Depois de o Presidente da República checo ter dito que no lugar de Portugal (com um défice de 8%, quase 9%), estaria muito preocupado (o da Rep. Checa está nos 5%), o nosso Presidente achou por bem relativizar e em resposta escudou-se nas estimativas que apontam para 2012 um défice português inferior ao checo! Naquela de o meu mercedes é maior que o teu, mas está para arranjar!
Várias vezes entrevistei estrangeiros com um denominador comum, ou seja, apontam a Portugal a mesma crítica: os portugueses lidam mal, muuuuuuuuuito mal com as críticas, sobretudo quando elas são justificadíssimas!
O senhor Presidente achou por bem descansar-nos com as estimativas, as mesmas que sustentam o PEC proposto pelo Governo, o mesmo que, em ano de eleições, avançou com estimativas, que se revelaram demasiado optimistas face à realidade!
martes, 20 de abril de 2010
martes, 13 de abril de 2010
esquecer-me de mim
Ver o estado físico dos arrumadores de carros foi a mais eficaz campanha de sensibilização contra o consumo de heroína.
Foi mais ou menos isso que disse a Lena D'Água numa entrevista ao Carlos Vaz Marques, na TSF...
Uma entrevista que acabou assim:
Foi mais ou menos isso que disse a Lena D'Água numa entrevista ao Carlos Vaz Marques, na TSF...
Uma entrevista que acabou assim:
Passos que já deveríamos ter dado
Na política a escolha é bem mais difícil do que no futebol... enfim, é tramada a escolha, sobretudo quando não se vislumbram hipóteses elegíveis!
Nem sequer entre esquerda e direita, quanto mais entre os partidos com crises de identidade (PS e PSD), anacrónicos (PCP), aproxenetados (BE) ou simplesmente inconcebíveis enquanto opção (CDS/PP)...
Dito isto e não estando a acompanhar com particular entusiasmo a montada do Pedro Passos Coelho, devo dizer que me agradam duas das suas tiradas. Qualquer coisa como: se uma empresa se está a revelar um fracasso, então que desapareça depressinha para não estorvar quem quer ser produtivo! E qualquer coisa como: toca a pôr a trabalhar quem recebe os apoios sociais (excepção para os que são dados como inaptos)! Há por aí muita mata por limpar, país para despoluir, terreno por cultivar e afins!
E mais! Também acho que é altura de revermos a Constituição e torná-la mais flexível ao ponto de não ter que ser invocada como empecilho sempre que se tenta mudar coisas urgentes como por exemplo diminuir o número de deputados!
E mais ainda, começo a inclinar-me a favor da regionalização também!
E eu não sou das que acha que falar (ou escrever) é fácil! Se fosse não se ouvia tanto disparate em sede imprópria! Concordo que executar é mais difícil ainda!
A ver...
Nem sequer entre esquerda e direita, quanto mais entre os partidos com crises de identidade (PS e PSD), anacrónicos (PCP), aproxenetados (BE) ou simplesmente inconcebíveis enquanto opção (CDS/PP)...
Dito isto e não estando a acompanhar com particular entusiasmo a montada do Pedro Passos Coelho, devo dizer que me agradam duas das suas tiradas. Qualquer coisa como: se uma empresa se está a revelar um fracasso, então que desapareça depressinha para não estorvar quem quer ser produtivo! E qualquer coisa como: toca a pôr a trabalhar quem recebe os apoios sociais (excepção para os que são dados como inaptos)! Há por aí muita mata por limpar, país para despoluir, terreno por cultivar e afins!
E mais! Também acho que é altura de revermos a Constituição e torná-la mais flexível ao ponto de não ter que ser invocada como empecilho sempre que se tenta mudar coisas urgentes como por exemplo diminuir o número de deputados!
E mais ainda, começo a inclinar-me a favor da regionalização também!
E eu não sou das que acha que falar (ou escrever) é fácil! Se fosse não se ouvia tanto disparate em sede imprópria! Concordo que executar é mais difícil ainda!
A ver...
miércoles, 7 de abril de 2010
Estranho a Grécia
Não me lembro do templo de Zeus, mas ainda tenho na memória a vista do Partenon. Dali parece que Atenas rebenta pelas costuras.
E rebenta, pelo menos rebentava a meio da década de 90, em ziguezague, sem passadeiras ou linhas brancas a direccionar o asfalto, os atenienses e os outros que vão a Atenas à procura das raízes.
Depois de me passar uma birra quase inconfessada por não ter ido mais para Leste, consolei-me com a ideia de que se era para começar a descobrir a Europa, que fosse pelas origens da civilização ocidental. Grécia e Itália estavam assim justificadas enquanto destinos de interail.
Ontem voltei à Grécia, à boleia da SIC...
Kolonaki square, a praça do luxo e das vaidades, dizia o taxista, que se queixava dos maus políticos gregos e da preguiça do povo.
Tanto que temos em comum... O fardo da função pública, até o facto da ditadura grega ter caído um mês antes da nossa...
Andam agora os gregos atiçados nas ruas a lutar por melhores condições sociais, deserdados da crise que já não é financeira, nem meramente económica. Em países como Portugal e Grécia nunca deixou de ser social. Formigas na hora da revolta, cigarras a prevenir as causas que a inflamam.
"Somos a primeira geração que sabe que vai viver pior que os nossos pais", dizia a arqueóloga, disposta a ser sindicalista por um ano (curiosa esta ideia)!
Às vezes fico entalada entre o conhecer mais e o conhecer pela primeira vez, entre o que não conheço e o que quero compreender melhor...
Acho que entendi mal Atenas quando lá estive e não me contento por não ter gostado da cidade. Tem que ser muito mais do que eu absorvi... Quero lá voltar e quero dar-lhe uma segunda oportunidade.
E rebenta, pelo menos rebentava a meio da década de 90, em ziguezague, sem passadeiras ou linhas brancas a direccionar o asfalto, os atenienses e os outros que vão a Atenas à procura das raízes.
Depois de me passar uma birra quase inconfessada por não ter ido mais para Leste, consolei-me com a ideia de que se era para começar a descobrir a Europa, que fosse pelas origens da civilização ocidental. Grécia e Itália estavam assim justificadas enquanto destinos de interail.
Ontem voltei à Grécia, à boleia da SIC...
Kolonaki square, a praça do luxo e das vaidades, dizia o taxista, que se queixava dos maus políticos gregos e da preguiça do povo.
Tanto que temos em comum... O fardo da função pública, até o facto da ditadura grega ter caído um mês antes da nossa...
Andam agora os gregos atiçados nas ruas a lutar por melhores condições sociais, deserdados da crise que já não é financeira, nem meramente económica. Em países como Portugal e Grécia nunca deixou de ser social. Formigas na hora da revolta, cigarras a prevenir as causas que a inflamam.
"Somos a primeira geração que sabe que vai viver pior que os nossos pais", dizia a arqueóloga, disposta a ser sindicalista por um ano (curiosa esta ideia)!
Às vezes fico entalada entre o conhecer mais e o conhecer pela primeira vez, entre o que não conheço e o que quero compreender melhor...
Acho que entendi mal Atenas quando lá estive e não me contento por não ter gostado da cidade. Tem que ser muito mais do que eu absorvi... Quero lá voltar e quero dar-lhe uma segunda oportunidade.
miércoles, 31 de marzo de 2010
Viver é mais que preciso
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Fernando Pessoa
e ainda outro poema...
"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
Fernando Pessoa
e ainda outro poema...
martes, 30 de marzo de 2010
Os cinco
A Maria quis pôr-nos a falar de livros, dos livros de que mais gostámos, dos que mexeram connosco...
A Anita começou por ser para mim "o livro do sapo"... Conheci-o em casa da minha Tia Alice, que frequentava quase todos os sábados, muito antes de saber que sons desenhavam as letras. Tanto a minha madrinha como a minha prima Paula tinham vários "sapos"... De cada vez que assaltava a estante da sala de estar e abria um desses livros encontrava o meu amigo sapo e outros animais que forravam o papelão duro interior da capa e da contracapa dos livros da Anita antigos... São os primeiros livros de que tenho memória e provavelmente por eles comecei a gostar da ideia de ler. A minha madrinha tratou de me saciar esse apetite pela leitura, ao ritmo de um livro por mês, assim que eu comecei a ler e que ela começou a trabalhar. Foi sem qualquer dúvida a pessoa que mais livros me ofereceu na vida: os livros da Anita, da Patrícia...
Destaco o "Anita no Ballet" por ter sido lido vezes sem conta, por ver repetidamente aquelas posições, por treinar a partir delas, por ter decidido que queria aprender ballet também por elas, por depois ter percebido o tanto que gostava de dança e por ser a dançar que passo dos melhores momentos da minha vida!
Voltas a ser tu a culpada deste madrinha ;) Foste tu que me emprestaste "O Diário de Annne Frank". Eu teria talvez uns 12, 13 anos... e era com esta capa velhinha das Edições Brasil... Adorei na altura. Acho que me marcou como nenhum outro livro me viria a marcar: porque era a história da descoberta da adolescência de uma menina mulher numa altura em que eu também estranhava essa passagem, que tanto me questionava sobre ela; porque foi um contacto tão real com a História, o meu primeiro relatado na primeira pessoa. Uma História tão recente, tão vergonhosa e tão elucidativa e desmitificadora do bom senso e da bondade humana. Fiz questão, quando estive em Amesterdão, de conhecer os cantos e contornos do espaço que serviu de esconderijo e casa a Anne, à sua família e ao amiguinho Peter, antes de ser apanhada pela polícia e acabar num campo de concentração. E faço questão de lá levar os filhos que eventualmente venha a ter. E isso é uma promessa, como prometo motivá-los para a leitura deste diário.
Uma vez escrevi que este era o livro que gostaria de ter escrito, de tal maneira a poesia se encontra com a prosa nesta história, mas é mentira! Na verdade não quereria tê-lo escrito. Não mais. Sobre a história de amor, esta, nem sou capaz de escrever. Seria sempre pouco e desajustado.
Por que nã0? A proposta deste livro faz-nos pensar até que ponto somos capazes de amar apenas uma pessoa de cada vez, se sentimos desejo por tantas outras ao longo da vida e muitas vezes em simultâneo. Somos todos capazes de ser sacanas se formos devidamente postos à prova? Estamos apenas presos por um código de conduta, que não discutimos, não aprovámos, nem reprovámos? Aceitámo-lo tacitamente, quase só porque sim.
Penso num livro português de que tivesse gostado particularmente e este sai quase sempre entre os primeiros na minha cabeça. Coloca problemas semelhantes aos colocados em "Três Sereias". Defende o amor. Atiça-se contra os preconceitos. Um grande livro é também aquele que nos coloca a torcer pelo que habitualmente não torceríamos. Troca-nos as voltas, rasga caminhos novos. Fechada a última página, somos mais pessoa.
A Anita começou por ser para mim "o livro do sapo"... Conheci-o em casa da minha Tia Alice, que frequentava quase todos os sábados, muito antes de saber que sons desenhavam as letras. Tanto a minha madrinha como a minha prima Paula tinham vários "sapos"... De cada vez que assaltava a estante da sala de estar e abria um desses livros encontrava o meu amigo sapo e outros animais que forravam o papelão duro interior da capa e da contracapa dos livros da Anita antigos... São os primeiros livros de que tenho memória e provavelmente por eles comecei a gostar da ideia de ler. A minha madrinha tratou de me saciar esse apetite pela leitura, ao ritmo de um livro por mês, assim que eu comecei a ler e que ela começou a trabalhar. Foi sem qualquer dúvida a pessoa que mais livros me ofereceu na vida: os livros da Anita, da Patrícia...Destaco o "Anita no Ballet" por ter sido lido vezes sem conta, por ver repetidamente aquelas posições, por treinar a partir delas, por ter decidido que queria aprender ballet também por elas, por depois ter percebido o tanto que gostava de dança e por ser a dançar que passo dos melhores momentos da minha vida!
Voltas a ser tu a culpada deste madrinha ;) Foste tu que me emprestaste "O Diário de Annne Frank". Eu teria talvez uns 12, 13 anos... e era com esta capa velhinha das Edições Brasil... Adorei na altura. Acho que me marcou como nenhum outro livro me viria a marcar: porque era a história da descoberta da adolescência de uma menina mulher numa altura em que eu também estranhava essa passagem, que tanto me questionava sobre ela; porque foi um contacto tão real com a História, o meu primeiro relatado na primeira pessoa. Uma História tão recente, tão vergonhosa e tão elucidativa e desmitificadora do bom senso e da bondade humana. Fiz questão, quando estive em Amesterdão, de conhecer os cantos e contornos do espaço que serviu de esconderijo e casa a Anne, à sua família e ao amiguinho Peter, antes de ser apanhada pela polícia e acabar num campo de concentração. E faço questão de lá levar os filhos que eventualmente venha a ter. E isso é uma promessa, como prometo motivá-los para a leitura deste diário.
Uma vez escrevi que este era o livro que gostaria de ter escrito, de tal maneira a poesia se encontra com a prosa nesta história, mas é mentira! Na verdade não quereria tê-lo escrito. Não mais. Sobre a história de amor, esta, nem sou capaz de escrever. Seria sempre pouco e desajustado.
Por que nã0? A proposta deste livro faz-nos pensar até que ponto somos capazes de amar apenas uma pessoa de cada vez, se sentimos desejo por tantas outras ao longo da vida e muitas vezes em simultâneo. Somos todos capazes de ser sacanas se formos devidamente postos à prova? Estamos apenas presos por um código de conduta, que não discutimos, não aprovámos, nem reprovámos? Aceitámo-lo tacitamente, quase só porque sim.
Penso num livro português de que tivesse gostado particularmente e este sai quase sempre entre os primeiros na minha cabeça. Coloca problemas semelhantes aos colocados em "Três Sereias". Defende o amor. Atiça-se contra os preconceitos. Um grande livro é também aquele que nos coloca a torcer pelo que habitualmente não torceríamos. Troca-nos as voltas, rasga caminhos novos. Fechada a última página, somos mais pessoa.lunes, 29 de marzo de 2010
Lx Factory
Empurrei a porta, rodei a maçaneta e nada! Não cedia! O vidro era meio espelhado, daqueles que nos obrigam a esbugalhar os olhos para descobrir o que está do outro lado... Desta, como de outras vezes, corei assim que descobri que do outro lado havia mesmo gente, que sem qualquer esforço viam a minha figura!
Um cavalheiro resistiu à graça e veio em meu socorro. Perguntei-lhe se a cafetaria estava a funcionar, visto que me parecia uma reunião de staf... Não era e ele já não resistiu à troça. "Não sei, só vim abrir a porta", disse enquanto me piscava o olho. Percebi que havia gente a pedir ao balcão e entrei, agradecendo a "gentileza"...
Do outro lado do vidro não se via a escadaria que dava, aparentemente, para a zona de refeições. No piso térreo só havia duas mesas. Uma estava ocupada com o que julgara ser o staf e a outra passou a ser minha. Também não se ouvia do outro lado do vidro a voz aconchegante do Chico Buarque, com quem apetecia fazer coro.
As paredes eram pretas e altas. De uma delas sobressaiam utensílios de cozinha do IKEA, vermelhos e metalizados, numa lógica propositadamente caótica, desmascarada por um olhar mais atento.
A cafetaria estava alinhada com o lugar, provocava, pelo insólito, pela estética pensada, a combinar com o dress code dos clientes, que pareciam dizer: trabalhamos em empresas criativas, não andamos aqui pela indiferença e comunicámo-lo activamente.
Era assim o lugar, um parque de empresas voltadas para a criação, que se juntam mais ou menos aleatoriamente, ou talvez não, talvez por contágio... Mas não somos todos criativos, seja lá qual for o papel que desempenhamos? Pois, mas refiro-me aos convencionalmente criativos, o que até soa paradoxal.
Sentei-me. Faltava ainda uma hora para a minha reunião. Alinhavei a agenda, os papéis, pensei na nova semana que começara, organizei-a e organizei-me. Pensei que deveria fazer este exercício mais vezes. Senti-me pronta.
Não serviam à mesa. Pedi um café cheio ao balcão. Da coluna, ao lado da caixa registadora, cantava Caetano. "... eu aqui e ele lá..." O empregado colocou um pacote de açúcar no pires, enquanto esperava pelo cair do café. Eu ia dizer-lhe que tomava sem açúcar, mas reparei que era um pacote Nicola e não resisti à curiosidade. No pacote que me saiu lia-se "Um dia chove, no outro dia faz sol". Deleguei a sorte: deixei lá o pacote!
Um cavalheiro resistiu à graça e veio em meu socorro. Perguntei-lhe se a cafetaria estava a funcionar, visto que me parecia uma reunião de staf... Não era e ele já não resistiu à troça. "Não sei, só vim abrir a porta", disse enquanto me piscava o olho. Percebi que havia gente a pedir ao balcão e entrei, agradecendo a "gentileza"...
Do outro lado do vidro não se via a escadaria que dava, aparentemente, para a zona de refeições. No piso térreo só havia duas mesas. Uma estava ocupada com o que julgara ser o staf e a outra passou a ser minha. Também não se ouvia do outro lado do vidro a voz aconchegante do Chico Buarque, com quem apetecia fazer coro.
As paredes eram pretas e altas. De uma delas sobressaiam utensílios de cozinha do IKEA, vermelhos e metalizados, numa lógica propositadamente caótica, desmascarada por um olhar mais atento.
A cafetaria estava alinhada com o lugar, provocava, pelo insólito, pela estética pensada, a combinar com o dress code dos clientes, que pareciam dizer: trabalhamos em empresas criativas, não andamos aqui pela indiferença e comunicámo-lo activamente.
Era assim o lugar, um parque de empresas voltadas para a criação, que se juntam mais ou menos aleatoriamente, ou talvez não, talvez por contágio... Mas não somos todos criativos, seja lá qual for o papel que desempenhamos? Pois, mas refiro-me aos convencionalmente criativos, o que até soa paradoxal.
Sentei-me. Faltava ainda uma hora para a minha reunião. Alinhavei a agenda, os papéis, pensei na nova semana que começara, organizei-a e organizei-me. Pensei que deveria fazer este exercício mais vezes. Senti-me pronta.
Não serviam à mesa. Pedi um café cheio ao balcão. Da coluna, ao lado da caixa registadora, cantava Caetano. "... eu aqui e ele lá..." O empregado colocou um pacote de açúcar no pires, enquanto esperava pelo cair do café. Eu ia dizer-lhe que tomava sem açúcar, mas reparei que era um pacote Nicola e não resisti à curiosidade. No pacote que me saiu lia-se "Um dia chove, no outro dia faz sol". Deleguei a sorte: deixei lá o pacote!
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