jueves, 1 de junio de 2023

Criança, a minha!

Estou em dívida contigo... tantos adultos já escreveram à criança que foram e eu nunca te liguei nenhuma! Tu também te ignoras, bem sei... Pensas que pensar demasiado te está a envelhecer mais depressa a alma e por isso não te sentes lá muito infantil!

Comecemos pelas más notícias: não vais casar com o Pedro dos caracóis. Na verdade, só o verás mais uma vez e  fingirás que não o vês, sem caracóis e cheio de borbulhas! 
Vais apaixonar-te outras vezes, mas parecerão todas mentira quando perceberes o que é amar de verdade! E tu não amarás facilmente porque sabes que a liberdade é sempre o mais urgente!

Também não serás bailarina... Tens a dança no corpo e uma mente felina, mas falta-te a disciplina! Não te ficarás pelo ballet. Vais aprender flamenco, tango, danças ciganas até!
Experimentar será o verbo que mais gostarás de conjugar!
Aprenderás pintura, fotografia, cinema, teatro e nem assim o teu espírito ficará farto!
Vais continuar a escrever e é mesmo disso que vais viver!
Não te preocupará a carreira, interessar-te-á mais que a tua aposta seja a cada momento certeira!

Saberás, no entanto, muito bem o te faz feliz! Lutarás teimosamente por isso, sem te importares demasiado com o que o resto do mundo te diz! Sim, continuarás a ser ligeiramente arrogante, sarcástica, por vezes inconstante! 
Mas és corajosa com as coisas que importam e com algumas que não importam tanto assim... 
Vais baloiçar entre dois montes na Serra da Estrela, presa na tirolesa,... vais apreciar a vista e perceber que o medo passa de forma imprevista! 
Vais dormir no banco de trás de um camião, grata ao camionista que aceitou dar-te boleia, numa manhã coimbrã, com álcool da Queima ainda a passear pela tua veia! 
Vais dormir, debaixo das estrelas (das verdadeiras!), numa praia de pedras duras e escuras, em Cannes!
Vais dormir do lado de fora de uma estação de comboios na Sicília, do lado de fora de um aeroporto de Roma, num campo de um agricultor grego que te vai acordar de espingarda na mão e a falar alemão... e vai correr bem!
Terás sempre vontade de mais mundo, de mais gente, de gente diferente. Já é isso que te move, ainda que não o saibas, no fundo!

Já suspeitas da sorte que tens com os pais que te saíram na rifa! São a tua lotaria! Nunca te vão falhar! A tua família mais próxima e os amigos que adotarás como família não te irão falhar!

Gerarás outro ser e sei que não acreditas que isso te vai acontecer! Nem imaginas ainda o quanto isso te vai amolecer. Só isso é que te fará mesmo crescer!

Só posso falar do teu futuro porque do meu não me atrevo... Nada disto é segredo e o resto é sempre mais forte do que o medo!

viernes, 29 de septiembre de 2017

Três conselhos para o concelho

Eu tentei, juro que tentei (sim, sou eu a quinta das 4 Non Blondes, a renegada)!
Mas não consigo escolher um candidato para a Câmara de Lisboa.

Estive a ponto de ceder aos argumentos do João Ferreira, mas ele não me parece disposto a trocar de partido e eu não estou disposta a votar num partido tão "compreensivo" com os devaneios de líderes do passado, como Hugo Chávez, e  do presente, como Kim Jong (Quim João). 
Eu tentei, Oh Meu Deus, como tentei!

Os lindos olhos do Ricardo Robles também não chegaram para me convencer. Suspeito que uma conversa entre nós não sobreviveria ao tempo da partilha de uma garrafa de tinto! E isso é um indicador respeitável!
Eu tentei, Oh Meu Deus, como tentei!

Admito, com alguma vergonha, que a Assunção Cristas era a minha ministra preferida do anterior Governo, mas escutá-la agora provoca-me náuseas!  Em minha defesa, alego que a Ana Paula Vitorino é a minha atual ministra preferida. Logo, a culpa deve ser da pasta do Mar! 
Neste caso, já não tentei, o que vale também para os restantes candidatos!

Mas é inevitável que um deles arrebata o troféu, pelo que quero livrar a minha consciência de culpa e deixar aqui três conselhos a aplicar no concelho!!!!!!!

Coisas simples como:

Fim das varandas tapadas nas fachadas voltadas para a rua!!!!!!!!!!!! Já, por favor? É só proibir que se tapem varandas e começar a multar!! Os cofres da CML agradecem!

Fim dos cabos de eletricidade/telecomunicações// whatever pendurados nas fachadas dos prédios! Até as toupeiras conseguem fazer túneis... Já, por favor? É só proibir e começar a multar!! Os cofres da CML agradecem!

Fim das calçadas de calcário e basalto irregulares ou polidas! Os idosos, que costumam optar pelo alcatrão, agradecem! As/os adeptos de saltos altos agradecem! Os carrinhos de bebés, as cadeiras de rodas e os troleys dos turistas também agradecem! Andar a pé é inevitável para o lisboeta (a culpa é do Homo Erectus, não é do Homo Alfacinha)! Escorregar na nem sempre bela calçada é igualmente inevitável!

Desta vez é só isso, que não vos quero sobrecarregar de trabalho!
P.S.: Vou votar à mesma, provavelmente em branco, apesar de ter sido expulsa da minha freguesia (já não bastava o trauma das 4 Non Blondes) e ter sido transferida para as estatísticas de São Vicente (de quem não sou devota)!

jueves, 13 de octubre de 2016

Be mine, Valentino!



Valentino seria a marca de alta costura onde eu torraria os meus milhões. As últimas coleções são obras de arte: o Nobel do bom gosto!



A Miss Moss traduz isso muito bem nestes casamentos do mestre Pierpaolo Piccioli com os renascentistas, sobretudo, mas também com outros pintores



"Num beijo apertado de barco contra o cais"




Eu gosto de talent shows e nunca tinha dado a devida atenção às letras do Pedro Abrunhosa até assistir à interpretação que se segue e que está incluída na minha playlist no You Tube. Sublimes, os dois cantores!
(sem contar com o facto de ele parecer um retrato de Egon Schiele)






Eu não sei quem te perdeu
Pedro Abrunhosa




Quando veio, mostrou-me as mãos vazias
As mãos como os meus dias
Tão leves e banais
E pediu-me que lhe levasse o medo
Eu disse-lhe um segredo
Não partas nunca mais
E dançou
Rodou no chão molhado
Num beijo apertado
De barco contra o cais
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
Abraçou-me
Como se abraça o tempo
A vida num momento
Em gestos nunca iguais
E parou
Cantou contra o meu peito
Num beijo imperfeito
Roubado nos umbrais
E partiu
Sem me dizer o nome
Levando-me o perfume
De tantas noites mais
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
E uma asa voa
A cada beijo teu
Esta noite
Sou dono do céu
E eu não sei quem te perdeu
E eu não sei quem te perdeu












miércoles, 13 de julio de 2016

PORTUGAL

Há três imagens que se irão fossilizar no coração de quem por Portugal viveu a final do Europeu de Futebol de 2016: a dor de Ronaldo, sentado, indiferente à traça que lhe pousava no rosto, por lhe terem roubado a oportunidade de continuar a lutar; o consolo inesperado do pequeno adepto de Portugal ao choroso adepto rival e o camião a transbordar de timorenses e de bandeiras portuguesas, em festejos nas ruas de Dili.

lunes, 29 de febrero de 2016

À sombra do "Spotlight"

Tendo em conta que o único filme nomeado para melhor filme nos Óscares 2016 que eu vi foi o "Spotlight", pouco posso dizer da justiça ou injustiça da escolha da Academia.

O que eu posso dizer é que o filme tem um elevado poder de moralização (a Academia não resiste a colar-se a esse poder): não estou a referir-me ao crime que a igreja católica cometeu ao autorizar a impunidade e a persistência da prática de crimes sexuais (a esse respeito, o filme limita-se ao que já se sabia), mas sim ao mérito da investigação no jornalismo. Essa é a tecla em que vale a pena insistir.


Eu gostava de saber quantos editores, chefes de redação, diretores de órgãos de informação coraram de vergonha ao verem o filme?


A denúncia óbvia do filme é menos importante do que o que ele denuncia indiretamente: a falta que fazem "Rezendes" nas redações.
E um filme que obriga a classe jornalística e a igreja a olhar-se ao espelho desta forma é capaz de merecer um óscar, mesmo sem ser um grande filme.


viernes, 15 de enero de 2016

Presentes do passado


A memória é truculenta: retém o que interessa e o que não interessa, mas também é capaz de deixar escapar coisas que gostaríamos de perpetuar.

Quando vejo uma exposição, assalta-me sempre alguma angústia que antecipa os detalhes que irei esquecer, contrariada. E se o filtro que baliza a memória me deixa lembrar que é sempre da esquerda que a luz espreita em todos os quadros de cenas domésticas de Vermeer que vi; do sobressalto que senti quando finalmente se agigantou o “David” do Miguel Ângelo, depois de uma obediente espera; da comoção inesperada que as esculturas de Rodin me causaram (foi o último museu que visitei em Paris e é dele que melhor me lembro); da sucessão de tapetes dos corredores do Vaticano, que vi a correr (literalmente) para conseguir chegar a tempo de babar a olhar para o teto da Sistina; que a impressão maior dos impressionistas é a intranquilidade latente de tudo o que posa para o pintor… mas esse filtro também me priva do muito que queria guardar.

Socorro-me com a escrita, domadora dos caprichos da memória.

Assim, depois de visitar no MNAA a “Colección Masaveu. Grandes Mestres da Pintura Espanhola Greco, Zurbarán, Goya, Sorolla”, registo:

José de Ribera atreveu-se a olhar para a vida como ela era: pintou o “Bêbedo” quando a maioria dos seus contemporâneos retratava santos de olhar suplicante em direção ao céu.

Os olhos de Cristo parecem cortados com espadas em “Jesus é despojado das suas vestes” de El Greco.

Que o melhor do Barroco está nos desenhos irrepreensíveis dos têxteis faustosos como o que cobre “Santa Catarina” de Zurbarán.

Que o meu avô iria apreciar as cenas pastoris de Pedro de Orrente.

Já eu fiquei particularmente encantada com as velas furiosas em contracena com a luz do Levante, nas marítimas de Sorolla, e com o protagonismo da música e da dança nas telas de Romero Torres.

martes, 17 de noviembre de 2015

A propósito do mundo, em geral, ou de mim, em particular

A morte é coisa certa, como é certo que daqui a 100 anos serei incapaz de reler o que escrevi...
Se esticar o pensamento até duvido se quero escrever por mais alguma coisa que não seja um salário, porque o meu contributo para o devir convoca a nulidade, mas não quero relativizar tanto, nem pensar tanto...

Porém, contrariando toda a razão que nos devolve ao nosso "nanotamanho", debatem-se escolhas, apontam-se dedos às sensibilidades!
Como se não soubéssemos todos, mesmo os hipócritas, que todos escolhemos!
Como se não soubéssemos todos que a escolha é por definição uma exclusão!
Como se, em consciência, preferíssemos o desconsolo de nada escolher...

  

martes, 20 de octubre de 2015

Histórias aos quadradinhos - capítulo V


Se eu fosse cega e tivesse que escolher uma cor pela sonoridade seria a azul a eleita. Junta só a minha vogal e a minha consoante preferida: o u e o l.
Não devemos ignorar os argumentos da sonoridade nisto de angariar simpatias com as palavras. Não é à toa que William Hurt (a voz masculina mais sedutora de que me consigo lembrar) foi o escolhido para interpretar a personagem que conquista a cega de “Filhos de um Deus Menor” e não é à toa que alguém dos Madredeus informava há alguns anos que procuravam os sons doces e sibilantes quando escreviam as letras das músicas: os mm e os aa, exemplificavam.

Já os mestres da azulejaria portuguesa terão escolhido a cor azul para a maioria dos seus trabalhos por outras razões: o corante óxido de cobalto encontrava-se mais facilmente.

Por coincidência leio a justificação para as grossas pinceladas de azul, que ameaçam esconder Helena Almeida nas suas "pinturas habitadas" (agora expostas em Serralves e que julgo ter visto no CCB). “Uso o azul porque é uma cor espacial. Tem de ser azul (…). É mesmo o espaço, é engolir a pintura”, terá justificado Helena aos curadores da exposição de Serralves.

Espacial, acessível, de sonoridade sedutora, azul é a cor que conta, por ventura, mais histórias da arte portuguesa. A comprovar no Museu do Azulejo, em todo Portugal e em todo o mundo em que os portugueses pousaram quadradinhos.



(lamento, mas não estou a conseguir subir as fotos dos azulejos que se impunham nesta história: to be continued...)

martes, 22 de septiembre de 2015

A cela depois do naufrágio. A morte em vida depois da cela.

Como se estivesse morto: 
( testemunho de Abdullah Kurdi, pai de Aylan Kurdi )
“Deixámos Damasco pouco depois do início da guerra na Síria. Vivíamos no bairro curdo de Rukn al-Din e eu trabalhava como barbeiro. 

A situação na cidade tornou-se cada vez mais perigosa. Decidimos partir para Kobane onde a minha mulher e eu trabalhávamos na agricultura. Tentei a minha sorte em Istambul numa fábrica têxtil. Doze horas por dia eram passadas na fábrica e à noite dormia numa cave que o dono da fábrica fechava do lado de fora. O salário enviava-o para Kobane para a minha a família. Foi assim durante três anos até o Estado Islâmico ter tomado Kobane em 2014. Com Rehan, a minha mulher, Galib e Aylan, os meus filhos, e milhares de outros habitantes fugimos. Pela primeira vez a minha mulher disse: “temos de abandonar a Síria”, antes recusara sempre.
Viemos para Istambul onde procurei um trabalho na construção civil. Carregava 200 sacos de cimento escadas acima, onze horas por dia. O nosso quarto custava 400 liras turcas por mês. Durante 5 meses a minha irmã, que vive há 25 anos no Canadá, pagou-nos a renda. Pedimos asilo ao Canadá, mas este foi-nos recusado, escolhemos então ir para a Alemanha onde o meu irmão vive, em Heidelberg, num centro de refugiados. Tentamos ir por terra, mas a polícia turca deteve-nos na fronteira com a Bulgária. A única opção que nos estava era o mar. A minha irmã deu-me os 4 mil euros que entreguei aos traficantes turcos e sírios. No nosso barco a motor iam 13 pessoas e parecia ser seguro. O capitão disse: “a viagem dura apenas dez minutos”. Podíamos ver Kos. A água estava calma, mas poucos minutos depois tudo se alterou. Veio uma onda e virou o barco, era de noite e não via a minha mulher e os meus filhos. Mas ouvi a minha mulher, as suas últimas palavras foram: “Abu Galib, pai de Galib, cuida das crianças”. Não as consegui segurar. Agarrei-me ao barco. Um dos que iam comigo conseguiu alcançar a costa e chamou a polícia. Passei a noite numa cela e no dia seguinte pediram-me para identificar a minha família. A minha amada mulher Rehan, Aylan, o menino que sorria sempre, e Galib que nunca parava quieto. 
Enterrei a minha família em Kobane e vivo na casa destruída do meu sogro. Não há infra-estrutura, há pó por todo o lado, os corpos dos mortos continuam debaixo das ruínas. O cheiro é insuportável e os insectos picam-nos à noite. Não há medicamentos, não há leite para as crianças, não há quase água.
Nunca mais deixarei Kobane, quero estar perto da minha família, mesmo que a única coisa que tenha deles seja roupa.
É como estar morto em vida”.




Os instantes em que pensamos que pode ser o fim têm a natureza de um garrote que se aperta desgarrado. Pudemos sobreviver-lhes. Percebemos melhor a angústia alheia.

lunes, 7 de septiembre de 2015

O sangue sírio que carregamos


A História que me contaram era, sem cerimónias, maniqueísta e nada laica: os romanos (subentenda-se cristãos) eram, grosso modo, os bons e os muçulmanos, sarracenos (subentenda-se islamistas) eram os maus!

Isto, apesar de a ocupação muçulmana na Península Ibérica ter permitido/ convivido com a continuação de práticas cristãs, ao contrário do que sucedeu mais tarde, quando se expulsaram os mouros do mesmo território!

A única forma eficiente de combater os efeitos nefastos da religião (qualquer uma) é a educação!

Não falo dessa educação que recebi já após o 25 de Abril, que dividia os povos entre bons e maus! Recordo-me de uma certa professora (que não enxergava mais além) conceder que “apesar de tudo”, a presença mourisca deixou coisas boas, ao nível da matemática, da estética, …, mas a mensagem a bold era a de que se tratavam de povos invasores, com práticas diferentes, logo (e muitas vezes só por isso) indesejáveis.

Espero que não seja esta a versão que agora se escuta nas salas de aula!

Os novos “invasores”, aos olhos de muitos, parecem ser os refugiados sírios! Que ora sacodem o pó da caridade europeia, ora agitam a nacional estupidez (que fala todas as línguas), muito fecunda sempre que se constata que o mal dos outros derruba todas as fronteiras.

Queremos sempre histórias que apontem o dedo aos bons e aos maus, queremos isolá-los, classificá-los, circunscrevê-los a uma nacionalidade e a uma geografia. Mas entender o mundo  obriga a um exercício diferente, mais descomprometido, menos romântico, mais verdadeiro.

Agora pelos sírios... Por tantos outros... Por nós.

Os mesmos sírios que descendem, por ventura, dos marinheiros e comerciantes fenícios, que em tempos andaram por cá. Acreditando que não se limitaram apenas a fazer comércio, é provável que tenhamos sangue sírio nas veias… Seguramente que o temos a pesar na consciência.

martes, 19 de mayo de 2015

Imunidade jornalística

No âmbito da justiça, a possibilidade da existência de imunidade é por si só injusta...
Ela existe para os políticos! Aberração!
Ela existe de forma bem mais perigosa (mais dissimulada) para os jornalistas!


Resumindo: um polícia excedeu-se e irá pagar por isso! Acredito sinceramente que vai pagar por isso!
Um adepto poderá ter sido incorreto (provavelmente nunca saberemos), mas já temos a certeza de que não vai responder por isso! Caía o Carmo e a Trindade dos "justiceiros de trazer por casa"!
Um canal de TV explorou a dor e o medo de uma criança (cujo rosto não foi bem protegido) e nunca, mas nunca pagará por isso! E não conheço ninguém de direito que manifeste qualquer tipo de preocupação com esse tema! Bem pelo contrário, li até coisas como: o câmara da CM TV foi inteligente ao filmar a criança!
Já eu, só posso classificar o editor que autorizou a divulgação dessas imagens, sem proteger a criança (que é facilmente reconhecida), de cretino!
É nesta altura que só me valem os palavrões!

Nem vou falar da atitude oportunista do presidente do Benfica ao convidar a criança para erguer a taça!

lunes, 11 de mayo de 2015

Sem vir à tona

A mesma dose de opressão e de serenidade que nos oferece a água quando estamos totalmente imersos. Sentimos qualquer coisa assim com a morte dos que queremos: oprimidos e serenos com a certeza de nada podermos fazer.


Still the water atreve-se a abordar o que possivelmente mais tememos: dizer adeus aos que mais gostamos. Totalmente incómodo, mas absolutamente belo.


Antes de o realizar, Naomi Kawase perdeu a mãe adoptiva.


Vi este filme há duas semanas e foi nele que pensei quando li este poema, num dos meus blogues preferidos:  O Fio de Prumo


Mãe
Fui vê-la.
Sorriu.
O seu olhar
dis­tin­guia melhor
o invi­sí­vel de mim.
Peguei-lhe na mão,
vol­tou a sorrir.
A ela disse
o meu nome,
a idade
e apertei-lhe
de novo
as duas mãos.
Com os olhos vagos
sem me ver
can­tou bai­xi­nho
uma canção
e espe­rei.
Espe­rei
que os seus olhos
se qui­ses­sem cru­zar
com os meus.
O tempo pas­sou
e ao pas­sar
vi um anjo
entrar na sala
devagar.
As nos­sas mãos
fei­tas de raí­zes
leva­ram tempo
a despegar.
O anjo pousou.
Sem se apres­sar,
pegou-lhe na mão
para a levar.

   Rita Roquette de Vasconcellos





viernes, 8 de mayo de 2015

Azul e verde

- Não conheço os países nórdicos (é declaradamente um projeto), porém não posso deixar de ficar fascinada pelo que dos nórdicos se sabe: a riqueza que geram e como a administram, o respeito que parecem prestar à Natureza, a estética que conquista meio mundo (sim, IKEA e H&M também), ...
- Nunca votei em Cavaco Silva, mas reconheço que a ele (certamente através de um assessor mais arejado) muito se deve o impulso dado ao assunto Mar: colocou-o na agenda e nos discursos desde que chegou a Belém, percebendo a tendência e a oportunidade.
Desde aí não há órgão de comunicação que não faça "especiais" sobre a economia ligada ao mar e gente motivada para o pôr a render.


Por tudo isto tenho acompanhado com interesse a visita presidencial à Noruega, país que deve ao mar 45% do seu PIB!
Acresce que ser o terceiro maior exportador de hidrocarbonetos não impediu a Noruega de dar cartas também no campo das renováveis!
A Noruega tem também políticos que dizem colocar a ciência no topo das prioridades, porque sem ela a Natureza rende menos.

Se um norueguês olhar para o mapa de Portugal e reparar no enorme vizinho que temos a Oeste e a Sul deve ter vontade de rir quando escuta portugueses a dizer que Portugal é pobrezinho por falta de recursos naturais!
Ao que parece estamos a mudar: a economia verde já fatura e a azul também está bem encaminhada!

Eu acredito que é justamente o mar que nos poderá impedir de naufragar.
Eu mudava as cores da bandeira portuguesa!
Eu mudava as cores da bandeira portuguesa!


jueves, 9 de abril de 2015

Auto "Retrato do Artista quando jovem"*

Agora que já me instalei na década de 40 (descansem que não vou citar o Paco Bandeira), que já estabilizei algumas características e ainda não degenerei por completo as mais frescas, registo:


Sou sonhadora e pragmática e as duas caraterísticas convivem pacificamente.


Tenho muito mais ideias (devia ser paga para isso) do que as que concretizo, pelo que o que poderia ser a minha maior virtude também pode muito bem ser o meu pior defeito. Mas eu gosto de ambiguidades.


Dá-me mais prazer imaginar a solução do que implementá-la, mas sou muito boa a encontrar alternativas. O “por outro lado” é a minha especialidade. A preguiça (tão subvalorizada) também.


Pouco me atrai na perfeição e menos ainda nos perfecionistas. Na maioria dos casos, empatam mais do que avançam. E avançar é preciso.


Sou desconfiada, mas não sou preconceituosa e atrai-me a diferença, de uma forma geral. E considero estas características fundamentais para ser feliz.


Fui uma criança tímida, mantenho-me assim, mas agora disfarço melhor.


Já saí na capa de um jornal galego, mas já não tenho provas disso! A minha mãe acabou por pô-lo no lixo, pensando que era mais um dos jornais atrasados que eu acumulava pelos cantos da casa!


A primeira vez que pisei um palco ainda não tinha 10 anos e regressei a ele várias vezes, sempre com uma mistura de nervos e prazer. A entrega (dos outros) em palco continua a comover-me.


Não é a tristeza que me faz chorar, é a generosidade. O que cada um dá de si é o que mais me comove, na arte e na vida.


Da primeira vez que pedi boleia, saiu-me um bondoso camionista: fiquei a saber que os camiões (alguns, pelos menos) têm banco traseiro (o banco cama) e experimentei-o!

Também já dormi de pé, acompanhada de pessoas e de animais! Os comboios gregos eram muito inclusivos no fim do século passado.


Já me apontaram uma caçadeira! Nunca desmontei uma tenda tão depressa! Moral da história: não fazer campismo clandestino e aprender a pedir desculpas em grego!

Falo cinco línguas, mas por azar nenhuma delas é o grego!
Nasci em Matosinhos, mas não me sinto muito chegada ao mar, a não ser à mesa…


Sinto agora mais saudades da paisagem serrana e do ar da Serra da Estrela de que desfrutei nos sete anos em que vivi na Covilhã, do que sentia nessa altura saudades do mar e da brisa marítima. Ver da serra nascer o sol na Cova da Beira, bate todos os pores-do-sol que eu já vi.


Na serra, o professor da única aula de esqui que tive, disse-me que sabia “cair muito bem”. É verdade: até ao momento, tenho lidado bem com as quedas.


Achava que tinha medo de alturas até que me vi desafiada a experimentar tirolesa, na mesma serra: incapaz de avançar, quando era exigida força de braços para galgar a linha ascendente (a última parte) da concavidade da corda, deixei-me estar ali pendurada a apreciar o vale entre os dois montes que a mesma unia. Soube-me bem!


Foi num outro vale da mesma serra que conheci O Tal. E ainda é o mesmo.

Sou mãe de uma menina. A Natureza, reiteradamente, demoveu-me de aumentar este número. Já percebi.


Gosto de dias de chuva e suporto muito melhor o “frio de rachar” do que o “calor abrasador”.


A minha bebida preferida é a água. Consumo vinho e café, regularmente, espumante bruto e cerveja, raramente. Não aprecio bebidas brancas nem licorosas (mas vou insistir com o Vinho do Porto!).


Gosto muito de cozinha portuguesa (e de todas as que provei), mas tenho dúvidas de que seja a melhor do mundo. (Voltarei a este tópico quando estiver reformada)


O sabor que menos me atrai é o doce. Prefiro o picante e o ácido. Não aprecio o sabor nem o cheiro da baunilha, do anis e da noz-moscada. Gosto muito de todas as outras especiarias que já experimentei.


Experimentar/conhecer é, aliás, o que mais gosto de fazer na vida, em quase todos os contextos. Tenho tempo a menos para o que quero experimentar e talvez por isso substitua facilmente um interesse por outro: já fiz ioga, ballet, folclore, danças medievais, danças ciganas, tango e sevilhanas; tive aulas de pintura; fiz um curso de fotografia; aprendi quatro idiomas que não o meu, mas só sou fluente em dois deles; recuperei móveis e coisas usadas (sou uma "respigadora", que vê uso em quase tudo); vendi coisas feitas por mim numa feira medieval (os meus clientes eram quase todos da família!); subi um rio a pé (e não estou a falar das margens); mergulhei no Atlântico de Inverno; subverti a ideia de montanhismo e fiz da serra um escorrega (involuntariamente); participei ativamente no associativismo (artístico, no caso)...

Também consigo ser constante: o Jornalismo tem sido a minha maior teimosia. Quis ser jornalista por gostar de escrever e querer conhecer outros lugares, outras coisas... Continuo a querer pelos mesmos motivos e mais um: conhecer as histórias que as pessoas têm para contar! E todas as pessoas têm boas histórias para contar!
Já fui professora e quero voltar a ser.



Sou do FCP, por convicção ou qualquer coisa do género, mas antes fui do Sporting, à força de suborno de um tio que me trouxe umas lindas botinhas de carneira da África do Sul... Não me lembro exactamente do momento da mudança... O meu tio não voltou a visitar-me e eu continuo a gostar de botas de carneira!

Gosto de cabelos com ar de praia e de tranças meio desfeitas... Gosto tão pouco de rastas quanto de penteados muito estruturados. Excepção: puchinho de bailarina, mas ao ballet eu autorizo tudo.

Acho que a maioria dos homens fica mal de gravata e bem de barba, o que me torna uma potencial má nora da maioria das sogras, inclusive da minha.

Arrependo-me de quase nada, mas lamento não ter partido à descoberta do mundo, trabalhando onde calhasse para pagar a expedição, quando terminei o meu curso... Nada está perdido: transferi o objetivo para o período de reforma e dei à expressão Segurança Social um significado mais inspirador.

Se só pudesse levar uma coisa para uma ilha deserta, seria um queijo! (Mas talvez um barco a motor fosse mais útil)


*O título é inspirado no Joyce e a escala no Manoel de Oliveira!

martes, 7 de abril de 2015

"Dame la mano y danzaremos"

Dame la mano y danzaremos...*

«Dame la mano y danzaremos, 
dame la mano y me amarás. 
Como una sola flor seremos, 
como una flor, y nada más. . .
El mismo verso cantaremos, 
al mismo paso bailarás. 
Como una espiga ondularemos,
como una espiga, y nada más.
Te llamas Rosa y yo Esperanza, 
pero tu nombre olvidarás, 
porque seremos una danza 
en la colina y nada más...»

*De Gabriela Mistral, a quem fui ter através do doodle do Google de hoje.

miércoles, 1 de abril de 2015

O trompete

Gostei deles desde a primeira vez que os ouvi, na Radar. Os Beirut, dos EUA, agarraram-me pelo trompete do Zach Condon, que também toca cavaquinho e fala português.
E agora dou-me conta que os meus ouvidos transmitem ao cérebro coisas boas, sempre que descubro o som do trompete numa música...

martes, 31 de marzo de 2015

"Rive Gauche"*

Fui-te fiel durante anos...
Não voltei a ser fiel assim.
Não me lembro quando te deixei, nem do nome do teu substituto...
Nem mais me lembrei de ti,.. até ontem.
Culpo Bordeaux!
E as Cabernet Sauvignon que perfumam a margem esquerda do Gironde.

*YSL

jueves, 12 de marzo de 2015

O Elogio da Contenção


Não foi a Vida, foi a Arte que me mostrou que do que eu mais gosto nos outros é da Contenção. Percebi esse padrão em quase todas as personagens de Colin Firth, ou no melhor mordomo inglês de sempre (Anthony Hopkins, em The Remains of the Day). É raro não me comover com a contenção e perante a arte autorizo-me mais facilmente a não conter a emoção.