martes, 22 de febrero de 2011

O menino que sobreviveu ao abutre e o fotógrafo que não sobreviveu à indiferença (a sua)

O medidor da nossa indiferença não é indiferente à frequência com que a realidade nos testa. E decidir em situação nem sempre é o mesmo que decidir em consciência.

Kevin Carter decidiu carregar no botão para contar a história do bebé desnutrido e do abutre espectante. A foto de 1993 (Sudão) foi publicada pelo The New York Times e ganhou o Pulitzer no ano a seguir. O fotógrafo suicidou-se.
O El Mundo foi resgatar esta história: o menino não chegou a servir de refeição ao abutre. Morreu quatro anos depois de febre.
Não pretendo defender o fotógrafo, que estas questões não me despertam julgamentos fáceis. O fotógrafo não salvou o menino, nem nenhum dos outros meninos que morrem à fome no Sudão e no resto do mundo, mas esteve lá e ter estado lá ajudou a combater a indiferença: a nossa. Ou talvez não... Porque dentro de segundos seguimos com a vida, a nossa vida a quilómetros do Sudão. E na mesma circunstância, o que faríamos?

lunes, 21 de febrero de 2011

Geração "à espera do comboio na paragem do autocarro" *

Eu comecei por não achar piada aos Deolinda, até que me gravaram o primeiro CD do grupo e mudei de ideias: letras bem humoradas, que induzem, que sugerem, que criticam e música agradável q.b..

Não vejo razão para endeusar nem para crucificar a banda, à pala do tema "Que parva que eu sou", que quanto a mim critica tanto a passividade dos jovens como o sistema que os adormeceu, pelo que para usarem a música como hino queixa, estes jovens têm que enfiar a carapuça primeiro...

Seja como for, dá-lhes jeito (aos Deolinda) toda esta histeria...

* verso de Sérgio Godinho, numa música, cujo nome não me lembro agora e estou com preguiça de googlar... Mas também poderia ser outro verso do Godinho: geração "descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo"...

Adenda: A música chama-se "Lá em baixo" e merece citação completa, porque quem de nós nunca "andou desencontrado como à espera do comboio na paragem do autocarro"?

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente

E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão tarde
há quem cresça no escuro
e do dia se resguarde
há quem corra sem ter braços
para os braços que os aceitam
e seus braços juntos crescem
e entrelaçados se deitam
e a manhã traz outros braços
também juntos de outra forma
de quem luta e ao lutar
a si mesmo se transforma


E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta

vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado
vale bem quem ele sonha
lá em baixo, até já disse
que é que tem a ver comigo
e no entanto sobressalto
se me batem ao postigo
E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda anda gente
e uma cara desconhecida
vai abrindo no escuro
uma luz como uma ferida
como a luz que corre atrás
da corrida de um cometa
e vejo vales e valados
no sopé duma valeta
lá em baixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai ateando noite fora
um incêndio na avenida
És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro

miércoles, 16 de febrero de 2011

Sobreviver ao sonho

Demorei tempo a perceber, mais até do que a aceitar, que não se pode viver intensamente sempre. Aborreciam-me os intervalos, até aprender a apreciá-los. Sei que serei para sempre hedonista e que isso nem sequer é uma opção, mas tive a sorte (não se trata de talento) de saber procurar sempre novos prazeres, mesmo que seja em coisas que são de sempre.
Não gostaria de escrever sobre economia se me resignasse com o desalento de não poder escrever sempre sobre cultura. E essa foi a grande lição (há sempre uma que é maior que todas as outras) que já aprendi: não desistir nunca de descobrir prazeres, novos, renovados...
E não se pode viver sempre intensamente porque "de tanto bater o coração pára", tem que parar!
O "Black swan" recambiou-me para o processo que me permitiu ir entendendo que não duram mais que minutos aqueles momentos em que o coração dispara, e que há que apaziaguá-lo também.
Não que o filme trate realmente disso, mas desistir da dança foi a minha primeira ferida, a primeira derrota que enfrentei, a primeira vez que percebi que acreditar na reencarnação me daria muito jeito, porque nesta vida eu já tinha um sonho a que dizer adeus. E dizer adeus a um sonho é o contrário de viver intensamente.

O filme roda precisamente sobre o duro que é viver o sonho. Aceitar o desafio de o concretizar é na realidade bem mais difícil do que ter que prescindir dele, porque é mais fácil o prazer dos intervalos ainda que menos intenso.

E na verdade, este filme do Darren Aronofsky poderia chamar-se outra vez "Requiem for a dream". E foi do trabalho do realizador e do argumento que eu mais gostei.

martes, 15 de febrero de 2011

A foto

Na altura eu questionava-me sobre a ética desta capa da Time.

A foto da fotógrafa sul-africana Jodi Bieber venceu o World Press Photo 2010 e vai correr mundo em exposições. A história da jovem afegã Bibi Aisha, que agora está fisicamente recuperada, após várias cirurgias plásticas, vai correr mundo. E isso pode ser bom para todas as outras jovens.

lunes, 14 de febrero de 2011

Junquilhos senhores! Junquilhos!

Não me lembro em que aniversário me ofereceu a minha mãe pela primeira vez junquilhos! Mas o junquilho tornou-se a partir daí a minha flor preferida e foi provavelmente a primeira que alguma vez me ofereceram.

Agora é já uma tradição a que se aliou também a minha tia Alice! Recebo quase sempre junquilhos em dose dupla pelos anos!

Diz-se que é a primeira flor que desabrocha, a anunciar a proximidade da Primavera! Diz-se que lhe chamam também narciso, o símbolo da vaidade!




Nisto dos junquilhos, há uma sequência obrigatória: esta, que inclui a cena que começa no minuto 3, 30!

miércoles, 9 de febrero de 2011

Jornalistas!

...e mais coisas a oferecer aos jornalistas!


e se o amor fosse promovido a editor...

Gonçalo!

Chama-se assim esta cadeira. Mas eu já gostava dela antes de conhecer o nome com que a batizaram.
O meu pai resgatou-a algures (talvez no lixo de obras). Na verdade, resgatou duas. Estavam bastante enferrujadas, até que a minha mãe as pôs como novas.
Andava há que tempos para a fotografar, depois de a ter redescoberto no blogue do Luís Royal, por onde costumo andar a bisbilhotar sobre design. Fiquei a saber que a cadeira que costumamos ver em tantas esplanadas deste país foi criada em 1954 por Gonçalo Rodrigues dos Santos.
É linda e confortável, no contexto esplanada.