jueves, 30 de enero de 2014

Moralizar no século XXI

Se eu escrevesse as minhas memórias (que é mais ou menos o que estou a fazer), poderia recorrer à lamentável expressão "no meu tempo" e lembrar que, surpreendentemente, "no meu tempo":

- Versalles recusou "A Noiva" (candelabro gigante feito com tampões, que pode ser agora apreciado no Museu de Arte Contemporânea de Elvas) de Joana Vasconcelos na mega exposição que lhe dedicou!

- o parlamento sueco retirou da sua sala de jantar uma pintura barroca, do século XVII, onde figuravam seios!

- a imprensa portuguesa questionou o tamanho da saia da assessora de Cavaco!

- advogados "invejosos" fizeram queixas à Ordem dos Advogados de um vídeo feito por uma firma de advogadas, que não escondiam serem giras e eficientes ao ponto de ganhar para se vestirem com peças caras e de bom gosto (o que é discutível, mas não condenável)!
(E ao que consta, são mesmo eficientes! Também consta que o vídeo chamou a atenção de magnatas angolanos! Oh, que chatice! Vão roubar potenciais clientes chorudos às firmas mais "cinzentonas"! Go girls!)

- a sociedade lembrou-se agora de transformar os estudantes universitários em monstros, capazes de humilhar os seus semelhantes, sacudindo a culpa que realmente tem ao não preparar em casa, que é onde a Educação deve legislar, as crianças e os jovens para dizer NÂO, sem medo de retaliações sociais, para defender os que são mais fracos e que por isso não conseguem vocalizar esse Não, e, sobretudo, para distinguir o que é certo do que é errado.
Se a "praxe" está ao serviço da estupidez (como parece estar em vários casos), acabar com a praxe acaba com a estupidez? Que fácil seria a solução...
Pela minha experiência, que foi positiva, argumento a favor da praxe, que se ela serve de alibi para a estupidez, também serve de alibi para vencer a timidez, para o engate, para a paródia de todos os envolvidos... Tudo isto (estupidez incluída) pode acontecer com ou sem praxe.

Ainda não se sabe ao certo o que sucedeu no Meco (até pode ter sido só um lamentável acidente do mesmo calibre dos que vitimizam os curiosos "aventureiros" que gostam de ver as ondas mais de perto, sentir na cara a lama dos carros de rali e afins), mas a sapiente opinião pública já encontrou culpados, a mesma que não duvida da culpa dos pais da Maddie e dos pais do menino da Madeira!
Para quê Justiça, quando temos civis com tão elevadas capacidades, eivados de espírito de cruzada, prontinhos a moralizar os menos atentos, ingénuos, que como eu admitem a inocência destes "óbvios culpados"? Como ousamos relegar para a PJ a tarefa de investigar a verdade?

E COERÊNCIA? Essa virtude raríssima (inantingível, arrisco-me a rotular), já que muitos/alguns dos que não hesitam em "fazer justiça" na praça pública são os mesmos que optam pelo adjetivo "paneleiro" ou "preto", em vez do nome próprio, quando se referem, respetivamente, a um determinado homossexual, ou pessoa de raça negra, entre outras façanhas de equiparável potencial humilhatório, seja com a capa humorística ou não!

miércoles, 22 de enero de 2014

O direito ao Amor incondicional

Acodem-me vários palavrões, mas não me sossegam a raiva que sinto perante a leviandade com que se sugere e agora se impõe um referendo sobre a co-adopção por casais formados por pessoas do mesmo sexo.

No fim da década de 90, visitei, em reportagem para um trabalho universitário, a Casa do Gaiato, em Paços de Sousa, onde, na altura, só havia rapazes e padres. Os rapazes conviviam com outros rapazes e eram cuidados por homens.
Acreditei na dignidade e no empenho, talvez até no amor, que os padres dedicavam àqueles rapazes, mas pareceu-me que lhes faltava conviver mais com raparigas e com mulheres, apenas porque elas fazem parte da sociedade. Que eu saiba ninguém sugeriu uma lei que proíbisse orfanatos formados apenas por crianças do mesmo sexo!?

Que eu saiba os casais homosexuais não vivem isolados. Convivem com homens e mulheres.

Nunca consegui aceitar os argumentos dos que recriminam a adopção por duas pessoas do mesmo sexo, simplesmente porque jamais batem os argumentos de uma criança confinada a um orfanato, sem sentir o amor incondicional de alguém.

Pressão social? Bulling? Sim, lamentavelmente, existe. São esses os comportamentos que devemos ferozmente combater. Mas acredito que ninguém melhor do que um homossexual, habituado a lidar com eles, para ensinar a criança a defender-se e a crescer mais justa e receptiva à diferença.
Serão a pressão social e o bulling comparáveis à violência da ausência do amor incondicional, de que só os bons pais, verdadeiros ou adoptivos, são capazes?
Acodem-me novamente vários palavrões e a vontade de distribuir chapadas.

lunes, 20 de enero de 2014

"Penso eu de que..."

Não pensei sempre assim e até é provável que mude de opinião, mas, por agora, considero que há dois caminhos para se ser ainda de esquerda: um é utópico e tem todo o meu apreço, mesmo que o considere relativamente inócuo, o outro é o da hipocrisisa. Merece desprezo.

E não é no meio que está a virtude.

jueves, 28 de noviembre de 2013

A minha constelação

A TSF juntou-as esta semana! Eu achei bem e junto-as também, assim, na forma de poema dos inspirados Jorge Palma e Fernando Tordo! A segunda até é repetente por aqui. Apetites!

Estrela do Mar
Jorge Palma
Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
E em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia sozinho ao relento
E ali longe do tempo acabei por dormir

Acordei com o toque suave de um beijo
E uma cara sardenta encheu-me o olhar
Ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
Ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar

Sou a estrela do mar
Só ele obedeço, só ele me conhece
Só ele sabe quem sou no principio e no fim
Só a ele sou fiel e é ele quem me protege
Quando alguém quer à força
Ser dono de mim

Não se era maior o desejo ou o espanto
Mas sei que por instantes deixei de pensar
Uma chama invisível incendiou-me o peito
Qualquer coisa impossível fez-me acreditar

Em silêncio trocámos segredos e abraços
Inscrevemos no espaço um novo alfabeto
Já passaram mil anos sobre o nosso encontro
Mas mil anos são poucos ou nada para a estrela do mar

Estrela da Tarde
Carlos do Carmo
Era a tarde mais longa de todas as tardes
Que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas
Tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca,
Tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste
Na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhamos tardamos no beijo
Que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz
Que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto
Tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite,
Para haver outro dia. (Refrão)
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza.
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza.

Foi a noite mais bela de todas as noites
Que me aconteceram
Dos noturnos silêncios que à noite
De aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois
Corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram.

Foram noites e noites que numa só noite
Nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites
Que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles
Que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto
Se amarem, vivendo morreram.

(Refrão)

Eu não sei, meu amor, se o que digo
É ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo
E acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste
Dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida
De mágoa e de espanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo
Para quem se quer tanto!