"O tango é o primeiro sorriso depois de atravessar um mar de lágrimas"
Escutei esta frase numa entrevista da TSF a Horácio Ferrer, poeta argentino e presidente da Academia do Tango de Buenos Aires, e escrevia-a no meu caderninho da época... entretanto o caderninho teve que ser substituído várias vezes, mas todos eles abrem com esta frase...
Também li ou ouvi algures que o tango é uma discussão de apaixonados sem palavras, ou talvez tenha sido eu a achar isso...
Gosto de tango porque sim.
Este tango ganhou um prémio no festival STOP Motion
martes, 31 de marzo de 2009
lunes, 30 de marzo de 2009
Benfica
Verde. Verde por todo o lado.
Quase todos os verdes do mundo parecem ter marcado encontro por ali, àquela hora.
Escuta-se a água a cavar carreiros encosta abaixo e os pássaros que não identifico palrando indiferentes a mim.
Acordar assim deixa-me tonta... tanta pureza, tanta Natureza desordena-me o pensamento, como se tivesse bebido um balde de café.
Mesmo sem intenção, mesmo sem obedecer à ordem cerebral, começo a inspirar mais profundamente e dou-me conta disso e fico ainda mais tonta.
Como se perdesse o controlo... Tanta Natureza obriga-me a readaptar as minhas rotinas, mesmo as que não considero rotinas, e a questioná-las... a agir muito mais do que a pensar e eu sempre achei que preferia ao contrário, mas talvez assim seja mais libertador, mais compensador...
Fico desconfortavelmente comovida com o Benfica... persegue-me para todo o lado, pára quando paro e mira-me nos olhos, vence depressa a minha antipatia pelo nome que lhe deram, mendiga a minha companhia e agradece com um vagaroso movimento de pálpebras, se lhe afago o pêlo...
Conhecemo-nos há minutos e já somos cúmplices... Ele desconfia que não costumo estar muito à vontade com os da espécie dele, mas suspeita que eu não saberia resistir à meiguice de quem me segue sem se impor, de quem parece estar pronto a acompanhar-me só porque gosta de estar comigo...
Contaram-me a história deste Benfica: o dono, com quem dividia a casa, adoeceu de velhice e foi-se embora da aldeia. Foi para casa dos filhos em Lisboa e o Benfica não foi convidado... Ficou a guardar a casa na Malhada e vai comendo o que os poucos habitantes que como ele permanecem na aldeia lhe oferecem.
Parece triste o Benfica, ou sou eu que fico triste quando olho para ele. A Natureza já não o deixa tonto como me deixa a mim e parece importar-se pouco por estar rodeado de quase todos os verdes do mundo... Resiste numa aldeia camuflada pelo esquecimento dos que lá nasceram, dos que lá viveram e principalmente dos que, como eu, nunca a perceberam.
Quase todos os verdes do mundo parecem ter marcado encontro por ali, àquela hora.
Escuta-se a água a cavar carreiros encosta abaixo e os pássaros que não identifico palrando indiferentes a mim.
Acordar assim deixa-me tonta... tanta pureza, tanta Natureza desordena-me o pensamento, como se tivesse bebido um balde de café.
Mesmo sem intenção, mesmo sem obedecer à ordem cerebral, começo a inspirar mais profundamente e dou-me conta disso e fico ainda mais tonta.
Como se perdesse o controlo... Tanta Natureza obriga-me a readaptar as minhas rotinas, mesmo as que não considero rotinas, e a questioná-las... a agir muito mais do que a pensar e eu sempre achei que preferia ao contrário, mas talvez assim seja mais libertador, mais compensador...
Fico desconfortavelmente comovida com o Benfica... persegue-me para todo o lado, pára quando paro e mira-me nos olhos, vence depressa a minha antipatia pelo nome que lhe deram, mendiga a minha companhia e agradece com um vagaroso movimento de pálpebras, se lhe afago o pêlo...
Conhecemo-nos há minutos e já somos cúmplices... Ele desconfia que não costumo estar muito à vontade com os da espécie dele, mas suspeita que eu não saberia resistir à meiguice de quem me segue sem se impor, de quem parece estar pronto a acompanhar-me só porque gosta de estar comigo...
Contaram-me a história deste Benfica: o dono, com quem dividia a casa, adoeceu de velhice e foi-se embora da aldeia. Foi para casa dos filhos em Lisboa e o Benfica não foi convidado... Ficou a guardar a casa na Malhada e vai comendo o que os poucos habitantes que como ele permanecem na aldeia lhe oferecem.
Parece triste o Benfica, ou sou eu que fico triste quando olho para ele. A Natureza já não o deixa tonto como me deixa a mim e parece importar-se pouco por estar rodeado de quase todos os verdes do mundo... Resiste numa aldeia camuflada pelo esquecimento dos que lá nasceram, dos que lá viveram e principalmente dos que, como eu, nunca a perceberam.
viernes, 27 de marzo de 2009
Depois da tempestade vem... o dia mundial do teatro
O Dia Mundial de Teatro é hoje, mas eu sou das que comemoro a véspera: fui ver a "Tempestade" do Shakespeare pela Cornucópia e saí de lá com vontade de ligar ao S. Pedro!!! (bem precisamos daqueles relâmpagos).
O texto é poético e filosófico, com passagens cheias de humor sobre as nossas fraquezas, sobre as falhas de carácter, sobre a redenção, sobre a capacidade de moralizar, sobre o poder, sobre o amor, sobre a amizade, sobre a vingança, sobre como libertar o espírito, sobre nós todos... e nós todos não éramos muito diferentes no início do século XVII, quando a peça foi escrita...
E amanhã é dia de ilusão
miércoles, 25 de marzo de 2009
Dias felizes
Vou escrever enquanto estou sob o efeito do Sol...
Uma das vantagens de não ter subsídio de Natal (leia-se: trabalhar a recibos verdes) é poder numa tarde soalheira como a de hoje ceder à preguiça e ir passear para a Baixa de Lisboa...
Ao contrário do Porto que é charmoso mesmo em dias de nevoeiro (fica mais medieval e misterioso...), Lisboa precisa de Sol, de luz para melhor se revelar...
Andei a vaguear pela cidade e hoje até nem reparei que a Baixa pombalina já precisava de um novo Marquês... estava quase perfeita... cheia de gente contente em várias línguas de contentamento, nas esplanadas, nas ruas, a fotografar monumentos e detalhes e sorrisos... estrangeiros a convencerem-nos de que temos tanta coisa boa e que pouco apreciamos... porque passamos tempo demais em casa, no trabalho, passamos tempo demais ao lado da vida e sem perceber que a vida nos anda a passar ao lado...
Ainda tentei recrutar outras alminhas para se juntarem a mim numa esplanada e aproveitar a cidade até ser noite... mas nem toda a gente se pode dar assim à má (boa) vida...
Apanhei o 28 e vim para casa. No eléctrico tive direito a lugar à janela, que estava toda aberta, escancarada para a vida...
PS: Paula, acho mesmo que deves imprimir e deixar cair acidentalmente o papelito! Anda por aí muuuuita gente distraída!!
Uma das vantagens de não ter subsídio de Natal (leia-se: trabalhar a recibos verdes) é poder numa tarde soalheira como a de hoje ceder à preguiça e ir passear para a Baixa de Lisboa...
Ao contrário do Porto que é charmoso mesmo em dias de nevoeiro (fica mais medieval e misterioso...), Lisboa precisa de Sol, de luz para melhor se revelar...
Andei a vaguear pela cidade e hoje até nem reparei que a Baixa pombalina já precisava de um novo Marquês... estava quase perfeita... cheia de gente contente em várias línguas de contentamento, nas esplanadas, nas ruas, a fotografar monumentos e detalhes e sorrisos... estrangeiros a convencerem-nos de que temos tanta coisa boa e que pouco apreciamos... porque passamos tempo demais em casa, no trabalho, passamos tempo demais ao lado da vida e sem perceber que a vida nos anda a passar ao lado...
Ainda tentei recrutar outras alminhas para se juntarem a mim numa esplanada e aproveitar a cidade até ser noite... mas nem toda a gente se pode dar assim à má (boa) vida...
Apanhei o 28 e vim para casa. No eléctrico tive direito a lugar à janela, que estava toda aberta, escancarada para a vida...
PS: Paula, acho mesmo que deves imprimir e deixar cair acidentalmente o papelito! Anda por aí muuuuita gente distraída!!
Palpita-me que ainda te vou agradecer crise
Crise pode ser sinónimo de maior exigência. Pelo menos, deveria!Crise é a oportunidade para separar o trigo do joio. Deveria!
Já não é tão fácil, nem tão inconsequente apostar nos assim assim e nos mauzitos. Agora parece desenhar-se o caminho dos bons... Se o país quer sair da crise não tem outra alternativa: optar pelos bons! Os empresários (os competentes), os que têm o poder de seleccionar equipas estão perante a evidência de que devem agarrar os melhores...
Concordo com o meu pai quando diz que estas alturas de crise dão mais oportunidades aos que têm mérito e perdoam menos os incompetentes...
Bem vistas as coisas a crise é mais justa... Estou optimista.
martes, 17 de marzo de 2009
Descomplicar é preciso
Na semana passada vi o "Happy go-lucky", ou "Um Dia de Cada Vez"do Mike Leigh. Que é como quem diz: isto (a vida) não é assim tão complicado, se nos esquecermos de complicar...Gostei da mensagem!
O mesmo parecem dizer estes senhores fotografados há uns anos (não sei por quem) durante as cheias do Ribatejo. Em vez de chorar sob as águas derramadas, toca a afogar as mágoas no abafadinho!!! Alguém me enviou esta foto e gostei logo dela pela mensagem de optimismo que deixa...O que também me faz lembrar um dos slogans da Amnistia Internacional: "Mais vale acender uma vela do que mal dizer da escuridão"
viernes, 13 de marzo de 2009
O Teatr'UBI faz 20 aninhos e cinco deles também são meus!
A universidade foi assim um misto de euforia e de desilusão: tive poucos professores daqueles que nos dão a volta a cabeça, que nos obrigam a pensar e nos fazem levantar às sete da manhã com a certeza de que o sacrifício vale a pena porque o que vamos ouvir nas aulas, o que vamos discutir ultrapassa os livros e as fotocópias...Tive muuuuuitos professores acetato, aqueles que pegam na cassete e no acetato e começam a despejar aquilo que despejam há anos e sempre da mesma maneira e estão pouco interessados em agitar as nossas cabecinhas, até porque as deles há muito que estagnaram no conforto do salário e das férias grandes!
A bem da verdade, a maioria dos meus colegas preferiam os professores acetato, mas talvez esteja a ser injusta!
Digamos que a minha passagem pela UBI foi sobretudo enriquecedora em termos humanos porque conheci alguns dos meus melhores amigos e muitos que já são só conhecidos. Apresentaram-me o país e a vida de outra forma... A maiata-matosinhense-portuense que chegou à Covilhã munida de blusão de penas (eu achava que ia mesmo nevar muitas vezes) convencida de que estava a aterrar atrás do sol posto, percebeu que na Covilhã cabia o país inteiro e foi sendo surprendida pelas diferenças gostosas de que é feito este Portugal: na minha terra diz-se estrujido, na minha faz-se refogado, eu uso carapins para dormir, as comidinhas da terra deste, os costumes da terra do outro, ...
Foram muitas jantaradas, muitas conversas de café, alguns pequenos-almoços antes de dormir... Foi também na Covilhã que mais e melhor cinema vi (obrigada Cineclube da Covilhã) e foi também lá que aprendi a apreciar teatro (uma cidade que nem é capital de distrito é sede de três companhias de teatro e oferece dois festivais anuais). Já para não falar do Ethnicu-Festival de Música Étnica, que infelizmente já não se faz.
Como eu tenho espírito de salta pocinhas e as aulinhas na universidade sabiam a pouco, fui experimentando um bocadinho de tudo: a primeira investida foi na tuna feminina As Moçoilas (fui a um ensaio no meu ano de caloira e percebi que a coisa não era bem o meu filme); depois inscrevi-me no inglês (foi com um inglês adoptado pela Covilhã que eu me preparei para o First Certificated); já no segundo ano entrei para a AISEC (associação de estudantes, sobretudo de economia e de gestão, que adoram siglas e gostam de brincar ao "vamos lá simular o mundo empresarial"), onde fiz parte do departamento de marketing e comunicação e saí ao fim de um anito; ainda no segundo ano participei no campeonato de futebol feminino do meu curso (fomos à final com o quinto ano e perdemos gloriosamente por penalties; foi também no segundo ano que conheci o Teatr'UBI... e dele só saí quando saí mesmo da Covilhã...
Juntei-me ao grupo para trabalhar nos bastidores: fazer cenários e o que fosse preciso... A primeira coisa que foi preciso fazer foi o espectáculo de homenagem ao 25 de Abril e todos eram poucos para simular a revolução na Praça do Município: "é a revolução! é a revolução!" foram as primeiras palavras que disse ao serviço do Teatr'UBI (quando ainda não desconfiava que o grupo ia mesmo revolucionar a minha vida), vestida de operária fabril, enquanto distribuía panfletos pela população!Na verdade, não disse muitas palavras mais porque me sentia melhor a interpretar movimento (a Dança é mais a minha praia). Uma vez, durante a leitura de poemas de Abril (a contribuição do Teatr'UBI para as comemorações da data no ano seguinte) fiquei mesmo sem palavras: esqueci-me da que terminava um dos versos do poema que estava a recitar - isto perante a praça cheia de gente! A sorte é que poucos estavam atentos à nossa performance!...
Depois disto e apesar de gostar muito dos ensaios e dos workshops, percebi que o meu "papel principal" era mesmo nos bastidores, na organização, e que no palco fazia melhor de figurante!
Mas não me esqueço das sensações: não me esqueço de quando alguém disse que o TeatroCine estava a abarrotar no dia em que íamos estrear o Hamlet; não me esqueço do que vi quando estava no palco a olhar para aquela plateia; não me esqueço da primeira "queimada" que bebi em Ourense com os Maricastaña, nem de lá cantar todos os anos o "Milho Verde"; não me esqueço do sabor da aguardente de ervas que bebíamos no bar do português, mesmo em frente ao belo teatro "à italiana" de Ourense, para aquecer a voz antes de entrar em cena; não me esqueço do ensaio corrido que fizemos durante a viagem de comboio (também) para Ourense; não me esqueço de que um dia saímos com foto de primeira página de um jornal galego (que a minha mãe mandou para o lixo, acidentalmente!!!!!!!!!!!!); não me esqueço do cartaz "a Técnica, o prazer de bem servir" que um dia caiu num final malandreco de "Os Mortos sem Sepultura"; não me esqueço de nos juntarmos na minha sala a fazer máscaras/alfinete em pasta de papel, que já eram a nossa imagem de marca e que oferecíamos a todos os que participavam no nosso festival; não me esqueço de "trabalhar" no bar do festival e de achar que atrás desse balcão (a minha mania dos bastidores) ainda nos divertia-mos mais porque eu dizia "mata" e o Sérgio respondia "esfola"!; não me esqueço das eternas discussões nas reuniões de segunda-feira entre pessoas que queriam mudar o mundo e que até o mudavam um bocadinho através do teatro; não me esqueço do prolongamento das reuniões na tasca Augusto com um bitoque XXL e vinho carrascão (deste, algo me diz que o meu fígado também não se esqueceu), que nos convencia que íamos mesmo mudar o mundo; não me esqueço do prolongamento do prolongamento das reuniões no Fora d'Horas, com alheiras às quatro da madrugada, a ouvir a banda sonora do "Underground" do Kusturica, perante os olhares da Dona Amélia reveladores de que até no Fora d'Horas já estavamos um bocadinho fora de horas; não me esqueço do Senhor Pinto, mais compincha, a servir-nos a derradeira rodada; não me esqueço dos abraçinhos e da corrente de energia que às vezes sentíamos porque estavamos a dar e a receber tanto e a crescer tanto...
Acabei o curso, mas continuei na Covilhã a trabalhar mais dois anos, em parte (ou sobretudo) porque me custava sair do Teatr'UBI e prescindir de tudo o que este grupo me estava a dar, porque o melhor da UBI, para mim, foi o Teatr'UBI!
O Teatr'UBI faz 20 aninhos e cinco deles também são meus!... e amanhã é dia de os reviver!
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