jueves, 16 de septiembre de 2010

FADO

Na sala ainda se falava quando principiavam a sussurar a guitarra e a viola... Percebemos a ideia e passámos a sussurar também até nos calarmos de vez. Ela pega no xaile negro de franjas longas e coloca-o sobre um ombro apenas, deixando-o descair no outro até à linha da cintura. Volta-se para os seus músicos e segreda-lhes... o nome da música, julgo.

Não nos olha nunca, mas dá a volta à sala com os olhos antes de os fechar e começar a cantar, a contar-nos uma história que nos fala da saudade, da dor do desamor e da ausência...
Compreendo ao ouvi-la que é obrigatório ter sofrido por amor algum dia. É obrigatório para entender boa parte da poesia, boa parte da arte, boa parte da verdade que há quando um artista se dá.
E lembrei-me das palavras que um dia um amigo, amante de Fado, me disse: "É fadista aquele que sente o Fado e não apenas quem o canta e nem sempre quem o canta."

martes, 14 de septiembre de 2010

La vie n' est pas en rose

"Na vida é preciso sempre ter qualquer coisa a que renunciar."

Escolhi o filme pelo título, "Non ma fille, tu n'iras pas danser", e pelo realizador, Christophe Honoré, de quem tinha visto apenas um filme, "Ma mère", daqueles duros de engolir, a doer.
Este não lhe fica atrás. Também nos questiona? Questiona até que ponto é débil o nosso equilíbrio.

jueves, 9 de septiembre de 2010

Eu, mas na versão "fada do lar"

Fada do lar graças aos toques mágicos de varinhas alheias... O Verão não foi rico em deriva geográfica, mas foi generoso em dicas gastronómicas!

... Há cerca de um ano, um italiano quase me batia porque estava a cozinhar massa em calda de estrugido com tomate, ao qual ia acrescentar atum! "Isso nunca, jamais se faz à massa", dizia... Na altura o rapaz irritou-me um bocadinho e não desenvolvemos muito o assunto... Até porque a minha massa preferida, a "massa à lavrador da minha mãe", é cozinhada em mixórdia com couve, feijão e restos da carnes do cozido à portuguesa! E porque não concebo que possa haver limite (a não ser o do bom senso/paladar) para a criatividade gastronómica.
Este Verão voltei à carga com uma prima que já vive em Itália há muitos anos... Explicou-me que por lá a massa é apenas cozinhada em água e sal. Só assim se consegue perceber se é boa, dependendo da viscosidade que deixa na água (ao que percebi, quanto menos viscosa, melhor). Depois é que deve ser misturada com molho e aí é que os italianos gostam de ser criativos. Gostei da explicação e das receitas, o que não me fará prescindir da "massinha à lavrador"...

Já na Corunha, onde tivemos direito a visita guiada feita por um galego encantador, indaguei uma vez mais junto da portuguesa, agora também galega, que é sua mulher, como fazer tortilha, a simples, de batata, ovo e cebola, que é a de que mais gosto... Vou tentar que a coisa não volte a ficar com aspecto de ovos mexidos!

Mas no topo das dicas, coloco as que me deu o dono de um restaurante (recomendado no guia Michelin) que entrevistei em Caminha. Além de já identificar quem é a peixeira de confiança, a que mais percebe do que está a fazer, no mercado da cidade, passei a saber que "o melhor tamboril é o de barriga preta", ao contrário do "branco que não sabe a nada", e que o linguado mais saboroso é o pintarolado (apresenta pintas). Já o robalo e a dourada, não há que enganar: "as escamas devem ter um aspecto colorido e selvagem"!

E lembro-me agora que há uns anos foi um pescador de Vila Praia de Âncora que me explicou que o polvo deve ser congelado antes de cozinhado. Conhecimento que aprofundei em Tavira, onde o especialista local me fez saber que o polvo é dos mais inteligentes seres marinhos que há e é bicho que demora muito a morrer. Por isso é que tem que ser congelado, antes de ir para a panela, para ter tempo de morrer... Ah! E nada de panelas de pressão, que não há dois polvos iguais, pelo que é impossível determinar o tempo de cozedura como se fosse uma regra! É ir picando!

martes, 7 de septiembre de 2010

Como?

Um filme sobre o que mais importa:
Amizade
Ética
Dignidade
Justiça (acima da verdade)
Amor
Humor


Um filme que eu já não esperava ver no cinema porque adiei muito a ida. Surpreendentemente persiste no king e ontem ainda a sala estava bem composta, numa sessão de fim de tarde.

lunes, 6 de septiembre de 2010

Amor/Ódio ao mar

De tal forma estavam fartos do mar que construíram as casas de costas para ele. Talvez não seja caso isolado, este, dos pescadores da Corunha, mas foi o primeiro de que tive conhecimento. Foi "a dica" de que mais gostei, a que mais me intrigou, da lista de obrigatório ver e saber que me passaram as minhas colegas galegas, sabendo que eu planeava uma visita à cidade delas.
Logo me lembrei dos meus amigos mais atlânticos, que na serrana Covilhã penavam e faziam questão de anunciar o quanto penavam por ficarem semanas sem pôr a vista no"seu" mar.

Eu, insensível, nasci em Matosinhos e não renego o pedaço de mar a que tenho direito, mas não sou muito dada à saudade com cheiro de maresia. Pelo contrário, senti-me logo cúmplice destes pescadores, fartos do mar com quem contracenavam muito mais do que o contemplavam. Talvez por ter passado loooooooongas tardes de domingo enfiada no banco traseiro do carro, com os meus pais, a ouvir o relato de futebol e a olhar para o mar... Como me pesava ser filha única nesse tempo. As casinhas dos pescadores lá estavam, encantadoras. Se tinham mau aspecto as tais traseiras, os galegos tratararam de as cobrir com umas charmosas vidraças brancas quadriculadas, todas iguais (nada que possa ser confundido com o mau gosto português de tapar varandas, seja nas frentes, seja nas traseiras, cada uma com um material mais feio que a outra... No mesmo prédio podem ser vistos alumínios e vidraças de meia dúzia de cores diferentes! Assim, como se fosse um catálogo), que reflectem a luz da marina. Anoitecer por ali amortiza um ano de tardes no banco traseiro do Renault 16, a olhar o mar de Matosinhos... Quem pousa em A Coruña não vislumbra qualquer ressentimento em relação ao mar (é mais fácil encontrá-lo na costa portuguesa). Reconciliaram-se e tiram partido dele da melhor maneira, seja através do circuito de eléctrico (azul) que acompanha a linha de água, seja pelos canhões, que assinalam o estratégico que era/é o posicionamento da Corunha em tempo de guerra, integrados agora no parque de lazer do Monte de São Pedro, pavimentado de erva verdinha e dada ao rebolanço... Seja ainda, no extremo oposto da cidade, pela obrigatória cruzada ao mais antigo farol romano em actividade. Há quanto tempo já se "contemplava" o mar! Voltarei a A Coruña para melhor lhe conhecer as entranhas.

miércoles, 1 de septiembre de 2010

Cegos na cidade da luz

À falta de vontade para teclar em causa própria, toca a citar a vizinhança... O alfaiate costurou um interessante artigo sobre a ligação paradoxal que os lisboetas têm com a sua cidade e aproveitou para divulgar o festival Out Jazz...

Os dados que evoca (e tem o cuidado de explicar que são especulações suas) dizem respeito sobretudo a Lisboa, mas o registo comportamental (especulo eu também) é válido para o resto do país, um país de sol, muito sol. Estas considerações, que não devem afastar-se muito da realidade, deveriam fazer pensar autarcas, comerciantes, agentes culturais e, claro, os cidadãos!

E sinto-me com legitimidade para o sermão porque tento remar contra esta maré, fartando-me de ouvir negas! com desculpas tão esfarrapadas como "cansaço laboral", a mais frequente apesar de ser a que menos justifica legitimamente a vontade de ficar em casa... Já dizia uma antiga professora minha "descansar é mudar de actividade e não forçosamente fazer nada"...

De outra forma, como prega o alfaiate:

"Um londrino passa o dobro do tempo que um lisboeta nos parques da sua cidade.

Só no centro histórico de Tallin há mais 23 esplanadas que em Lisboa e toda a sua área metropolitana.

A percentagem de executivos suecos que usa fatos de linho é o dobro da dos executivos portugueses.

Os habitantes de Dublin sorriem, em média, mais 2,43 vezes por dia que os lisboetas.

Em média, um guarda-roupa duma madrilena tem mais 4 mini-saias que o de uma lisboeta

Em pleno Dezembro, há cerca de mais 5.000 ciclistas nas ruas de Riga que nas nossas avenidas.

Entre 21 de Dezembro 21 de Março um milanês, em média, junta-se 7 vezes mais com os seus amigos depois do trabalho que um lisboeta (essa mesma relação, entre 22 de Março e 20 de Junho, dispara para 11 para 1)

A probabilidade de um lisboeta experimentar, a partir das 17h de Domingo, um sensação de apatia aguda ou leve depressão por não conseguir tirar da cabeça a ideia de que terá que trabalhar no dia seguinte é 9 vezes superior à dum berlinense.

Por ano, realizam-se 3 vezes mais concertos ao ar livre em Bruxelas que em Lisboa.

Um adolescente moscovita tem 3,5 vezes mais lata para abordar a miúda que mora na rua da frente com quem se cruza diariamente enquanto ambos passeiam seus cães que um adolescente lisboeta (sabendo-se que este último, apesar de ter a jogar a seu favor uma probabilidade 7 vezes inferior de estar a chover e 23 de estar um frio de rachar, prefere tentar encontrá-la no Facebook)"

martes, 31 de agosto de 2010

! e !

Cheguei há pouco da sorna e tenho andado a vasculhar o que se se disse, o que se escreveu e publicou na minha "ausência"...

Para a posteridade (a minha) gravo a entrevista de um português de que me orgulho ao El Pais: José Mourinho

e um artigo fantástico da Rita Ferro sobre os predicados e os delitos dúbios da fidelidade e da infidelidade.