martes, 10 de agosto de 2010

O pântano em que se movem as certezas absolutas

O problema é a multiplicidade de cinzentos que esticam o caminho entre o branco e o preto.
Admito que quando olhei para esta capa da Time condenei-a imediatamente e condenei o jogo que faz com este título. Condenei o "nós" que adoptaram os responsáveis editoriais da revista. Indiscutivelmente eu teria optado pela terceira pessoa.
Mas depois li o artigo disponível na edição online e lá vieram os cinzentos minar o meu julgamento a preto e branco...
É fácil a comparação com a edição da National Geographic que também colocou uma mulher menina afegã na capa. Duas mulheres num país onde ser mulher é um risco acrescentado à dificuldade que representa lá viver por estes e naqueles dias.

Aisha, a menina da Time, ficou neste estado, alegadamente, à custa do marido. Fugiu a tempo de garantir a sobrevivência. Diz a Time que Aisha foi recolhida por uma organização humanitária e será submetida a uma cirurgia reconstrutiva nos EUA. A revista pega na história de Aisha para questionar o que vai acontecer se os EUA retirarem as suas tropas do Afeganistão.
No site há também um vídeo da sessão de fotografias que permitiu chegar a esta capa. Considero demasiada a exposição que solicitaram à Aisha. Por outro lado foi precisamente o vídeo que me esclareceu. Estava a ser difícil não pensar no vampiresco desejo de vender à custa da polémica imediatista que uma imagem assim sugere...
É uma foto estudada e só possível com a cumplicidade da jovem. Eu não conheço Aisha, mas também é credível que ela queira expor-se ao mundo para que o mundo, ou alguém intervenha a favor dela e a favor dos direitos da mulher no Afeganistão. Se os EUA ficam ou não pode não ser a chave para que estes direitos sejam acautelados, mas o alheamento internacional não o é certamente.
Imagino que talvez tenham tido dúvidas os editores da Time, como confessaram ter tido os editores do primeiro jornal que publicou a foto do homem que caiu (forçou-se a cair) de uma das torres gémeas a 11 de Setembro de 2001... Há quem tente até hoje descobrir a identidade do homem e há até hoje famílias doridas que não perdoam os que publicaram a imagem. Mas a questão é que ela impede mais que qualquer outra que nos esqueçamos.

Esse é também o argumento em defesa do Museu que no Ground Zero irá garantir a memória daqui a 100 anos, quando os contemporâneos do 11/set já cá não estiverem...

E é também um pouco isso que me faz escrever aqui: questionar no futuro até que ponto eram a preto e branco as minhas certezas absolutas...

Mesmo sem coreto...

Não me certifiquei, mas os ponteiros do relógio da recentemente restaurada Torre, que nos abre a porta para a folia nocturna das noites de Verão na Rua Direita, deveriam andar perto das 4 horas... e também não me certifiquei, mas qualquer termómetro que por ali andasse deveria marcar um valor não muito longe dos 40 graus, mesmo à sombra de todos os guarda-sóis de serviço na praça de Caminha. Estavam quase todas as mesas ocupadas, o que é frequente nas tardes soalheiras. Menos normal era que todas as cadeiras se voltassem para o mesmo lado, o do palco onde tocava a Sociedade Musical Banda Lanhelense.
E que bem nos soube escutar o que se esperava de uma banda quando chegámos... Desse repertório, mais convencional, já não tivemos tempo de ouvir muito... Logo fizeram um pequeno intervalo para trocar a folha de pauta, descolar a camisa das costas e sossegar a garganta, que a sede só poderia ser muita... E começa um novo bloco: um medley de Xutos e Pontapés que põe muitos a bater o pezinho e outros, mais aventureiros, a tentar cantarolar os temas. Terminou da melhor maneira, com a minha preferida dos Xutos: Contentores...
Reportório inteligente para seduzir novos fãs e provavelmente novos músicos, como que a dizer que as bandas já não são o que eram porque "o passado foi lá trás"!

PS: O concerto integra a programação das Festas de Caminha! Mais uma bela ideia esta de pôr a banda a tocar, assim, ao ar livre, na praça, como se lá houvesse um coreto...

jueves, 5 de agosto de 2010

"Taxi driver"

Os taxistas conhecem milhares de pessoas, o que por si só os torna pessoas potencialmente interessantes, já que podem assim sugar conhecimentos das "fontes" que vão transportando, observar comportamentos, às vezes, como se quase não estivessem ali, escutar conversas que são tidas como se eles fossem surdos...
Enfim, acho-lhes piada e muitas vezes sabe-me bem aquele paleio com fim anunciado.

Há uns tempos, um português foi para Nova Iorque conduzir um taxi e depois registou em livro algumas das conversas que teve... Não cheguei a lê-las, mas a ideia é bastante inspiradora...

Muitas das minhas conversas com taxistas começam pelo futebol, o que acontece geralmente quando joga um dos clubes portugueses nas competições europeias, e daí é um saltinho para o perspicaz "a menina é do Norte, nota-se" ou o desatento com pretensões de lisonja "já deve cá estar há muito tempo, que já perdeu a pronúncia" e daí desenrola a história da vida dele, de onde veio, que nem sempre foi taxista, que tem uma filha que também é jornalista, e que transportou já fulano e que "a Simone de Oliveira é assim mesmo, uma simpatia, uma mulheraça" e que "a Madonna andava de jipe com o marido e com os filhos, quando veio a Lisboa, a passear como qualquer pessoa"... E o fado, que muitos têm a rádio Amália sintonizada, um excelente piscar de olhos aos turistas, e gostam muito e percebem de fado... E outros que reclamam do estado desalmado em que Lisboa se pôs, com prédios seculares a gritar por socorro, como se desconfiassem que esse tema me dispõe para tagarelice tempo suficiente para fazer a volta a Portugal de taxi! Mais que ninguém, estão atentos às mudanças. O novo buraco na rua, a última inovação de desvio de trânsito! E são críticos. Muito. Candidato a presidente de CML com dois palmos de testa deveria conversar com taxistas, de preferência clandestinamente, para colher mais verdade do exercício...

Anteontem (desconfio que nunca tinha escrito esta palavra antes!)nem fui eu que comecei a conversa: "Já esteve em Porto Santo?" E eu respondi que lamentavelmente não, mas que iría um dia certamente. "Parece o deserto (no que ele afirma de calma e de infinitude, pensei eu), só tem praia e é linda", comentou, aconselhando-me a que fosse mesmo. E continuava para me dizer que tinha lido que já estavam a estudar a criação de cosméticos com base na areia e na água do Porto Santo, que alegadamante terá poderes curativos. "Que bom que aproveitem o que temos de bom", dizia e lembrou-me que "já se chegou a vender aquela água para os EUA", mas "era uma pequena empresa" e "razões políticas", as quais não teve tempo de precisar porque eu cheguei ao meu destino, "impediram que se continuasse a comercializar a água"...
Um manancial dans le taxi!

miércoles, 4 de agosto de 2010

O que diz Rita

Entrei nesta bola de cristal

Ausência

Orgulho-me de Ti quando ganhas e quando perdes.
Sobretudo quando perdes.
Sabes que é maior a vitória dos que sabem perder. E Tu sabes, porque logo Te prontificas para reiniciar a luta, ou mudar de luta. Sim. É sempre de vitória essa Tua atitude.

Tenho fingido que não me atormenta que estejas longe.
Não sei se finjo por mim, se finjo para mim,
se o faço por Ela, para Ela,
ou por Ti, para Ti.
Quando ouço o nome desse país que Te alugou,
quando leio sobre ele,
instala-se em mim um certo mal-estar,
não sei se é na barriga, se é no peito ou na garganta.
Doi-me assim a Tua ausência.
Claro que não quero falar sobre isso.
Não é do Teu feitio,
nem do meu,
o que herdei de Ti.

lunes, 2 de agosto de 2010

O amor é:

"No Japão não dizemos amo-te em voz alta, mas... se me dissessem que teria que morrer pela minha mulher e pelos meus filhos, fá-lo-ia. Acho que é isso o amor."

Seis realizadores partiram pelo mundo e perguntaram "o que é o amor?"
Esta é uma das cinco mil respostas que registaram num documentário, que conclui o óbvio, tantas vezes esquecido: somos seis milhões de seres iguais quando as borboletas nos tomam de assalto a barriga... e mesmo depois delas pousarem, quando o amor é dos que sobrevive e amadurece...

A RTP2 passa algumas das respostas de tempos a tempos.

martes, 27 de julio de 2010

Sinais de fogo

Cinzas. Era a isso que cheirava com e mesmo sem a janela aberta. As cinzas que pareciam mirar-se ao espelho, tal era a cor do céu. E era também de cinzas que falavam os noticiários de meia em meia hora: 12 incêndios activos e 600 bombeiros a tentar travá-los.
The same old story.
Há muitos anos, na saudosa Grande Reportagem, já se denunciava o como e o porquê. Fazia-se o diagnóstico e prescrevia-se a receita de cura. Diagnóstico várias vezes repetido. Receita parcialmente adoptada. Como os antibióticos que não se tomam até ao fim...
A reflorestação continua a primar pela desorganização. Aquela imagem das florestas alinhadas quase geometricamente, de solos arejados, não nos pertence ainda, o que facilita a vida dos que as querem ver a arder.

Remoía isto tudo enquanto seguíamos o caminho que apelidámos de "o caminho das cegonhas". E lá estavam elas, empoleiradas nos ninhos que montaram nas "pontes" metálicas que sustêm as tabuletas azuis de sinalização das estradas, como estão sempre, aparentemente indiferentes ao tráfego, que, diga-se, é reduzido. Ainda não se paga neste troço de auto-estrata que compete com a A1, mas que quase toda a gente, generosamente, faz questão de ignorar, contribuindo para o sossego dos que por lá passam... Na volta foi construída em abono do aumento da taxa de natalidade das cegonhas!?

De repente anoitecia e detrás de um arvoredo ainda esquecido, mostra-se-nos a Lua Cheia. Mais alaranjada do que dourada, atrevida, num céu cinzento...
A máquina fotográfica estava na mala do carro e fingi que não sabia que fotografar a Lua Cheia, mesmo com uma boa objectiva, é quase sempre registar uma bolinha minúscula, infiel à original. Saquei do telemóvel e Tu, mesmo sem eu te pedir, cúmplice da minha ilusão, chegas-nos para a faixa da esquerda, favorecendo o meu ângulo, como que a dizer-me "agora, dispara agora!"

Destes sinais eu gosto.