Posso evitar as horas de ponta na paragem de autocarro, pelo que consigo, quase sempre, um lugar sentado no banco que, quase sempre, partilho com senhores e ou senhoras que nasceram nas primeiras décadas do século passado... E são deliciosas as conversas que por vezes escuto e em que outras vezes participo...
Hoje calhou-me um casalinho. Ele, muito distinto, munido de bengala e chapéu de ar tropical. Ela, bem enfeitada, colorida, com o cabelo geometricamente penteado.
Ajustei-me a um canto para cabermos os três.
- Obrigada menina! É que tenho mesmo que me sentar com este calor. É que já são 84 anos.
Cabia-me observar que estava muito bem. E estava. E foi o que fiz.
- Olhe que subo todos os dias as escadas até ao quinto andar! Se calhar é por isso que estou assim!
Entra o senhor em campo: - Estás assim porque eu te trato bem!
Ela confirma com a cabeça: - Não preciso jogar na lotaria! Já tirei o primeiro prémio! (Nessa altura fiquei sem perceber se estava a ser irónica?!)
Entretanto chega o nosso 726. Ele não lhe cede a passagem! Faz bem melhor do que isso: sobe antes e estende-lhe a mão para a içar depois. E ainda de mão dada, guia-a até ao banco e certifica-se de que ela se senta sem sobressaltos!
Relembro que o senhor usava bengala!
Um doce!
Fiquei a pensar no bem que este senhor faz à saúde desta senhora...
jueves, 24 de septiembre de 2009
martes, 22 de septiembre de 2009
Conversas improváveis I
Ele não respondeu, mas pensou. Habituara-se às palavras mudas, julgava-se capaz de comunicar dessa forma, considerava um despropósito verbalizar o que a inquestionável intuição feminina poderia decifrar. Recusava-se a baixar a fasquia.
Gostava de disciplinar as ideias, de as alinhar como quem se prepara para a barra de um tribunal. Argumentava fortemente consigo próprio, para não ousar vacilar e travar qualquer vertigem que se pusesse a caminho, a galope da vontade.
Gostava de disciplinar as ideias, de as alinhar como quem se prepara para a barra de um tribunal. Argumentava fortemente consigo próprio, para não ousar vacilar e travar qualquer vertigem que se pusesse a caminho, a galope da vontade.
lunes, 21 de septiembre de 2009
Conversas improváveis I
Ela diz-lhe:
- Sinto-me na corda bamba e desconfio que me desiquilibro só porque sei que estou a caminhar sem rede. Sabes? Temo inflamar o atrevimento e rejeito a toda a hora a injecção de coragem com que a tua presença me ameaça. Sabes? É como se a sanidade me aleijasse as dúvidas em que me embalo.
- Sinto-me na corda bamba e desconfio que me desiquilibro só porque sei que estou a caminhar sem rede. Sabes? Temo inflamar o atrevimento e rejeito a toda a hora a injecção de coragem com que a tua presença me ameaça. Sabes? É como se a sanidade me aleijasse as dúvidas em que me embalo.
miércoles, 16 de septiembre de 2009
O complexo de mariposa
Há palavras que se escondem em casulos.
Há palavras que gritam de tão seguras, isoladas como num estúdio de rádio com o microfone fechado.
Invioláveis essas palavras que procuramos, deambulando, de casulo em casulo, insensatos e enfeitiçados na inércia do sentido...
Arriscamos adivinhar, mas não arriscamos muito porque preferimos também nós construir casulos onde guardamos as palavras, outras palavras ou as mesmas, que não ousamos libertar...
E pronto: acabadinha de inventar a razão para eu gostar tanto de borboletas, como se não me bastassem aquelas cores vadias que repousam entre voos coreografados...
Efémeras, as palavras fora dos casulos também vivem pouco tempo, fazem sentido durante pouco tempo...
Há palavras que gritam de tão seguras, isoladas como num estúdio de rádio com o microfone fechado.
Invioláveis essas palavras que procuramos, deambulando, de casulo em casulo, insensatos e enfeitiçados na inércia do sentido...
Arriscamos adivinhar, mas não arriscamos muito porque preferimos também nós construir casulos onde guardamos as palavras, outras palavras ou as mesmas, que não ousamos libertar...
E pronto: acabadinha de inventar a razão para eu gostar tanto de borboletas, como se não me bastassem aquelas cores vadias que repousam entre voos coreografados...
Efémeras, as palavras fora dos casulos também vivem pouco tempo, fazem sentido durante pouco tempo...
miércoles, 9 de septiembre de 2009
What else!?
Qualquer coisa como isto:
"- Então o que pode ajudar a forjar o afecto?
- A dança, mesmo que o parceiro seja sofrível..."
De "Orgulho e preconceito" da Jane Austen
"- Então o que pode ajudar a forjar o afecto?
- A dança, mesmo que o parceiro seja sofrível..."
De "Orgulho e preconceito" da Jane Austen
miércoles, 2 de septiembre de 2009
Paula Rego

Gosto das pinceladas brutas da Paula Rego, das cores sem cerimónia, gosto do misto de força e fragilidade da figura feminina. E gosto muito deste baile ao luar, tão ambíguo. Gosto das "bebedeiras de azul" alugadas ao António Gedeão...
E não tarda abre em Cascais o museu Paula Rego. Que bom que não deixámos de prestigiar a pintora e de nos prestigiar através dela.
martes, 1 de septiembre de 2009
Sinal proíbido
"Queria ter vivido de outra forma, mas deixei-me invadir por coisas que me são estranhas... Tenho a impressão de que a vida que levo nao corresponde à minha verdadeira natureza... Sinto que não mudei, mas deixei de o conseguir provar aos outros..."
Do filme "Ma mère" de Christophe Honoré, numa adaptação de um livro de Georges Bataille. Uma aposta de Paulo Branco e de Isabelle Huppert, a tal.
Sobre os desejos que tememos, os que ultrapassam os princípios que nos habituamos a respeitar... Os do filme podem não ser os nossos (não são de quase ninguém, acredito), mas seguramente que todos temos vontades com as quais não queremos lidar.
"O desejo torna-nos fracos", diz-se no filme.
Do filme "Ma mère" de Christophe Honoré, numa adaptação de um livro de Georges Bataille. Uma aposta de Paulo Branco e de Isabelle Huppert, a tal.
Sobre os desejos que tememos, os que ultrapassam os princípios que nos habituamos a respeitar... Os do filme podem não ser os nossos (não são de quase ninguém, acredito), mas seguramente que todos temos vontades com as quais não queremos lidar.
"O desejo torna-nos fracos", diz-se no filme.
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