jueves, 11 de octubre de 2012

Joana de Portugal

Consta-se que todas as princesas e rainhas Joanas da cristandade homenageavam Joana D'Arc. No entanto, quantas foram guerreiras?
Pelo menos uma, Joana de Portugal, casada com Enrique IV, de Espanha. Trocava os brocados e as rendas (importados da, na época, mais luxuosa e moderna corte portuguesa) com que limitava, generosamente, o decote, que paralisava os gulosos olhares castelhanos, pela armadura para lutar ao lado do rei contra os mouros que ainda sobravam na península.
À cobiçada rainha, linda, segundo as escrituras, a História não terá feito justiça, mas Marsílio Cassotti, autor de "A Rainha Adúltera. Joana de Portugal e o enigma da Excelente Senhora", reescreveu-a, com esse objectivo.
A mulher que criou a mais influente rainha espanhola - Isabel, a Católica, cuja vida, retratada em série, está a deixar, semanalmente, três milhões de espanhóis colados à televisão - por opção, já que a queria perto de si, de modo a evitar que casasse com Fernando de Aragão (com quem casou mesmo), comprometendo os planos portugueses (do mano Afonso V) de anexar Castela. Isabel muito terá aprendido com a culta, astuta e sedutora Joana de Portugal...
O mais singular legado de Joana terá sido, como tenta provar Marsílio, o facto de ter sido a primeira mulher do mundo inseminada artificialmente. A filha, Joana (a Excelente Senhora), que a História apelidou de bastarda e de Beltraneja (atribuída a uma relação adúltera com Beltrán de la Cueva), era, de acordo com as provas apresentadas por Marsilio, do rei Enrique, que se declarou impotente, mas não era estéril.
A ginecologia estava já bastante avançada porque assim convinha aos interesses de sucessão da realeza. E, no caso, serviu os de Castela, garantindo por inseminação artificial sucessora a Enrique. Como o que estava em jogo era o poder: difamaram a rainha para impedir que a princesa (também Joana) herdasse a coroa do pai.
Tudo seria inevitavelmente diferente se Isabel não chegasse a rainha, se Afonso V casasse com a sobrinha, para anexar Castela.Talvez não nos tivéssemos virado para o mar...

Ah! Sim, a rainha foi adúltera (por amor), mas bem depois de ter tido Joana. Nos sete primeiros anos de casamento não engravidou, nem do marido impotente, nem de nenhum outro: na época, não havia contraceptivos! Logo...
Joana tinha os traços germânicos de Enrique, contrastando com os latinos da mãe.
Isto parece fofoca histórica, mas é bem mais do que isso: é a ciência e o jogo político ao serviço do poder, na mesma família, a ibérica (casavam uns com os outros, para consumar a desejada união ibérica).

PS: Reapaixonei-me pela História!

jueves, 4 de octubre de 2012

Lisboa de Fernando Pessoa, Ary dos Santos e Eduardo Gageiro

A minha preferida é que revela D. José, lá do alto do seu absolutismo real (paradoxal que o monarca mais representativo desse regime político deva quase tudo a outra figura: o Marquês de Pombal). Eduardo Gageiro fotografou o monarca, como se ele estivesse em bico de pés, a querer aparecer de qualquer maneira: imagino que se tenha deitado no degrau mais baixo da escadaria do Cais das Colunas para assim o colocar. O que mais se vê é precisamente a sucessão de degraus, como se nos guiassem até essa representação do poder.
Gosto da fotografia por isso que vi nela e porque me lembrei das palavras de um certo marinheiro, do seu encanto por regressar a Portugal, pelo Tejo.
Também me lembrei de uma fotografia da Madona, que analisamos no curso de fotografia que fiz no CENJOR. Vê-se a cantora de costas e um batalhão de fotógrafos a tentar captá-la. O único que lá não estava era o autor da fotografia!

Gageiro também se pôs do lado de lá, dos que vêem Lisboa de fora, dos que a vêem do Tejo. E são muitos os que todos os dias a vêem assim.

Não consegui encontrar a fotografia da escadaria dos Cais das Colunas para a colocar aqui. Vai continuar exposta na Câmara Municipal de Lisboa, até ao dia 9 deste mês, na mostra: "Lisboa amarga e doce" de Eduardo Gageiro. A cidade, entre 1975 e 2010, pela lente de Gageiro, acompanhada das palavras de Fernando Pessoa e de Ary dos Santos.

"Outra vez te revejo — Lisboa e Tejo e tudo —,


Transeunte inútil de ti e de mim,

Estrangeiro aqui como em toda a parte,

Casual na vida como na alma,

Fantasma a errar em salas de recordações,

Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem

No castelo maldito de ter que viver..."  
Álvaro de Campos    

"Nas minhas mãos a madrugada

abriu a flor de Abril também,

a flor sem medo perfumada

com o aroma que o mar tem,

flor de Lisboa bem amada

que mal me quis, que me quer bem."

Ary dos Santos





miércoles, 3 de octubre de 2012

Porto!

Mais um vídeo sobre Portugal premiado- na Roménia, durante a 15ª edição do "International Film Festival Document Art". A cidade que me merece mais exclamações, que mais me altera o ritmo cardíaco, "Uma Cidade Chamada Porto", num vídeo que tenta captar o seu dia-a-dia.

Publicidade goleia jornalismo

No caso da campanha da Cacharel, a minha leitura é a seguinte: fait divers 0 - campanha da Cacharel 10!

O "espírito benfiquista" (leia-se: a culpa é sempre de terceiros) contamina o caso: em vez de se reflectir sobre a razão pela qual "um rapaz alegadamente apaixonado e à procura da moça" mereceu tanta cobertura jornalística, é mais fácil crucificar a Cacharel!

Houve, no entanto, algum entusiamo desmedido e por isso ingénuo da Cacharel, ao permitir que o tal "Ricardo" fosse entrevistado pela TVI, sem antecipar que a opinião pública não paparia de bom grado o logro.

martes, 2 de octubre de 2012

Pedro Barroso, "na rua livre de um palco, entre canções"

"... seremos quase mil cantando pela Liberdade, em nome da memória e do futuro", promete Pedro Barroso na sua página no Facebook
Uns dias antes garantia: "Dia 2 quero fazer do palco uma pátria diferente. Que pelo mundo do sonho se distinga voe e saiba diferir do cinzento dos dias tristes. Quero q comigo sejam conjurados de um outro sentir, outro saber; o sitio onde o Douro encontra o Tejo e juntos arrasam todos os medíocres q nos controlam o prazer e a alegria.
Como detesto esta gente pintada de séria e corrupta até à raiz dos cabelos. Como me bast...ei de misérias impostas e roubos declarados.
Estarei como um povo inteiro, na rua; só q isso será na rua livre de um palco, entre canções. Mas o meu discurso embora poético, apela a tudo o que de positivo é possivel fazer e rejeita a submissão dos dias ao jugo germânico da esmola como moeda de exigência.
Temos mil anos de historia. Que raio! Nao podemos temer o futuro. Só há que saber dizer isto bem alto, sem medo de amanhã. Porque o futuro só meterá medo precisamente se não o dissermos.
Quero que todos no fim do Concerto sintam e digam: valeu a pena
E que sintam que é possivel mudar as coisas porque viver tem de ser mais que isto q nos estão a obrigar. E a memória que vos trago traz um futuro iminente de acontecer.
Que todos saiamos do Rivoli de portas abertas e vontade expressa.
Conto convosco. É tempo de agir."

E antes ainda, comentava: "Em relação ao 2 Out no Porto, acho sinceramente q a publicidade entre amigos é a q mais desejo e a q mais resulta. Quero ter a casa cheia de amigos cumplices e solidarios, bem precisamos todos dessa alma colectiva!"

Esta noite queria estar no Rivoli com este "trovador", que tão bem escreve para cantar.

Assim:

"Excesso"

Há amores estranhos fundos sem razão


- são secretos vivem na cumplicidade

indizíveis nas palavras que aqui vão

são impróprios de viver em liberdade

levaram a ternura ao exagero

e a um excesso saboroso a nossa pele

só compreende quem sente o latejar

bem mais dentro que os olhos do olhar,

há amores que não posso aqui explicar

pois quer queiram quer não inda vivemos

na pré-História de um Futuro de cem mil anos

nas grutas de um sentir que não sabemos



há uma palavra escandalosa e proibida

quando se fecha a porta e começa a fantasia

e me sento no sofá e desligo-me da vida

e fico Senhor completo do teu corpo

e o código começou e tu me ofereces

o máximo que alguém nos pode dar

e a guerra não tem hoje nem tabus

são duas vontades grandes que ali estão

e mais que as mãos e a boca e o Futuro

e o vício de dois corpos seminus

amarro em ti a vida que me escapa

e acordas-me explicando o mundo todo

e cedo a esta raiva que me mata



e sinto em ti Mulher, Mulher de mais

e houvesse aqui, agora, já, um altar

e eu casava-me contigo poro a poro,

casava-me contigo em todos os rituais

se é que não estou exactamente assim casando

o ontem com o presente e o infinito

e a cada jogo beijo salto ou grito

pressinto o chão fugir e o mundo longe

e há um abuso consentido que não peço

e tu olhas-me plácida e tremente raiva e calma

e a tormenta desabrocha e sai de nós

pela porta escancarada do excesso    

"Viriato"

Trago comigo uma guitarra para a viagem

na minha voz esta canção antiga

tenho nos olhos mais do que a paisagem

a memória e o sal da gente amiga

não feneceu ainda em mim o velho sonho

trago na ideia uma razão e um sentido

que eu tenho o mar, o fundo mar, por testemunha

e a esse mar que em mim navega tudo é devido

e há qualquer coisa em tudo isto

que eu não posso ou sei esconder

e que faz com que vos cante esta canção

é uma história um gesto antigo

que eu nem sei como dizer

Viriato tem mil anos de razão

É do verde e fresco Minho que eu vos falo

e dessa calma alentejana que nos cala

e é em casa junto ao rio Tejo que me embalo

e é em Sagres que essa história mais nos fala

lá nas Atlântidas perdidas de um sonho

ou num velho cacilheiro que nos leva

e há nas ancas das varinas no Porto, na ribeira,

todo um mundo que nos lembra e que celebra

e há qualquer coisa em tudo isto

que eu não posso ou sei esconder

e que faz com que vos cante esta canção

é uma história um gesto antigo

que eu nem sei como dizer

Viriato tem mil anos de razão

Anonimato nas luzes da ribalta

No Abrupto, o que mais gosto é do nome. Ainda assim, de vez em quando, visito-o.

Cito o que escreve Pacheco Pereira  sobre a manipulação política, com a cumplicidade do que alguns chamam de jornalismo:

"ÍNDICE DO SITUACIONISMO: "RECADOS" ANÓNIMOS

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

Há vários problemas no nosso jornalismo político que são endémicos e contribuem para a sua má qualidade, entre eles a fusão de "recados" com fontes anónimas. Os "recados" são uma pura manipulação da opinião pública, transmitindo um discurso sem edição, que diz o que quer, que antecipa o que quer e que não precisa de ser confrontado com a realidade, nem com o contraditório. É um tipo de discurso político "limpo", sem mediação jornalística, que agrada aos políticos e manipula o jornalismo e a opinião.

O Expresso publica um por semana, tendo como origem o governo, e os gabinetes do Primeiro-ministro e do ministro Relvas, mais a sua multidão de assessores. Têm para quem os emite a vantagem de fornecer uma versão das coisas que é favorável ao poder, que ocupa normalmente uma primeira página e o seu título principal de forma vantajosa. Evita outra primeira página eventualmente mais hostil e pretende condicionar a opinião, fazer uma ameaça velada, ou testar a reacção a uma determinada medida. Muitas vezes pouco mais é do que a descrição de um "estado de alma" qualquer do primeiro-ministro (PM), destinado a sugerir que ele "sente" as mesmas indignações que o "povo", mesmo que não faça nada em consequência.
Os "recados" de hoje são mais do que isso:
"É preciso dar uma pedrada no charco e neste momento ele está claramente a pensar nisso e tem tudo em aberto: pode ser antes, durante ou após a apresentação do OE em 15 de Outubro" ("fonte próxima do PM").
"Se o PM recuou na TSU, também tem a agilidade, sem tabus, de rever o que está mal no governo." ("fonte oficial") .
Não tenho dúvidas sobre a fonte, foi o PM, ou alguém por "ele", como é identificado, que disse isto ao Expresso, usando o anonimato para exprimir não apenas opiniões, mas pressupostas intenções pessoais do PM. Num país em que houvesse um mínimo de vergonha, o Ministro da Economia apresentava a demissão de imediato, e se o ministro Relvas não estivesse envolvido na combinação, faria o mesmo. Para contentar a opinião pública, o PM ataca o seu próprio governo, debaixo da cobertura do anonimato, para transmitir uma "imagem" de determinação e firmeza em dia de manifestações. Não há uma linha destes "recados", que atravessam toda a "notícia", que não seja pura manipulação. No fundo é mais um sinal alarmante do grau de decomposição e desorientação do governo e do PM."

lunes, 1 de octubre de 2012

Woody Allen, o caricaturista! Mi piace!


"Porca miséria!", diz o polícia romano, em jeito de auto-apresentação. Todo o filme é uma caricatura a Roma, no que tem de bom, e aos romanos, no que têm de... caricato! E claro, a habitual caricatura à relação do casal e dos candidatos a casal, no que têm de mais rotineiro... E à desalmada hipocondria/angústia das personagens interpretadas por Allen. E aos costumes: hilariante a ascenção e queda do "novo famoso, sem nada ter feito por isso", na mesma linha da sátira do Bruno Nogueira em "O último a sair".
Nada de novo, mas agradável. É como rever um filme de Woody Allen, sem que seja bem o mesmo filme.
O que anda a mudar é a cenografia e isso agrada-me, porque gosto de viajar pelas cidades, também através do cinema, como gosto de o fazer através de um livro.
E não vejo problema algum no facto de Allen ser pago para promover uma cidade, ao mesmo tempo que faz o que sempre fez: caricaturar. Viaja mais, conhece mais, com o aliciante desafio de ter que inventar uma história para a cidade. Ele já fazia o mesmo antes com Paris, Veneza e Manhatan e tinha que arranjar dinheiro à mesma para pagar o filme.
Paguem-me a mim para fazer o mesmo! António Costa e Rui Rio estou à Vossa inteira disposição... A desculpa de que eu não sou tão popular quanto o Allen torna o cachet bem mais negociável!

E apeteceu-me voltar a Roma: esperemos que a moedinha que atirei à Fontana coopere!
(Woody, prueba superada!)