miércoles, 12 de enero de 2011

"Assim cuidado faz-se o sonho e fermentado" *

* Verso de Carlos Paião, incluído na provavelmente melhor letra que já concorreu por Portugal à Eurovisão: "Vinho do Porto"

Isto de eu gostar de vinho e do mundo do vinho foi coisa que foi educada.
E poderia ter dado para o torto: é que o primeiro vinho que provavelmente bebi era temperado pelo tristemente célebre Rio Leça. Fazia-o o meu avô a partir das uvas que cresciam nas margens do Leça e das melhorzinhas, que amadureciam no quintal, um quilómetro acima.
Era consensualmente considerado mauzito!
A coisa ameaçava piorar com o carrascão das tascas da Covilhã, mas eis que surge "Fora d'Horas" (aquele bar, o BAR, a minha morada noctívaga na Covilhã)! Comecei a casar vinho com conversa, conversa da boa, com gente com quem apetece conversar, e mais uns petiscos à mistura!
Mais indirectamente, fui gravando como o meu pai orgulhosamente montava a "adega", com mais um exemplar daqueles que era para beber "em momentos especiais", com a certeza de que aconteciam mesmo, porque as garrafas vão-se bebendo mesmo! No topo a Colares de 1974, em minha homenagem! Nem sequer é a mais cara, não será a melhor da colecção, mas é a mais especial para nós os dois!

O vinho continua a ser cúmplice de horas bem passadas à mesa, ou ao balcão, testemunha de muito paleio e tornou-se também tema de trabalho, mensalmente: um mundo que descubro com acrescentado prazer. Um mundo que já mexia há mais de seis mil anos: foram descobertos na Arménia vestígios de uma adega que o prova!

A propósito de educação no que toca a vinho, republico um artigo que escrevi para a revista Actualidade há perto de um ano. E se puderem, comprem o livro do professor Hipólito Pires!

Beba vinho, pela sua saúde

O conselho é de C. Hipólito-Reis, investigador da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Argumentos? Sabe-se que o vinho ajuda a retardar a aterosclerose e o envelhecimento, actua na prevenção da doença de Alzheimer e do cancro, entre outros benefícios. O autor do livro “Vinho, Gastronomia e Saúde” contraria cientificamente mitos falsos construídos pela falta de informação e defende uma educação mais rigorosa no que concerne ao consumo do vinho

“Na região onde nasci, as ramadas bordejavam os campos de milho. O pão e o vinho sempre se acompanharam bem.” Com esta imagem, C. Hipólito-Reis ilustra o que aprendeu empiricamente e depois confirmou nos estudos bibliográficos e de laboratório. No de Bioquímica, da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde trabalha, nos de outros investigadores e através das comunicações que leu à medida que se foi interessando pelo papel do vinho na alimentação e, consequentemente, na saúde. Foi deste seu interesse que já nasceu o livro “Vinho, Gastronomia e Saúde”, publicado em 2008. Uma obra que pretende desmitificar várias afirmações erradas sobre o consumo de vinho, explicando quais os seus benefícios para a saúde.
Antes de mais, C. Hipólito-Reis ressalva que “as possibilidades dos benefícios das bebidas alcoólicas, no seu bom aproveitamento, correm em paralelo com as dos malefícios do seu mau uso”. À semelhança de outros alimentos, como os açucarados ou os gordos, o vinho e outras bebidas alcoólicas devem ser consumidos segundo normas que estão bem estabelecidas, e sempre com moderação. “O problema que se coloca é, neste aspecto, como em todos os outros do comportamento humano, o da necessidade da educação”, advoga o investigador: “O consumo de vinho tem uma repercussão imensa na economia da saúde e da alimentação em geral. Estamos a educar mal as pessoas, quando tentamos afastá-las do uso do vinho. Ao apresentarmos as bebidas alcoólicas como tabu, desafia-se o ser humano, particularmente os jovens, para a sua descoberta. O álcool transforma-se no “fruto proibido”, o que desperta o desejo que induz um consumo desequilibrado.” Por outro lado, “devido às campanhas contra o vinho (nem sempre contra as outras bebidas alcoólicas), o seu consumo tem diminuído, mas o uso de drogas tem aumentado, pelo que não se podem ler os resultados dessas campanhas como sendo globalmente positivos”.
Se o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é nocivo, também não é aconselhável a sua total ausência na alimentação. C. Hipólito-Reis frisa que “muitas vezes o higienismo excessivo gera pessoas mais compulsivas” e recorda que o vinho e outras bebidas alcoólicas integram há séculos a dieta humana. Estrabão, o famoso geógrafo e filósofo grego, falava já do consumo de cerveja e de vinho por parte dos lusitanos, sendo este, mais difícil de obter, particularmente utilizado nas festas.
Ao longo do tempo foi-se estruturando o conhecimento empírico de que o vinho é positivo para a saúde, comenta o professor: “Antigamente as viagens marítimas entre os continentes eram muito difíceis e nelas morriam muitas pessoas. A certa altura, concluiu-se que havia menos mortes nos barcos onde se consumia vinho. Isto deve-se às propriedades anti-sépticas e terapêuticas do vinho. Quando a Inglaterra quis colonizar a Austrália, no início do século XIX, para lá enviou ex-reclusos e médicos (reclusos), que levaram vinho a bordo. A primeira expedição, já preparada em todos os outros aspectos, teve mesmo que esperar por este abastecimento. Esses médicos, chegados à Austrália, trataram de plantar videiras. Algumas das adegas estão ainda hoje na mão dos seus descendentes.”
Nos EUA, também nos fins do século XVIII / princípios do século XIX, terá sido Thomas Jefferson, o terceiro presidente do país, o responsável pelo fomento da vinicultura, conta: “para produzir vinho, pelas suas reais qualidades e numa tentativa de reduzir o consumo de rum e de whisky e assim controlar o uso de bebidas perigosas. Hoje, a Austrália e Califórnia são das regiões tecnologicamente mais avançadas do mundo no que diz respeito à enologia.”
Já no século XX, depois da segunda guerra mundial, a Grécia pediu a investigadores norte-americanos que estudassem os hábitos alimentares do seu povo para melhorar a saúde. Paradoxalmente, em 1952, Ancel e Margaret Key concluíram ser excelente a dieta mediterrânica, de que o vinho faz parte. Em 1974, Klatsky e colaboradores referiram, com surpresa geral, na prestigiada revista médica Annals of Internal Medicine que o consumo das bebidas alcoólicas previne o enfarte do miocárdio. Da mesma forma, em 1991, no programa da CBS “60 minutes”, falou-se do paradoxo francês, detectado por Serge Renault, assinala C. Hipólito-Reis: “Os franceses consumiam muitas gorduras ditas saturadas, de origem animal, e apresentavam uma baixa percentagem de aterosclerose, sendo o efeito atribuído à bebida regular de vinho.”
O professor explica que “o uso do vinho gera um efeito positivo, na medida em que retarda a aterosclerose, ou seja, a formação de ateromas, que decorrem nas paredes arteriais pela acumulação de colesterol e de outras substâncias, e acontecem como um despertar inflamatório que mobiliza os mecanismos imunológicos”. Sabe-se que “as populações que consomem vinho têm uma maior longevidade e uma menor ocorrência de aterosclerose”. Isso “acontece com as bebidas alcoólicas em geral, mas sobretudo com o vinho”, acrescenta.
O professor destaca ainda que “em 1979, se lia na reputada revista de medicina Lancet que as bebidas alcoólicas, em geral, apresentavam benefícios para a saúde”.
Todos estes casos que ao longo do tempo mereceram um olhar mais atento por parte de médicos e de investigadores estão tratados no livro de C. Hipólito-Reis, na medida em que “abriram várias possibilidades de investigação, contrariando uma ciência puritana que a partir do sueco Magnus Huss, no início do século XIX não só negava qualquer benefício ao álcool, mas considerava-o mesmo como o culpado de muitos males da civilização”. O autor, licenciado em Medicina e Cirurgia, é professor de Bioquímica jubilado, da Faculdade de Medicina do Porto, e reconhece que durante muito tempo se fecharam os olhos às mudanças sociológicas que acompanharam o consumo das bebidas alcoólicas, o que tem permitido a construção de muitas falsas teorias que sobre elas fazem cair um ónus indevido.
O professor continua a estudar as inter-relações do vinho, da gastronomia e da saúde, e esclarece que o vinho é um produto muito complexo: “Estão encontradas centenas de substâncias que o compõem. Além do etanol (álcool), possui uma grande quantidade de polifenóis, designadamente de flavonóides e taninos, bem como de ácidos orgânicos.” As propriedades antisépticas de algumas destas substâncias são particularmente conhecidas. Estas e outras substâncias intervêm na prevenção e cura de vários processos patológicos (ver caixa). Entre os problemas em análise está o do cancro da mama. “Sabe-se que há flavonóides que ajudam a equilibrar a formação das hormonas implicadas no crescimento dos tumores”, exemplifica o professor, precisando que os flavonóides são polifenóis (fenol é um derivado hidroxilado do benzeno) e como tal têm propriedades antioxidantes, permitindo retardar o envelhecimento. Da mesma forma, os polifenóis são usados na prevenção e no tratamento de cancro e de múltiplas outras patologias, designadamente vasculares e prostáticas.
Por sua vez, os ácidos orgânicos intervêm no início da digestão, permitindo manter o pH do estômago favorecedor da actividade das enzimas digestivas.

Branco ou tinto?
A presença maior ou menor das diferentes substâncias do vinho ajuda a eleger o mais adequado a cada prato. O que nos remete para outro falso mito relativo ao vinho, segundo o qual o tinto faz bem e o branco faz mal. Certo é que a utilização de um ou de outro está já protocolada nos textos hipocráticos escritos a partir do século IV antes da nossa era… C. Hipólito-Reis clarifica que ambos geram benefícios: “Os corantes do vinho tinto são polifenóis, com maior influência, por exemplo, no combate à aterosclerose. Já os brancos são mais diuréticos, podendo ter um efeito positivo ao nível renal. Os rosados são excelentes vinhos de merenda ou aperitivos. Os verdes possuem uma maior acidez, o que os torna benéficos na digestão de alguns pratos, nomeadamente os minhotos. A inglesa Joanna Simon soube dizer que em Portugal não há problemas com a escolha do vinho: - para comida local, vinho local. O vinho deve equilibrar a refeição, e, em Portugal, cada região gastronómica têm o seu vinho, que empiricamente realiza o equilíbrio desejado.”

viernes, 7 de enero de 2011

Horror meets dance


O género terror não costuma cativar-me ao ponto de pagar bilhete, mas neste caso o tema é suficiente para fazer um desvio de conduta... O realizador, Darren Aronofsky, tem antecedentes promissores (realizou o "Requiem for a Dream") e a crítica aguça o apetite...

miércoles, 5 de enero de 2011

Comércio tradicional

As antigas padarias, forradas de mármore verdadeiro, de bom gosto e higiénico, foram quase todas transformadas em meras revendedoras.
Era assim a da minha antiga rua, um luxo imediatamente à esquerda da porta do meu prédio, que permitia ir ao pão em pijama. Passei lá há pouco tempo e o bom gosto de outrora foi substituído pelas lastimáveis opções de um demasiado "criativo" empreendedor: o espaço passou a ser também café, o que me parece excelente, já que rende mais e mais horas por dia, mas o mármore cedeu lugar a azulejos que mesmo para quarto de banho já seriam feios e o balcão de madeira com tampo de mármore negro foi preterido a favor de uma horrenda arca congeladora balcão.
A da minha actual rua continua intacta, ainda que reduzida nas suas funções. A senhora do pão usa o grande salão vazio onde antes era feito o pão para esconder o aquecedor e o rádio com que se consola durante os muitos minutos de tédio.
Raramente a encontro ao balcão, mas aparece assim que entro. Diz que vê o reflexo no mármore. Hoje perguntei-lhe a que horas abria: "7h15, mas a essa hora quase não aparece ninguém. Também nesta rua quase já só há velhos e casas fechadas."
Entristeceu-me e decidi impingir-lhe aquilo em que acredito: "Olhe que já começam a restaurar muitos desses prédios e começam a vir para cá muitos jovens. Eu estou cá há quatro anos e noto que está a melhorar."
Na verdade está, mas tão, tão lentamente, que dá dó. Como também dá dó ver um espaço como aquela padaria tão vazio e desaproveitado. Poderia ser muito bem o café charmoso da rua! Mantendo o mármore no chão, nas paredes e no balcão.

E para aliviar, também hoje, no restaurante, daqueles criados para almoçar em pouco tempo e com pouco dinheiro e que exibem a ementa do dia na porta, escrita à mão e não raramente com erros ortográficos, num pedaço de papel igual ao que usam como toalha:

Chega uma senhora, na casa dos 50, sozinha, e pede uma mesa. O empregado aponta-lhe a que estava junto à janela e justifica: "As meninas bonitas ficam na montra!"
Conquistou-me!

martes, 4 de enero de 2011

A lei do Oeste


"Quando o lume deixa de arder, o que sobra são apenas cinzas."

Dizia ontem à noite a Vienna para o Johnny Guitar (que afinal era Logan, como o Whisky)

miércoles, 29 de diciembre de 2010

Dulcineia

História da Arte é o curso que irei fazer mais tarde ou mais cedo...Como sou hedonista e não me custa nada ler mais sobre, bisbilhotar sobre, visitar museus, exposições... é um curso que vou fazendo. Os pseudo testes psico-técnicos do nono ano apontavam para aí... Já se sabe que não é difícil condicionar as respostas no sentido dos resultados desejados... Mas, embora gostasse de ser conotada com essa área (devo ter lido demasiado sobre aquarianos), do alto da maturidade dos meus 14/15 anos não me via a trabalhar directamente em Artes e decidi que haveria de seguir saúde. Afinal quisera ser pediatra durante a minha infância (e bailarina), não tinha que fugir à Matemática, a "medicina" parecia ser um bom plano, aplaudido pela família chegada, e a maioria dos meus amigos também ia seguir saúde (esse foi, percebi mais tarde, o fiel da balança, que é como quem diz, o hedonismo e o curto prazo a pesarem mais).

O problema é que me engano muito mal e não foi preciso muito para enfrentar o que já sabia: estava no curso errado. Não queria ser médica coisa nenhuma (a Grey's Anatomy não passava na época!). As minhas disciplinas preferidas eram Português, Inglês e Filosofia (já não tinha Educação Visual) e as notas saíam em conformidade. Uma péssima professora de Matemática e um desajeitado professor de Física e Química, que tornavam obrigatório o fastidioso estudo por conta própria (sempre adorei aulas, mas em casa encontrava sempre melhor maneira de passar o tempo do que a estudar), contribuíram para o meu desinteresse crescente sobre essas matérias. Em contrapartida, rejubilava com a professora de Português (acho que já escrevi sobre a Angélica aqui e se não o fiz, deveria tê-lo feito, já que a Senhora foi determinante no meu percurso), que me incentivava a "mudar de vida". Foi o que fiz e não me arrependo.
Escrever continua a dar-me prazer. Fazê-lo no papel de jornalista permite-me conhecer pessoas, lugares e histórias interessantes (também acho que já escrevi isto algures por aqui, mas eu autorizo-me a ser repetitiva). E mais importante do que tudo o resto: ainda não me lembrei de nada de que gostasse de fazer mais.
Quando surge alguma ameaça nesse sentido vem precisamente do lado das Artes (ia, sem pestanejar, dirigir o gabinete de comunicação de Serralves)...
Poderia ter optado por recordar "The Fallen Madonna With the Big Boobies", que andou de mãos em mãos na saga do "Allo, Allo", mas não resisti à introspecção como prefácio à única notícia que li na totalidade durante a minha ronda pelo mundo de papel digital...
(para quem não partilhar do meu entusiasmo, abrevio: a notícia versa sobre os quadros roubados que mais infrutífero trabalho têm dado à polícia espanhola)
E nunca se sabe, se um dia tropeçaremos num destes...
A polícia espanhola, talvez pouco crente na sua recuperação, colocou-os numa base de dados a que chama Dulcineia!



Adenda: Claro que tenho esperança que alguém em Serralves chegue a este post e decida testar o meu potencial!
E se não chegarem até mim assim, é porque alguém no gabinete de comunicação não está a fazer o trabalho como deveria ;-)
E não, não estou armada em D. Quixote!