Pequim”. Percebemos isso logo que espreitamos o espaço que Yaoqun Zhu inaugurou no Verão passado, na zona do Saldanha, em Lisboa. Pintura à mão em tinta-da-china sobre papel de arroz, bijutaria feita em lacre vermelho, esculturas em porcelana e bronze, entre outras peças de artesanato aguçam a curiosidade de quem passa na Avenida 5 de Outubro. Mesmo sem falar bem português, Yaoqun Zhu disponibiliza-se prontamente para explicar a origem de cada uma das peças que criteriosamente seleccionou para vender na “Janela de Pequim”. O objectivo é dar a conhecer melhor a China, explica: “Penso que os ocidentais, de uma forma geral, conhecem pouco e mal a China. A ideia que se tem da China é muito redutora. Através da minha loja pretendo mostrar vários pedacinhos da China, das suas tradições e cultura”.
A “Janela de Pequim”, ou “Beijing Zhi Chuang”, é a primeira experiência comercial de Yaoqun Zhu. Nascido em Pequim, viveu e trabalhou nos EUA, no Canadá, na Austrália, na ex-URSS, para “aprender in loco como vivem os diferentes povos”. Foi professor na China e trabalhou em turismo, o que lhe permitiu conhecer muito bem as diferentes regiões chinesas e os respectivos produtos locais. Meio caminho andado para abrir uma loja que funciona como montra da cultura chinesa, conta: “Tenho muito orgulho na cultura chinesa, que remonta há cinco mil anos. Não há outra civilização que se mantenha há tanto tempo. Ainda detectamos raízes e influências do início da nossa civilização.” Yaoqun Zhu exemplifica, enquanto folheia o “I Ching”, ou livro das Mutações, uma publicação que tem um valor semelhante à Biblia para os católicos: “O I Ching tem cerca de três mil anos e continua a influenciar a vida das pessoas. Mesmo que a maior parte dos chineses não o leia, é influenciado por ele. Por exemplo, no que se refere ao equilíbrio, baseado no princípio da dualidade de Yin Yang, presente na forma como nos alimentamos ou nos vestimos.”
Além do “I Ching”, podemos encontrar na loja livros sobre gastronomia, caligrafia, bem como edições sobre os mais relevantes filósofos chineses, como Tsun Zu ou Confúcio.
Enquanto nos mostra algumas esculturas em bronze, Yaoqun Zhu vai falando da história da China: “O bronze era usado há 2200 anos para fazer armas e instrumentos úteis. Na época estava no poder a dinastia Qin, nome do imperador que mandou erguer a grande Muralha da China.” Mesmo ao lado das esculturas em bronze estão expostas peças em porcelana chinesa, representativas de “um dos períodos mais ricos da história da China, o da dinastia Tang (618-907)”.
Yaoqun Zhu prossegue a visita guiada, mostrando-nos os típicos chapéus-de-chuva chineses, com armação de bambu. Julga-se que os chineses já os usavam há 2000 anos. Na altura seriam feitos de seda, material mais tarde substituído pelo papel de óleo, derivado de uma árvore autóctone chinesa. Sabe-se também que os chapéus funcionavam como elemento social distintivo: os vermelhos e amarelos só podiam ser usados pela família real, restando ao povo usar os azuis.
Também antigo é o teatro de sombras chinesas, tido como um dos percursores do cinema. Apareceu durante a dinastia Han 206 aC - 220 dC. Na loja de Lisboa também é possível adquirir algumas destas figuras e depois experimentar articulá-las atrás de um lençol iluminado.
Outro passatempo muito popular na china é o jogo, sendo o “go game” um dos mais conhecidos. É jogado num tabuleiro, onde se movimentam pequenas peças brancas e pretas. “Trata-se de um jogo de estratégia muito bom para exercitar o raciocínio matemático, a paciência e o bom senso”, explica Yaoqun Zhu. O tradicional “go game” joga-se a dois, mas Yaoqun inventou e patenteou um jogo semelhante para quatro jogadores. “Joga-se num tabuleiro maior e é bem mais complicado”, diz, acrescentando que quem quiser iniciar-se no “go game” tradicional pode fazê-lo na “Janela de Pequim”. Yaoqun prontifica-se a ensinar as regras e assim angariar potenciais parceiros de jogo.
Além da iniciação ao “go game”, na “Janela de Pequim” também há cursos de caligrafia chinesa, outro “exercício de paciência e de concentração”, frisa Yaoqun. Aprender um pouco mais sobre a cultura chinesa é uma experiência garantida a quem visitar a “Janela de Pequim”, com a vantagem de que pode levar um pouco da China para casa, se comprar uma escultura, um painel feito de meticulosos recortes, peças em pano alusivas ao zodíaco chinês, entre outros artefactos manualmente “made in China”.


“Janela de Pequim”
Av. 5 de Outubro, nº 20, loja 6
1050 – 056 Lisboa
E-mail: janeladepequim@sapo.pt

viernes, 31 de octubre de 2008

A porta que dá para os dois lados

O protagonista da minha memória é um senhor de uma certa idade. Gosto de pensar que se trata de um octogenário, talvez por gostar da sonoridade do número oito e de o desenhar entrelaçado e redondinho, a provar que as histórias se interligam e que podem começar no mesmo ponto em que terminam. Na verdade a minha acontece assim: eu saía do lugar para onde o meu octogenário entrava, ou então entrava eu para o mundo de onde ele saía. Pouco importa por agora...Vi o meu octogenário contrariada, como quando se senta alguém ao meu lado no mesmo banco do autocarro e me obriga a partilhar, a ajustar-me no meu canto, a escapar da minha abstracção e a pedir licença para sair. Desagrada-me pedir licença para sair. Vi-o do outro lado da porta de vidro, daquelas que democraticamente abrem para os dois lados, bamboleiam dependendo, ora do desabafo dos que a empurram em fuga, ora da convicção dos que a puxam para si, determinados a entrar, muito mais do que a sair. O meu octogenário alcançou-a antes que eu pudesse decidir. Ele decidiu puxar a porta de vidro. Decidiu isso e decidiu sorrir-me com os olhos, com a face toda e com as mãos que me cediam a passagem, sem pressa nenhuma. A ausência de pressa de quem valoriza a vida, com a autoridade de a viver efectivamente. Se não fossem as convicções sociais, a vergonha, a estupidez, ou outra desculpa menos óbvia, o que teria feito era dar-lhe um beijo. Não me lembro de melhor forma de retribuir aquele momento quentinho que me impediu de continuar contrariada... Em vez disso, disse-lhe um vazio obrigada, mais ou menos desmaiado num sorriso, e adiei para depois os olhos humedecidos e a felicidade mais escancarada. Por essa altura ele já estava do outro lado da porta e ela já se tinha fechado. Não o voltei a ver. Mentira! Acho que o reencontrei porque poderia muito bem ser ele o octogenário que se mudou para o meu prédio e uma semana depois tocou à minha campainha. Abri a porta e lá estava ele com um cesto de molas de roupa de muitas cores diferentes. Ofereceu-mas a sorrir com os olhos e com a face toda. Talvez desconfiasse que eram molas coloridas os meus brinquedos preferidos quando ainda só gatinhava atrás deles e aprendia que as cores tinham nomes. Sempre que me cruzo com este meu octogenário no prédio ou na minha rua, sorrimos os dois. Eu regresso à recordação do meu outro octogenário e da porta de vidro. Imagino que afinal vou conseguir dar-lhe um beijo como quem termina o oito mesmo no ponto em que o iniciou. Penso depois que devo ter desenhado vários oitos imperfeitos, que não terminam de acontecer. Penso que um sorriso é quase um beijo por terminar, por acontecer.