martes, 14 de abril de 2009

Para exorcizar o sonho

Esta coisa da terra mexer mexe um bocadinho comigo também.
Na semana passada mexeu em Itália, onde já tinha mexido há uns anos, mesmo no Verão em que eu fiz o Interrail e andei a brincar ao esconde-esconde com os tremores de terra (que aconteciam no Sul quando eu estava no Norte de Itália e vice-versa). Em 1755 também mexeu em Lisboa e paira sempre a ameaça de que pode mexer outra vez, a qualquer momento. E se mexer?
Tenho um desejo perverso (daqueles de que não deveria nem falar, mas falo porque acho que assim o exorcizo) de que mexa mesmo. Que mexa mesmo e que me resolva o problema que muito bem me diagnosticou um médico há uns anos numa consulta "estranha" de medicina no trabalho. Conversámos durante muito tempo, como se ele quisesse radiografar parte da minha alma, e a certa altura, inesperadamente, dispara uma pergunta que soava a sentença: "Lida muito mal com a perda, não lida?" Foi mais ou menos como se ele tivesse accionado o "botão de fazer chorar" e ao mesmo tempo escondesse o "botão de fazer um buraquinho no chão para eu desaparecer num instante" porque eu juro que não o encontrei...
O tremor de terra dos meus sonhos (deveria chamar-lhes pesadelos) resolvia-me este meu problema. De uma assentada desaparecíamos todos juntos: eu e as pessoas que eu não quero perder... Para ser perfeito isto aconteceria daqui a muitas décadas, na altura em que é digno desaparecermos todos...

PS: Curiosamente quando andava à procura de casa para comprar, cheguei a perguntar se a construção era anti-sísmica e como me poderia certificar de tal. Vi as expressões faciais mais espantadas nessa fase das conversações, como se estivesse a perguntar se a casa estava preparada para acolher marcianos. As respostas (ausência delas) foram bastante preocupantes e eu comprei casa na mesma sem qualquer garantia de que a construção (de 1980) é anti-sísmica. Acresce que as seguradoras não incluem a modalidade "sismos" nos seguros de habitação. Essa modalidade requer um seguro específico e chorudo que ainda não fiz....

lunes, 13 de abril de 2009

Outro ensaio sobre outra cegueira

Quando procurava o "Vamos ao circo" dos Sitiados, apanhei este vídeo, com uma das minhas músicas preferidas dessa banda.

A letra vale mesmo assim a seco. *

«e ela cega
e ela sabe
ai onde vai

e ela cai
mas ao cair
finge-se cega

e ela entrega
sente o fundo
de quem a tem

e ela vem
sem que alguém
sinta chegar

e ela dor
deixa-te só
faz-te chorar
ela ensina
ela engana
ai a saudade

e o desejo
de mais um beijo
tocar a mão

e se ela existe
ela resiste
mesmo se os olhos
dizem que não
ela insiste
espera em vão
mas ela é vida
triste a vida
sem ela»

* mas ganha com a música e com a voz de fado roqueiro que o João Aguardela tinha.

Senhoras e senhores! Meninas e meninos!

Torço sempre pelo artista!
Quando sinto mesmo à distância que treme, quando dá quase tudo e quando não consegue dar quase nada...

De cada vez que o malabarista deixou cair as massas (acho que se chamam assim) no chão, torci por ele. Estava, talvez, num dia menos bom... daqueles em que nem o suor faz render.

A penúltima vez que fui ao circo não tinha mais do que 10 anos. Desde essa altura as doses XXL de circo televisivo pelo Natal têm-me convencido de que não sou lá grande fã do "maior espectáculo do mundo"... Mas ontem alinhei no programa familiar e dei ao circo a três dimensões uma nova oportunidade...
A tenda era bem mais pequena do que a minha memória me deixava imaginar, mas estava quentinha!
O espectáculo abriu com as feras, demasiado amansadas, que se arrastavam pela arena como se contassem chicotadas para adormecer! Mais tarde apareceram uns elefantes igualmente molengões e com ar de quem está com muuuuuuuuitas saudades de África! Que era onde eles deveriam estar...
Do resto do espectáculo até gostei... mais do que esperava! Foi muito digno!
Enquanto torcia pelo malabarista, para que não voltasse a deixar cair as massas, pensava em quanto do tempo dele era passado com aqueles objectos mais ou menos traiçoeiros... e em como nos movem objectivos tão diferentes e formas de estar tão distantes... e lembrei-me de um menino que estudou comigo algumas semanas na Primária: estava de passagem (vivia de passagem) com a família circense de que fazia parte. Acho agora que ele era tímido, apesar de muito assediado por todos nós. Convidou-nos para o espectáculo em que fazia de palhaço pobre e onde já não parecia nada tímido... Foi talvez, até àquela altura, o artista mais jovem que eu vi actuar. E foi o primeiro por quem eu me lembro de ter torcido a sério.

A recordar: "Vamos ao circo" dos Sitiados

martes, 7 de abril de 2009

!!!!!

"Percebi onde era o quarto, nas traseiras, num sítio de acesso proibido, empoleirei-me na vespa - que aquilo ainda era um primeiro andar - e estiquei o braço, por baixo da janela da enfermaria." Foi assim que durante cinco dias Helena adormeceu, de mão dada com o marido. Que, enfim, depois dela ter alta, foi ele próprio internado, com uma pneumonia.

Os protagonistas desta história, publicada no artigo "Borboletas na barriga", na revista Única, de 4 de Abril de 2009, têm mais de 70 anos.
A minha foto preferida do Robert Doisneau. Pode ter sido encenada (orquestrada), mas é uma bela metáfora de amor!

lunes, 6 de abril de 2009

É isso sem tirar nem pôr

"Continuamos a divertir-nos com o acto de criar. Não conseguiria viver sem aquele momento final, do 'está feito', criado. Conseguiria viver sem tudo o resto (inerente ao facto de pertencer aos U2), mas disto é muito difícil de prescindir."

Estas foram as palavrinhas do baterista dos U2, Larry Mullen, para tentar explicar a sensação de criar...

As profissões mais viciantes são as que envolvem doses generosas de criatividade...

sábado, 4 de abril de 2009

Sensação de viver

Depois de já ter apanhado o novo anúncio da Coca Cola linkado a umas dezenas de blogues, de perceber que só no You Tube já foi descarregado mais do que 156 mil vezes (a internet é um suporte barato e dá milhões) e de o ter visto agorinha mesmo pela primeira vez na televisão, concluo que não vou passar a beber Coca Cola (porque não gosto), mas vou passar a respeitar um bocadinho mais a marca.
Não me vou esquecer das acusações à Coca Cola de atropelos aos direitos humanos e éticos, mas tiro o chapéu aos responsáveis pela comunicação da marca. Porquê? Porque fizeram duas coisas que eu valorizo: passaram uma mensagem moralizadora de optimismo e simultaneamente de humanismo, de respeito pela vida e pelos que a viveram mais do que nós.
As crianças enternecem quase toda a gente. É fácil. Os animais também o conseguem facilmente. Agora os velhos, os que já cá andam há algum tempo, furam a carapaça de poucos. Algures no percurso deixam de ser respeitados e inspiram pouca ternura.
O filme da Coca Cola reabilita de forma lamechas (e ainda bem porque assim é mais eficiente) esse respeito e a ternura pelos que viveram mais...
A velhinha Coca Cola já não precisa de notoriedade, precisa de amor, de angariar simpatia... Eu mordi o isco direitinho!