miércoles, 11 de marzo de 2009

Eu hei-de ir a Buenos Aires

Gostava de saber onde guardei a crónica que li do Miguel Sousa Tavares sobre Buenos Aires. Sei que a li há uns 15 anos, que me emocionou, que a recortei e guardei como a tantas outras, mas não a encontro. Acho que foi esse artigo que me fez substituir a obsessão por Praga pela obsessão por Buenos Aires! E uma obsessão não é lá coisa que se explique!

De todas as cidades que conheço e não conheço, elejo Buenos Aires. O Fervor de Buenos Aires de Jorge Luís Borges, o (meu) tango de Gardel e de Piazzola, a Buenos Aires de Júlio Cortázar (autor da obra que inspirou o Blow-up) e de outros que eu desconheço vem ter comigo ao CCB


viernes, 6 de marzo de 2009

Adelaide

Um dia perguntei-te se podia fazer-te uma entrevista sobre a tua vida. Despachaste-me com um “julgas que estou pra te aturar?!”. Tinhas sempre resposta prontinha “na ponta da língua”, mesmo quando só nos querias mandar “lamber sabão”. Não eras mulher de não dar troco: respostas às vezes lacónicas, outras amargas, outras bem-humoradas - que tu gostavas de conversas bem condimentadas e eras de raciocínio rápido.
Que interessante seria ter filmado essa entrevista para poder recordar e mostrar aos que não chegaram a tempo de conhecer esse teu lado mordaz, o teu lado sábio, o teu lado mais generoso e amigo e o outro mais sofrido, porque tiveste o teu período escuro, que muitas vezes (demasiadas) vi reviver nos teus olhos…
Eu não insisti, mas volta e meia pensava que tinha de te fazer essa entrevista e que um dia acabaria por te convencer… Afinal quantas coisas tem para contar alguém que nasceu em 1919, mesmo logo na ressaca da primeira guerra mundial, alguém que viu Salazar chegar ao poder e endoidecer, alguém que viu os soldados partir, a revolução dos cravos florir, alguém que viu as saias a subir e os decotes a descer e alguém que rezou tanto para eu nascer por achar que me ia perder mesmo antes de me conhecer…
E talvez fosse por aí que eu começasse a entrevista: afinal o que te deu avó para acreditares numa bruxa que disse que eu e a tua filha morreríamos durante o parto? Como se vive com essa angústia durante meses? Como se esconde essa angústia durante meses? Várias vezes me contaste essa história, mas sempre recordando o lado mais pitoresco de como a desgraçada da bruxa ficou com uma bela prenda em troca do serviço, felizmente defeituoso, de futurologia.
Tu também eras dada a futurologia, eras muito intuitiva, tinhas muitos “palpites” e até sabias quando o tempo ia mudar: os teus joelhos eram mais precisos do que a meteorologia.
E a tua imaginação era fértil, mesmo muito: era da tua boca e da do avô que eu ouvia as histórias de embalar… Bom, na verdade eram histórias de apaziguar, tentativa de impedir que eu e a minha prima guerreássemos por mais um centímetro de colchão antes de adormecer! E vocês não liam histórias. Nada disso! Eram inventadinhas na hora, “levantadas das unhas dos pés” como dizias…
Aliás dizias outras coisas muito engraçadas: “aqui há atrasado” quando querias falar do que já passou, “trinta por uma linha” e a melhor de todas: “levas já uma esquecida”, quando o tom era ameaçador e brincalhão…
Esse desembaraço verbal deve ter crescido nas calçadas da Ribeira de Miragaia, ou quando acompanhavas a tua mãe na venda de peixe porta-a-porta pelas casas mais abastadas do Porto, de outro Porto. Ninguém te enganava com o peixe, sabias sempre se era do dia, conseguias lê-lo nos olhos do animal. Conhecias todos os peixes pelo nome e sabias qual é que era para cozer e qual se deveria fritar e assar!
Que também eras boa cozinheira: fazias o melhor pastelão de broa e as melhores iscas do mundo, também nunca comi papas de serrabulho mais saborosas do que as tuas e poucas memórias olfactivas são tão presentes para mim como o cheiro a cominhos do teu arroz de feijão. Mas o teu ex-líbris era a “sopa de leite”, assim baptizada por ti. Encantou as sucessivas gerações de crianças que passaram pelos teus cuidados, antes e depois de percebermos que não levava leite!!! Muitas vezes era pela sopa de leite que eu começava o dia: hábito que cobiçava no avô, que gostava de a comer de pé e com garfo… Depois bebia-a, quando já só era “leite”! Continuo a gostar de comer sopa ao pequeno-almoço, embora à colher e sentadinha! E gosto de a comer fria no Verão…
E as tripas enfarinhadas quentinhas que íamos buscar à Bertinha todas as quintas-feiras de manhã… Às vezes duas vezes porque comíamos a primeira rodada antes de chegar a casa! E o segundo pequeno almoço que ias levar-me quentinho ao recreio… É certo que moravas a uns metros da escola e não percebias como eu era gozada por ser a única menina que comia pão com manteiga acabado de torrar e bebia leite com canela por uma chávena à hora do recreio! Ias tu e o Bolinhas, o único gato que foi um bocadinho meu e que me acompanhava para a escola e às vezes ia buscar-me quando saía…
Tu sempre gostaste de piqueniques ao pequeno-almoço: também o fizemos muitas vezes na Praia de Matosinhos, mesmo junto ao Paredão. Gostavas da praia muito cedo. Acho que gostavas mais do nevoeiro do que do sol… Lá íamos nós (de madrugada, achava eu) na camioneta munidos de farnel. Leia-se: garrafa térmica com cevada e leite e pãozinho fresco com manteiga. Regalávamo-nos com este manjar enrolados na toalha antes do sol chegar, mas com o mar à frente como consolo e a promessa de que passadas duas horas (na altura parecia que eram muitas mais) teríamos direito ao mergulho. E essa era a grande razão para se ir à praia (achava eu): furar as ondas e estar na água todo o tempo possível. Cada minuto a mais era arduamente negociado contigo!
Em casa, às vezes, eras companheira de brincadeiras: alinhavas connosco nas novelas! Fazias de governanta e servias a refeição onde nós achássemos que seria a sala de jantar ou o restaurante de fingir… quando estavas para aí virada porque quando não estavas mandavas-nos com o avô pastar as ovelhas… Eu gostava pouco porque tinha medo das marradas de algumas delas (nunca tive lá muito jeito para a pastorícia), mas lembro-me de aprender a desenhar no chão os números e as letras e de fazer as contas que o avô passava na terra com o cajado para nos entreter… outras vezes jogava à macaca connosco, que ele tinha genica suficiente para isso: fazia quilómetros em cima da bicicleta!
Nós também tivemos a fase das bicicletas: uma dor de cabeça para ti e muitas dores de joelhos para mim… Lá andavas tu a gritar por nós de vez em quando e a ralhares para não nos afastarmos das redondezas… Daquela vez que enfiei uma pedra pela carne do joelho dentro não sei se ficaste mais preocupada ou mais furiosa… Ainda tenho essa medalha de bom comportamento tatuada na pele.
Nos meus momentos mais ajuizados aproveitavas para me iniciar nas lides domésticas. Gostava particularmente de lavar roupa na tua pia. Aos sábados, a minha pia aumentava de tamanho: ia com a tia Alice (a minha avó dos sábados) para um grande tanque! Mexer com água e molhar-me até ao pescoço era sempre tentador… A minha mãe diz que água foi das primeiras palavras que aprendi: chamava-lhe baba quando a via a jorrar de cada vez que a minha mãe despejava a pia (numa leitura mais metafórica da coisa era quase de baba que se tratava).
Também tive a minha fase de jardineira que tu estimulavas com muito orgulho: atribuíste-me um metro quadrado de quintal e outro tanto à minha prima e ias orientando o processo. Chegámos a ter belos cactos (os que sobreviviam às regas), sardinheiras e muitas outras plantinhas que morriam de tanta remexida levarem, já que mudávamos a morada delas no mini jardim quase semanalmente!
Também deve ter sido contigo que comecei a gostar de futebol: eras muito aferroada pelo nosso FC Porto e grande admiradora do bi-bota de ouro Fernando Gomes. Já ao Pinto da Costa referias-te sempre como “trengo” ou “pantomineiro”!
Também falávamos de coisas mais sérias. Achavas que deverias fazer de mim “uma mulherzinha”. Lembro-me das conversas matinais que tínhamos quando me ias buscar a casa dos meus pais, nas semanas em que o meu pai trabalhava fora… Fazias-me “ver as coisas” fossem as coisas que fossem que me atormentassem na altura ou me fizessem atormentar os outros.
Mais tarde, tivemos conversas mais adultas. Contaste-me do teu amor destroçado de juventude e ensinaste-me que se segue sempre em frente, numa altura em que, pareces ter adivinhado, era isso que eu precisava ouvir…
Gostavas pouco de falar do teu passado, talvez porque o tinhas muito presente. Sei pouco da tua infância, que dizes ter sido feliz porque havia o que comer e o que vestir, apesar de teres perdido o teu pai cedo e teres mais cinco irmãos. Dizes que o pior veio depois e desse depois não quero eu aqui falar… Quando cheguei já tinha “passado o mau tempo” e contigo fui feliz e acho que comigo também foste…
Tenho saudades tuas e repito para mim que só podemos ter saudades de coisas boas e que, por isso, é bom ter saudades.

martes, 3 de marzo de 2009

Do que mais gostei foi da banda sonora!


Eu suspeitava que não ia perceber por que razão foi o "Slumdog Millionaire" que levou o óscar e não o "Benjamim Button"... Depois de ver o filme confirma-se: não percebo, ou antes, não concordo.

Não achei o filme mau de todo, achei só que era forçado, exagerado: não é credível aquela humilhação a que o apresentador do concurso sujeita o concorrente!

Recorrer à hipérbole com o propósito de sensibilizar o espectador e alertá-lo para a realidade (a da Índia) não pode ser a fórmula mais acertada, logo não deveria ser premiada...




viernes, 27 de febrero de 2009

Leixõõões!

Duas boas ideias

Uma portuguesa lembrou-se de trocar as voltas ao slogan "I love New York" e perguntar muito no estilo Carrie Bradshaw: Does New York love us back?
... e decidiu verificar in loco, durante um mês, que respostas dá a esta pergunta a cidade que quer atrair 50 milhões de turistas por ano até 2015. Mais interessante se torna a coisa, sabendo que Patrícia Soares da Costa (a dona da ideia) decidiu partilhar a experiência através do blogue http://bigapplebigheart.blogspot.com/... Como estudar o marketing de uma cidade pode ser uma excelente estratégia de marketing pessoal para um profissional de marketing!

Outra: Yann Arthus-Bertrand lembrou-se de entrevistar cinco mil pessoas (para perceber os seis mil milhões) em 75 países. As entrevistas estão filmadas e podem ser vistas aqui. Moral da história: quanto mais sabemos sobre os outros, mais sabemos que somos todos iguais nas coisas essenciais!! (sou muiiiiiito dada a estas rimas de pé de chinelo!!)



viernes, 20 de febrero de 2009

Portugal vs Espanha

O novo "vá para fora cá dentro" já está nos outdoors, nas revistas e nos jornais...
Praias desertas..., a esplanada do Silk com vista sobre a baixa lisboeta, numa noite de luar, sem gente...
Só numa das fotos se vê o elemento humano e é, penso eu de que, a melhor...
Espanha, pelo contrário, tira partido das pessoas, vende o ambiente de fiesta...
Ainda ontem falava com os amigos sobre a mega promoção que o "Vicky Cristina Barcelona" representa para a cidade... (Já para não falar no fabuloso "Paris je t'aime!") Tal como o "Residência Espanhola" o fez... Não é à toa que Espanha é o país que mais Erasmus recebe!!
Esta semana lia que o novo parque científico que está a nascer em Barcelona conta com o charme da cidade para atrair mentes brilhantes!! Não duvido que seja por aí o caminho...

viernes, 13 de febrero de 2009

E no início era o tremoço

Ela era tímida
Ele era atrevido
Ela era linda de morrer
Ele comia tremoços
Ela estava a fazer-se difícil
Ele decidiu atirar-lhe umas casquitas de tremoços
Eles não me contaram detalhes da primeira dança
Eu nasci uns anos depois, ... há 35.