viernes, 24 de septiembre de 2010

"Los Angeles", Lisboa, a caminho da aula de flamenco

Semáforo vermelho. Escutava a canção de Antony and the Johnsons que passava a Radar. Olho para a esquerda, para a papelaria dos indianos, e apanho a empregada mais jovem, filha dos donos, do lado de lá do balcão a cozer um lenço de um lindo verde garrafa com bordados cor de prata. Ela levanta as pálpebras pestanudas e sorri-me. É sempre o que fazemos, quando por lá passo a pé e a encontro à porta, como se por estupidez espontânea temêssemos não entender o "olá" na língua de cada uma...

Uns minutos à frente, já era uma música do "Automatic for the people" dos REM que a mesma rádio propunha. Paro porque um grupo de jovens trajados de sapatilhas e calções atravessa a rua a passo de corrida. Fiquei com inveja do jogging deles. Ou antes, do voluntarismo que exibem. Correr é mesmo o desporto mais barato e acessível. Desarma qualquer preguicite disfarçada de desculpa. Depois da inveja, chega-me a consciência pesada. O que me vale é que sou hedonista e, por sorte, gosto de dançar, e danço. Vale-me isso e o autocarro que persigo para me distrair do mea culpa. Pára na diagonal junto à paragem, justamente para impedir que o ultrapasse. Também é certo que quando não o fazem, secam até que algum condutor generoso os deixe voltar a alinhar-se na faixa de rodagem. Típicos ambos os casos. Insulto-o em silêncio, enquanto me ferve o sangue nas veias. Alertam-nos para os perigos de uma alimentação desequilibrada, para a falta de exercício físico, mas esquecem-se que a falta de civismo é muitas vezes o catalisador que falta para o colapso das coronárias.

... Entretanto já estacionei e aguardo que a aula que precede a minha termine. Quase a chegar ao pé de mim, um senhor rosadinho e com andar pouco articulado levanta o dedo indicador até junto dos lábios fechados a pedir-me cumplicidade e, alertado pela música, aponta de seguida para a janela que deixa ver uma nesga da coreografia de flamenco. Quando chega ao pé de mim, ainda me pergunta: "É chinesa ou indiana ela (a professora)?
Respondo-lhe que é portuguesa. Ele muda logo de conversa e, a olhar para a esquina, onde um painel de azulejos anuncia que ali começa a Rua Francisco Lázaro. Diz-me: "Ninguém o parava!" Reparo que no painel está também desenhado um atleta a correr... Googlei o nome e sei agora que Francisco Lázaro era maratonista e morreu dopado, naquela que foi a primeira participação portuguesa nos Jogos Olímpicos, em Estocolmo 1912 (Suécia). A autópsia apontou desidratação e insolação como causas da morte, o que foi relacionado com o facto de ter coberto o corpo com sebo... Mais tarde descobriu-se que foi vítima de "emborcação", uma mistela de essência de terebintina (anestésico) e ácido acético (vinagre), usada como um complemento do treino.

Ainda não sabia disso quando fiquei a especular sobre o triste que talvez se sentisse o senhor rosadinho para recorrer àquele doping - álcool.

lunes, 20 de septiembre de 2010

Tiros no pé

“O modelo cubano nem para nós já funciona”, terá dito Fidel Castro e até admite que o disse, mas logo veio alertar que foi mal interpretado, pois queria significar justamente o contrário. Na verdade custa-me a crer que o Senhor tenha tido um momento de clarividência e se teve, está provado, foi mesmo um momento apenas.
Entretanto o mesmo Fidel anuncia que o Governo vai despedir um milhão de funcionários públicos! E metade é já nos próximos seis meses. Se isto não é dizer por outras palavras, as mais claras, que o modelo cubano não funciona, é o quê então?

Mas tudo isto é perigosamente relativo, como é relativo o sucesso do socialismo sueco, posto em xeque pelo feito dos Democratas (o partido de extrema direita sueco), que conseguiu entrar no Parlamento e eleger 20 deputados. Estamos a falar do partido que terá manifestado intenção de acabar com a forte imigração (mais de 100.000 pessoas ao ano) no país...

O conceito de imigração parece-me obsoleto... Somos todos cidadãos do mundo desde que capazes de respeitar o próximo. Quem vier por bem (leia-se disposto a aceitar as regras de cidadania) deve ser bem recebido. Caso contrário, percebo muito bem que deva ser sancionado, da mesma forma que os nativos... E que eu saiba não exportamos nativos quando eles se portam mal?
Convém é não pegar no assunto da forma trôpega como o está a fazer Sarkozy, arriscando-se a ser ele o sancionado, tal é a sua falta de tacto...
E estamos ou não estamos com problemas de natalidade na Europa? Não seria melhor pensar a sério numa política inclusiva para estes imigrantes em prole do equilíbrio demográfico? O desafio é converter os fora-da-lei em gente de bem? Esse dá muito mais trabalho, pelo que toca a contornar o problema e contornar o problema é o mesmo que ampliá-lo.

E antes que avancem os extremismos, convinha também repensar a educação política e a forma como se ensina História nas escolas.

jueves, 16 de septiembre de 2010

FADO

Na sala ainda se falava quando principiavam a sussurar a guitarra e a viola... Percebemos a ideia e passámos a sussurar também até nos calarmos de vez. Ela pega no xaile negro de franjas longas e coloca-o sobre um ombro apenas, deixando-o descair no outro até à linha da cintura. Volta-se para os seus músicos e segreda-lhes... o nome da música, julgo.

Não nos olha nunca, mas dá a volta à sala com os olhos antes de os fechar e começar a cantar, a contar-nos uma história que nos fala da saudade, da dor do desamor e da ausência...
Compreendo ao ouvi-la que é obrigatório ter sofrido por amor algum dia. É obrigatório para entender boa parte da poesia, boa parte da arte, boa parte da verdade que há quando um artista se dá.
E lembrei-me das palavras que um dia um amigo, amante de Fado, me disse: "É fadista aquele que sente o Fado e não apenas quem o canta e nem sempre quem o canta."

martes, 14 de septiembre de 2010

La vie n' est pas en rose

"Na vida é preciso sempre ter qualquer coisa a que renunciar."

Escolhi o filme pelo título, "Non ma fille, tu n'iras pas danser", e pelo realizador, Christophe Honoré, de quem tinha visto apenas um filme, "Ma mère", daqueles duros de engolir, a doer.
Este não lhe fica atrás. Também nos questiona? Questiona até que ponto é débil o nosso equilíbrio.

jueves, 9 de septiembre de 2010

Eu, mas na versão "fada do lar"

Fada do lar graças aos toques mágicos de varinhas alheias... O Verão não foi rico em deriva geográfica, mas foi generoso em dicas gastronómicas!

... Há cerca de um ano, um italiano quase me batia porque estava a cozinhar massa em calda de estrugido com tomate, ao qual ia acrescentar atum! "Isso nunca, jamais se faz à massa", dizia... Na altura o rapaz irritou-me um bocadinho e não desenvolvemos muito o assunto... Até porque a minha massa preferida, a "massa à lavrador da minha mãe", é cozinhada em mixórdia com couve, feijão e restos da carnes do cozido à portuguesa! E porque não concebo que possa haver limite (a não ser o do bom senso/paladar) para a criatividade gastronómica.
Este Verão voltei à carga com uma prima que já vive em Itália há muitos anos... Explicou-me que por lá a massa é apenas cozinhada em água e sal. Só assim se consegue perceber se é boa, dependendo da viscosidade que deixa na água (ao que percebi, quanto menos viscosa, melhor). Depois é que deve ser misturada com molho e aí é que os italianos gostam de ser criativos. Gostei da explicação e das receitas, o que não me fará prescindir da "massinha à lavrador"...

Já na Corunha, onde tivemos direito a visita guiada feita por um galego encantador, indaguei uma vez mais junto da portuguesa, agora também galega, que é sua mulher, como fazer tortilha, a simples, de batata, ovo e cebola, que é a de que mais gosto... Vou tentar que a coisa não volte a ficar com aspecto de ovos mexidos!

Mas no topo das dicas, coloco as que me deu o dono de um restaurante (recomendado no guia Michelin) que entrevistei em Caminha. Além de já identificar quem é a peixeira de confiança, a que mais percebe do que está a fazer, no mercado da cidade, passei a saber que "o melhor tamboril é o de barriga preta", ao contrário do "branco que não sabe a nada", e que o linguado mais saboroso é o pintarolado (apresenta pintas). Já o robalo e a dourada, não há que enganar: "as escamas devem ter um aspecto colorido e selvagem"!

E lembro-me agora que há uns anos foi um pescador de Vila Praia de Âncora que me explicou que o polvo deve ser congelado antes de cozinhado. Conhecimento que aprofundei em Tavira, onde o especialista local me fez saber que o polvo é dos mais inteligentes seres marinhos que há e é bicho que demora muito a morrer. Por isso é que tem que ser congelado, antes de ir para a panela, para ter tempo de morrer... Ah! E nada de panelas de pressão, que não há dois polvos iguais, pelo que é impossível determinar o tempo de cozedura como se fosse uma regra! É ir picando!

martes, 7 de septiembre de 2010

Como?

Um filme sobre o que mais importa:
Amizade
Ética
Dignidade
Justiça (acima da verdade)
Amor
Humor


Um filme que eu já não esperava ver no cinema porque adiei muito a ida. Surpreendentemente persiste no king e ontem ainda a sala estava bem composta, numa sessão de fim de tarde.