domingo, 14 de marzo de 2010

Hola, qué tal?!... na terra das morcillas

"Abrochese el cinturón mientras esté sentado"
Foi o que fiz. A hospedeira da Iberia perguntou-me se queria o EL País, o ABC ou o DN. Pedi o El País, mas apenas o folheei. Não resisti a fechá-lo. Não havia nem uma nuvem. Tudo azul. Desta vez não me esqueci de pedir um lugar à janela, porém não me lembrei de pedir longe da asa! Fiquei duas janelas antes dela, o que me recortava a vista e me obrigava a olhar para trás. Assim mesmo estive de olhos pregados ao Tejo acastanhado e à mais ou menos caótica geometria dos campos, à medida que nos afastávamos de Lisboa. Se fosse uma fotografia, ao primeiro olhar, poderia parecer mármore com manchas de verdete!
Acho que sobrevoámos a Serra da Estrela... Ou isso, ou era uma cordilheira de montes caulinos...? Ainda tentei, sem sucesso, descobrir a minha Covilhã...
Já a chegar a Madrid, as formas surgiam mais organizadas. Em vez do verde que rodeava Lisboa, viam-se pontinhos alinhados num manto castanho. Pomares, provavelmente!
Em Barajas esperava-me uma folha de papel A4 com o nome do evento que me levava a Burgos. Iría ter dois companheiros nipónicos e um espanhol na viagem de carro até Burgos. E neve, muita! Que na véspera tinha sido dia de nevão! As árvores luziam, de tal forma a neve, que lhes pousara nos ramos nus, desafiava o Sol... Os japoneses babavam!
Duas horas depois entrávamos em Burgos. Já lá tinha estado num desvio fugaz, numa viagem a Barcelona. A catedral, que visitei no último dos três dias em que estive na cidade, dá fama a Burgos. Não sou grande entusiasta da arte sacra, mas gosto do que sinto quando entro numa grande igreja. Talvez seja pelo espaço que costumam ter estes espaços, pelo silêncio... A visita valeu sobretudo por um retrato de Madalena atribuído a um dos discípulos do Leonardo da Vinci. Um nu!
Com a catedral rivalizam em notoriedade as morcilhas. São protagonistas de muitas das vitrines nas lojas da zona mais antiga da cidade. Arrumadinha numa das margens do rio, esta metade mais velha da cidade é encantadora. Ruas de pedra, sem passeios desnivelados (o que a mim me parece bem), privilegiando os passeios a pé. Edifícios antigos, mas em bom estado, exemplarmente recuperados e aparentemente habitados, a julgar pela ausência de indicações de venda ou de aluguer. E dezenas de plátanos (ou seriam castanheiros?) podados, enfileirados, muito perto uns dos outros. Tanto que alguns ramos uniram a sua seiva à do vizinho, formando uma forte ramada. Várias pontes ligavam a zona mais antiga à outra margem do rio, onde estava a "cidade nova", que pouco conheci. Y qué bien que vive la gente. E que bem me soube viver à espanhola durante uns dias e conhecer os japonenes, que sorriam a toda a hora, e o polaco, que se colou a mim porque só falava alemão e mais ninguém o entendia. Acho que nenhum dos dois estava à espera de ser capaz de trocar tantos galhardetes, com um nível tão mauzito de alemão...
E também fiquei a saber mais sobre a Estónia, através de uma simpática jornalista natural desta ex-república soviética, onde não se fala russo, mas sim uma língua mais parecida com o finlandês. Entendemo-nos muito bem, mas em inglês!
Já com um arménio, que nasceu em França, filho de refugiados, pude arejar o francês, que está muito empoeirado na minha memória.
E agucei mais a minha curiosidade sobre Chicago, através de um casal norte-americano. Deve ser juntamente com Nova Iorque das cidades mais cosmopolitas do mundo. "Depois da Grécia, é lá que há mais gregos", diziam-nos, acrescentando que isso é válido para outras nacionalidades também... Já me tinha interessado a cidade, quando a vi numa exposição sobre a obra de Le Corbusier... E por lá não faltam obras de arquitectos badalados...
Que bom é viajar assim também, conhecendo gente de outras paragens... E a próxima é Istambul, vedeta do Câmara Clara, esta noite, e capital da cultura, este ano...
Em 2016, será Burgos!

As morcillas passaram com distinção no controlo do aeroporto... Já estão em segurança no frigorífico... Mas de Burgos fica muito mais do que o sabor das morcillas...

lunes, 8 de marzo de 2010

pim, pam, pum

Como se não importassem os porquês, às vezes não perguntamos por não saber o que fazer com as respostas. Com as respostas que fendem, com as que definem, com as que excluem...
Por falta de jeito para as certezas absolutas, também se mingam as dúvidas.

jueves, 4 de marzo de 2010

Saias!







Obrigada Marc Jacobs por teres feito uma colecçãozinha a pensar em mim... Saias, saias e mais saias e vestidos também. Tudo decente e abaixo do joelho, evasé, como eu gosto...




Já é o meu estilista preferido.









miércoles, 3 de marzo de 2010

O homem do leme (ahoy!)

Ignoro a identidade dos três pescadores mortos na barra de Caminha, nem sei como se chamam os dois que sobreviveram, mas quando ouvi a notícia esta manhã na TSF pensei no António.
O António é pescador e fazia uns biscates no Verão na doca de Seixas, que é como quem diz, transportava os turistas até aos barcos, ou levava-os à ilha no rio Minho.
Há e havia mais gente a fazer isso, mas suspeito que todos nós, sem combinar, simpatizámos mais com o António. É verdade que ele nos "subornava" com a banda sonora do FCP a bordo, apesar de ser sportinguista convicto, mas é mais do que isso... O António parece-se com um pescador ou com a ideia que eu construí dos pescadores. E nem é tanto pelo desembaraço, nem pelas rugas calejadas pelo sol... É mais pela dignidade, que nele é como um carimbo...

jueves, 25 de febrero de 2010

Espásmico

E o óscar para o melhor casting do ano vai para...


Macabro! Acabo de descobrir que foi por fatalidade que se juntaram no mesmo filme Heath Ledger, Jude Law e Johnny Depp... O primeiro morreu antes das filmagens terminarem e os outros foram chamados, juntamente com Colin Farrel (deveria ter sido o Gael Garcia), para o substituir, em inventadas transformações da personagem...

Dias de chuva

"Sou exactamente aquilo que pareço,... se olhares com cuidado."

A single man poderia ser um filme sobre a beleza, sobre como a beleza, por vezes, nada tem de relativo, não oxida e é consensual... Porque Tom Ford está provavelmente habituado a tratá-la por tu... Educou o olhar para a reconhecer e construir. Cada imagem deste filme de estreia do estilista parece ter sido pensada para ser beleza, a estética e a outra, a das coisas belas que a vida proporciona! E é aí que o filme deixa de ser apenas sobre a beleza para balizar o pessimismo e o optimismo, na justa medida de se perceber a beleza da vida.
Também poderia ser um filme sobre a perda, sobre a morte. E também é. "Acordar dói muito ultimamente"... "Só quero que o presente acabe depressa".

Porém, "A vida vale a pena por aqueles momentos em que conseguimos establecer uma conexão com alguém" ou pelos outros em que "o silêncio afoga o ruído e deixamos de pensar para apenas sentir"... e, de repente, tudo passa a fazer sentido.

E vale também por músicas assim como esta, que integra a fantástica banda sonora do filme:

lunes, 22 de febrero de 2010

A culpa é também nossa

Nunca pus os pés na Madeira, desconheço verdadeiramente como era a Madeira há uma semana.
Mas daqui a muitos anos, se voltar a este blogue e se reler o que estou a escrever, gostaria de pensar que os que sobraram da tragédia (nós), fizeram o que podiam para evitar a sua reedição.
Hoje ouvi um geólogo na TSF falar da vulnerabilidade das pessoas, de tal forma estavam mal preparadas para reagir e de tal forma se expuseram ao perigo... Falava da ausente cultura de prevenção, nas escolas, nas conversas entre amigos e de família... Se pensarmos no início da coisa, é de facto a falta de civismo o nosso calcanhar de Aquiles: somos deficientemente educados para exigir responsabilidades a quem de direito, para, na hora de comprar ou alugar casa, pensar até que ponto estamos a ser cúmplices de atentados urbanísticos...
Sempre que há uma tragédia, sempre que morrem pessoas, vítimas da irresponsabilidade, renasce a discussão sobre o desordenamento do território, sobre a irresponsabilização dos técnicos, dos autarcas, dos governantes e da sociedade civil (de tão passiva)...

Estamos a fazer bem menos do que podemos. Eu estou...