jueves, 24 de septiembre de 2009

Conversas improváveis II

Pensa ela:
Estou mais madura e mais bonita...
Estamos de acordo quanto a isto, não estamos?
Então porque te esqueces continuamente de mo recordar?
... Eu alertei-te! Disse-te logo que queria ser tratada como uma princesa. E isso era para sempre, não era só até fazeres de mim a tua rainha...
De pouco me servem a coroa e as vénias mais ou menos calibradas que me fazes, animado pelo hábito.
Prefiro que me faças a corte, do que ter por garantido o trono.
Um dia destes distrais-te e ainda me dás um beijo na bochecha, ou pior, encostas-me só a tua.
Esqueces-te de que tenho boca e adormeces-lhe a vontade de encontrar a tua!
E conta que nunca te direi nada disto. Conto que o adivinhes.

Na paragem de autocarro

Posso evitar as horas de ponta na paragem de autocarro, pelo que consigo, quase sempre, um lugar sentado no banco que, quase sempre, partilho com senhores e ou senhoras que nasceram nas primeiras décadas do século passado... E são deliciosas as conversas que por vezes escuto e em que outras vezes participo...
Hoje calhou-me um casalinho. Ele, muito distinto, munido de bengala e chapéu de ar tropical. Ela, bem enfeitada, colorida, com o cabelo geometricamente penteado.
Ajustei-me a um canto para cabermos os três.
- Obrigada menina! É que tenho mesmo que me sentar com este calor. É que já são 84 anos.
Cabia-me observar que estava muito bem. E estava. E foi o que fiz.
- Olhe que subo todos os dias as escadas até ao quinto andar! Se calhar é por isso que estou assim!
Entra o senhor em campo: - Estás assim porque eu te trato bem!
Ela confirma com a cabeça: - Não preciso jogar na lotaria! Já tirei o primeiro prémio! (Nessa altura fiquei sem perceber se estava a ser irónica?!)

Entretanto chega o nosso 726. Ele não lhe cede a passagem! Faz bem melhor do que isso: sobe antes e estende-lhe a mão para a içar depois. E ainda de mão dada, guia-a até ao banco e certifica-se de que ela se senta sem sobressaltos!
Relembro que o senhor usava bengala!
Um doce!
Fiquei a pensar no bem que este senhor faz à saúde desta senhora...

martes, 22 de septiembre de 2009

Conversas improváveis I

Ele não respondeu, mas pensou. Habituara-se às palavras mudas, julgava-se capaz de comunicar dessa forma, considerava um despropósito verbalizar o que a inquestionável intuição feminina poderia decifrar. Recusava-se a baixar a fasquia.
Gostava de disciplinar as ideias, de as alinhar como quem se prepara para a barra de um tribunal. Argumentava fortemente consigo próprio, para não ousar vacilar e travar qualquer vertigem que se pusesse a caminho, a galope da vontade.

lunes, 21 de septiembre de 2009

Conversas improváveis I

Ela diz-lhe:
- Sinto-me na corda bamba e desconfio que me desiquilibro só porque sei que estou a caminhar sem rede. Sabes? Temo inflamar o atrevimento e rejeito a toda a hora a injecção de coragem com que a tua presença me ameaça. Sabes? É como se a sanidade me aleijasse as dúvidas em que me embalo.

miércoles, 16 de septiembre de 2009

O complexo de mariposa

Há palavras que se escondem em casulos.
Há palavras que gritam de tão seguras, isoladas como num estúdio de rádio com o microfone fechado.
Invioláveis essas palavras que procuramos, deambulando, de casulo em casulo, insensatos e enfeitiçados na inércia do sentido...
Arriscamos adivinhar, mas não arriscamos muito porque preferimos também nós construir casulos onde guardamos as palavras, outras palavras ou as mesmas, que não ousamos libertar...

E pronto: acabadinha de inventar a razão para eu gostar tanto de borboletas, como se não me bastassem aquelas cores vadias que repousam entre voos coreografados...
Efémeras, as palavras fora dos casulos também vivem pouco tempo, fazem sentido durante pouco tempo...

miércoles, 9 de septiembre de 2009

What else!?

Qualquer coisa como isto:

"- Então o que pode ajudar a forjar o afecto?
- A dança, mesmo que o parceiro seja sofrível..."

De "Orgulho e preconceito" da Jane Austen

miércoles, 2 de septiembre de 2009

Paula Rego



Gosto das pinceladas brutas da Paula Rego, das cores sem cerimónia, gosto do misto de força e fragilidade da figura feminina. E gosto muito deste baile ao luar, tão ambíguo. Gosto das "bebedeiras de azul" alugadas ao António Gedeão...

E não tarda abre em Cascais o museu Paula Rego. Que bom que não deixámos de prestigiar a pintora e de nos prestigiar através dela.